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Valter Malveiro, o chef de cozinha que queria ser arquiteto e agora pinta quadros

As peripécias da vida guiaram-no por diversos caminhos. 25 anos depois, regressou ao mundo das artes.
A surpresa a Nuno Markl.

Valter Malveiro sempre teve jeito para o desenho. Quando era miúdo, já desenhava alguns rabiscos nos livros da escola. As professoras não eram fãs, mas todos os amigos diziam que ele tinha talento. Por isso, na hora de escolher que rumo tomar no ensino secundário, decidiu que queria ingressar no curso de Artes.

No entanto, como não conseguiu a vaga, foi para Economia, onde os amigos estavam todos. “Foi um ano perdido, mas no ano seguinte consegui entrar para Artes. É claro que era tudo muito metódico, cheio de regras e geometria descritiva. Todas aquelas disciplinas despertaram em mim um amor pela arquitetura, mas foi um sonho que acabei por não seguir”, conta à New in Seixal.

Com o objetivo de ter independência financeira dos pais, foi trabalhar para a McDonald’s com apenas 16 anos. Como estava a trabalhar, não seguiu a via universitária, o que lhe iria abrir portas para a arquitetura. Esteve na cadeia de fast food durante três anos e, depois, foi para as caixas de supermercado do Continente.

“Como não me licenciei, estava a fazer-me muita confusão não ter algo que me garantisse o meu futuro. Em conversa com um vizinho da minha sogra, que trabalhava no hotel onde estou atualmente, soube que precisavam de aprendizes de cozinheiro. Com apenas 26 anos, candidatei-me ao cargo, apesar de nunca ter trabalhado numa cozinha”, confessa.

À New in Seixal, confessa que foi uma experiência complicada e que chegava a casa sempre com vontade de desistir, pois considerava que o mundo da cozinha não era para ele. Enganou-se. Aos 27 anos, tirou a carteira profissional na Escola de Turismo e Hotelaria de Lisboa e conquistou um lugar no Skylonge do Corinthia Lisbon Hotel, onde faz cozinha ao vivo ao pequeno-almoço e um pouco antes de almoço. Com 43 anos, continua neste serviço. No entanto, a vida de Valter está a dar mais uma volta.

“Nem tudo o que veio com a Covid-19 foi mau”

Um dos setores mais afetados pelas restrições causadas pela pandemia de Covid-19 foi a restauração. Com o hotel a funcionar em serviços mínimos, Valter ficou em casa, o que se transformou num problema, uma vez que não consegue ficar parado.

“Sou muito ativo, vou trabalhar, faço as viagens para Lisboa e de volta para o Seixal, adianto o jantar, trato dos miúdos e vou com eles ter aulas de música, sou mesmo assim, tenho de estar a fazer alguma coisa”, diz. Para se entreter durante o confinamento, pegou numas telhas velhas que a sogra tinha, depois de ter remodelado o telhado da casa que tem no Alentejo. Explorou os materiais escolares da filha e do filho e começou a pintar a telha, fez uns traços da cabeça de um veado e compôs a pintura.

A primeira experiência.

A verdade é que não saiu tão mal, como tinha mais telhas começou a treinar e a aperfeiçoar a técnica e o controlo da mão. Mergulhou nos vídeos de YouTube e tutoriais e começou a comprar os materiais usados por pintores profissionais. Com o tempo, e depois de ter pintado a cabeça de um cavalo, os amigos de infância começaram a pedir para Valter fazer retratos dos cavalos deles.

“Sempre vivi no concelho do Seixal, nasci em Lisboa e todos na minha família são alentejanos, daí as minhas pinturas fugirem para as paisagens alentejanas, os meus pais vieram para cá novos, mas as raízes são de lá, temos lá casa, inclusive. Vieram em busca de algo melhor com alguns amigos, lá não conseguiam o que procuravam, a vida no campo não era fácil. Crescer aqui foi bom, tive uma infância muito rica e boa, não a trocava por nenhuma outra e os meus amigos são como irmãos para mim. Vieram para uma quinta particular com outras pessoas do Alentejo e todos tiveram filhos ao mesmo tempo, somos cinco rapazes, crescemos juntos e fomos criados nas casas uns dos outros. Uma coisa difícil de ter em meios urbanos, era uma bolha de liberdade”, explica.

Foi exatamente para esses irmãos de pais diferentes que começou a desenhar e a aceitar pedidos. Obviamente para eles não cobrou, foi um teste e uma presente pelos longos anos de amizade e companheirismo. Passado algum tempo, decidiu aventurar-se nas telas, pintando, pela primeira vez, uma paisagem alentejana.

Demora cerca de 20 horas a fazer cada trabalho e utiliza telhas velhas, a marca de assinatura, telas normais. Pinta com tinta acrílica, óleo e um mix dos dois tipos de pintura. “Quando estou a pintar sozinho, pensava que era maluquice dos artistas, passo por muitas emoções, seja euforia nos momentos bons ou stress nas piores pinceladas, às vezes tenho de largar telas e ficam lá durante um dois meses paradas e, depois quando volto, correm bem”, acrescenta.

Diz que se pudesse fazia vida da pintura e de toda a arte que faz, mas que está bem no hotel onde trabalha, está satisfeito com o emprego, o clima e o ambiente do trabalho. Pensa na arte como uma mealheiro que lhe vai dar uma boa qualidade no futuro e que o vai permitir viver feliz.

O quadro que se tornou viral

“Se algum dia venderes uma peça tua, não vendas ao desbarato, vais arrepender-te e remoer por dentro porque não foi dado o valor que merecias pela tua arte, mais vale ficares com ela ou então, o melhor de tudo, dá a amigos teus”, esta foi a frase de Helena Lopes, prima da mulher de Valter, palavras que nunca mais lhe saíram da cabeça.

Desde que se lembra que adora o Nuno Markl, diz que desde os primórdios que assistia e acompanhava o trabalho dele, sempre achou muita graça. Por isso, num puro acaso, Valter viu a oportunidade perfeita para agradecer os bons tempos que Nuno o fez passar. “Pode não ser o artista que mais me fez rir, mas foi o que me fez rir durante mais tempo, ele é muito consistente e tem um humor característico e natural”, acrescenta.

Pintou um quadro com a Estrela da Morte da saga “Star Wars”, mas parecia estar muito vazio. Um dia, estava a navegar na Internet e reparou numa caricatura digital feita por um artista que se chama Rui Duarte. Era um desenho do radialista a segurar um sabre de luz, onde até o próprio foi comentar e disse que estava muito bom.

“Vi e pensei que conseguia pintar a caricatura, falei com o Rui e pedi autorização para utilizar o desenho. A ideia é do Rui, mas eu é que o pintei e fiz à mão. Acabou por ficar um pouco diferente, naturalmente, mas foi com base no desenho do Rui. Ele disse logo que podia fazer o que eu quisesse. Foi aí que pintei e depois entrei em contacto com a Vera Fernandes da Rádio Comercial. A equipa organizou uma surpresa e entreguei o quadro ao Nuno. Ele foi muito simpático ficou todo contente”.

Depois de ter ido parar às redes sociais de Nuno Markl, os trabalhos de Valter tornaram-se ainda mais virais. Desde então, tem-se dedicado cada vez mais à pintura e abraçado novos desafios.

 
 
 
 
 
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