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Opinião: “A baía do Seixal e as suas gentes podem e devem acreditar no futuro”

Leia a crónica exclusiva do fotógrafo Jorge Velez para a New in Seixal.
Créditos: Jorge Velez.

É indiscutível para mim: não sou um escritor, tão pouco um jornalista, mas lançado o repto não podia negar escrever sobre o meu, o nosso Seixal. Posicionada na margem sul do rio Tejo, a vila do Seixal abraça uma baía ancestral e de beleza ímpar. Aqui, foram construídas naus usadas nos Descobrimentos mas também nasceram e instalaram-se várias indústrias, em meados do século XIX, como as ligadas à cortiça: a Mundet e a Wicander.

A fisionomia, a proximidade de Lisboa bem como as águas calmas da baía fizeram com que surgissem pescadores, calafates, marinheiros e carpinteiros de machado, que durante anos foram o esqueleto de uma economia local. A mesma proximidade ao rio e o carácter singular desta baía trouxeram moinhos de maré, estaleiros navais e atividades ligadas à pesca assim como a seca do bacalhau, na Ponta dos Corvos.

Durante anos o Seixal viveu uma certa anonimidade, apesar de ser a sede de concelho e estar muito perto da capital Lisboa. Era uma pacata vila de pescadores com gente simples, que vivia o seu dia a dia na rotina diária de uma vila serena e tranquila. Também a cultura sempre teve uma atenção especial nesta vila. Prova disso são as suas duas filarmónicas, a Timbre Seixalense e a Sociedade União Seixalense.

Da minha adolescência lembro-me de muitas coisas que num abrir e fechar de olhos mudaram. Tenho gratas memórias em ir à Praça, que se situava onde hoje está a estátua dos pescadores, aos sábados com os meus pais. Todos os sábados via uma praça a fervilhar de vida. O mesmo acontecia quando passava com a minha família pela Rua Paiva Coelho, que se encontrava sempre cheia de feirantes e visitantes.

Recordo-me de apanhar um autocarro da Beira Rio, via Seixal, e passar na porta da Wicander. Agora apenas se perpetua a chaminé desta fábrica. Depois passava pela porta da Mundet, onde via um mar de gente a sair. Hoje, o antigo refeitório desta antiga fábrica de processamento de cortiça é um marco da vila. Tornou-se num restaurante. Lembro-me também recorrentemente das festas de S. Pedro. Eram as primeiras festas do concelho e, durante anos, das mais marcantes devido à sua grandiosidade.

Já que falamos nelas, recuemos aos hits dos anos 80. Quem é que não se lembra do maravilhoso hit “O teu perfume Patchouly” e do Grupo de Baile? Contava com a participação de músicos da vila do Seixal que chegaram aos tops nacionais. De uma ponta à outra desta vila ouvia-se, incessantemente, esta música num loop constante.

Recordo-me também de tempos a tempos se avistar um bacalhoeiro atracado em frente ao Seixal. Vinham da Terra Nova e traziam bacalhau, que era processado e seco depois na Ponta dos Corvos.

Ao contrário dos dias de verão de hoje em dia não existiam possibilidades económicas, na altura, para visitar praias longes. Por isso mesmo, ir à “Praia dos Tesos” era um must. Apanhava-se a baleeira no cais e lá se ia dar um mergulho, mesmo em frente ao Seixal. Diziam que era muito bom, porque era rico em iodo. Quanto à poluição, não era uma preocupação nessa época.

Créditos: Jorge Velez.

Anos passaram e a morfologia da vila foi acompanhando as mudanças económicas e sociais. O mercado que agora existe foi edificado sobre o antigo cemitério, o tribunal mudou-se e os serviços da Câmara Municipal deslocaram-se para o edifício contemporâneo, agora existente. Esta dinâmica mudou os serviços e, por arrasto, a vida da vila.

A par do abandono lento da atividade piscatória, da deslocalização de atividades e do encerramento das fábricas Mundet e Wicander, a vila foi perdendo ação e dinâmica social, tornando-se numa vila “triste”. Da atividade ligada ao rio restam os estaleiros e um ou outro pescador. Porém, a autarquia soube de forma profícua promover e dar uma nova dinâmica à vila e, hoje, o Seixal fervilha de atividades turísticas, culturais e gastronómicas. Atualmente é, aliás, uma referência nacional de empreendedorismo e inovação.

O Seixal é um marco e mercê de uma nova ordem social. Muito mudou e vai mudar. Seja o centro de estágio do Benfica, das novas urbanizações de luxo que surgem, dos novos empreendedores que trazem diariamente ação cultural, turística e gastronómica. Tudo está mesmo a mudar. Um novo tecido social cresce todos os dias nesta vila.

A proximidade de Lisboa, o cariz social desta vila, a pacatez e a segurança lusa trouxeram a esta baía novos povos com poder económico: as comunidades francesa e sueca são uma realidade. Os festivais de música, as festas temáticas, os programas de televisão assim como os festivais gastronómicos dinamizaram e trouxeram gente de outros lados até aqui.

Uma aposta clara nos vetores turismo, cultura e gastronomia vão ser a charneira de um concelho e de uma vila melhor. O Festival de Jazz do Seixal é um marco, a Feira dos Sabores da Baía ou as imensas atividades turísticas promovidas pela autarquia e ou por operadores privados constituem-se como um elemento chave no progresso deste belo local.

Também muitos restaurantes e chefs de cozinha têm apostado em estabelecer-se no nosso Seixal. No presente, o setor da restauração é responsável pelo novo e significativo crescimento de visitantes. Existem, nesta vila, restaurantes para todos os gostos. Lisboa à Vista, que consiste num antigo barco que fazia a travessia Seixal-Lisboa, é uma referência por ser distinto. O antigo refeitório da Mundet, já referido anteriormente, é um outro local a visitar.

Vila adentro, junto da estátua dos pescadores, encontra uma outra opção excelente: a taberna 100 Peneiras. A sua ementa assenta em costumes e tradições locais, elaborada pela chef Dina Oliveira. Já no outro extremo do Seixal pode visitar o restaurante Letras e Talheres, com uma vista privilegiada sobre a Baía. Assim, com poucas palavras, trouxe ao de cima alguns dos muitos e bons locais onde se podem passar bons momentos com amigos e ou familiares.

No entanto, muito há ainda a fazer e pode e deve ser feito, tal como o melhoramento dos espaços verdes. Deve-se apostar em mais cuidados, melhoramento de estacionamentos, assim como regras mais apertadas no núcleo histórico.

À semelhança de intervenções já feitas noutros mercados, quer no concelho quer em outras localidades, o Mercado Municipal do Seixal podia e devia ser intervencionado. O seu local privilegiado e vista sobre a baía podia constituir-se como um polo com comerciantes tradicionais e restauração. Tais melhoramentos são imperativos para atrair investimento.

Esta é e pode ser uma vila de referência nacional nos vários vetores apontados ao longo deste artigo. E assim acredito que possa vir a ser. Com investimentos no horizonte como o novo Hotel Mundet, uma marina e melhores infraestruturas, haverá um crescimento tanto a nível nacional como uma nova projeção além fronteiras.

Com tudo isto quero dizer que o Seixal é uma terra ancestral, com tradição e história. A baía do Seixal e as suas gentes podem e devem acreditar no futuro. É certo que pode não ser cor-de-rosa mas será, de certo, colorido, arrojado e inovador.

De seguida carregue na galeria para ver algumas imagens do Seixal captadas pelo fotógrafo Jorge Velez.

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