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Não há dúvida: a Quinta da Fidalga é um verdadeiro tesouro histórico e de lazer do Seixal

A NiS visitou este equipamento icónico do concelho e conta-lhe todas as lendas e histórias que esconde.
Fotografias de Rafael Marques.

Entre os espaços mais emblemáticos do concelho do Seixal há um em específico que não pode, de facto, ser esquecido: a Quinta da Fidalga. Além de ser um equipamento com uma extrema riqueza histórica, funciona ainda como um lugar onde os seixalenses e turistas podem, de forma absolutamente gratuita, aproveitar os seus tempos livres. Um palacete, várias dezenas de metros de espaços verdes e relíquias de outras séculos: fique a saber tudo o que pode encontrar (e visitar) na Quinta da Fidalga.

Por corresponder a uma das paragens obrigatórias para quem visita a região, a NiS aceitou o convite da autarquia seixalense e foi conhecer todos os segredos e recantos únicos da Quinta da Fidalga. Para isso, começámos por contar com a ajuda do presidente da Câmara Municipal do Seixal, Paulo Silva, que nos apresentou, desde logo, o contexto histórico deste espaço único, adquirido no início desde século pelo município, afirmando-se assim no Património Cultural do concelho do Seixal.

Segundo o autarca, os registos da Quinta da Fidalga remontam ao século XVI e, mais especificamente, ao património da família Gama Lobo. Como o próprio nome sugere, a ligação do espaço a esta família fez com que a população passasse a associar a Quinta da Fidalga à família de Paulo da Gama, irmão do navegador português, Vasco da Gama. Nasceram assim, sem qualquer tipo de prova histórica, diversas lendas que colocam Paulo da Gama nesta casa, onde se pensa ter vivido com a sua família.

Nesta tradição oral, surgiu ainda o boato de que teriam sido construídas na frente ribeirinha do Seixal algumas das naus que partiram para a Índia, aquando da descoberta do caminho marítimo. Porém, não há nenhum registo oficial que efetivamente o comprove. Pelo contrário, a certeza histórica que se tem é a de que esta quinta, inicialmente apelidada por “Quinta de Vale de Grou”, terá sido integrada no dote de D. Maria de Almada, filha de António Mota de Almada, escrivão da Casa da Índia, no século XVI.

Um dos recantos da Quinta da Fidalga.

O casamento desta nobre deu-se com Fernão Gomes da Gama e, segundo registos históricos, é por essa altura que a linhagem da família Gama Lobo se assume, dali a muitas outras gerações, como a proprietária da agora conhecida Quinta da Fidalga. Atualmente, esta relíquia cultural é o resultado da vivência de centenas de pessoas na quinta ao longo de, pelo menos, quatro séculos.

Podemos descrever a Quinta da Fidalga como um tesouro histórico exclusivo, brilhantemente preservado ano após ano. Hoje, corresponde a um dos exemplos mais verídicos do que foram em tempos as quintas agrícolas e de recreio que marcaram, por vários séculos, o território seixalense. Recorde-se que o principal propósito da quinta era precisamente o de lazer, funcionando como refúgio dos nobres da grande cidade, Lisboa, que em períodos pré-terramoto, não tinha esgotos e era extremamente quente.

Isso explica o facto de por toda a quinta existirem, ainda hoje, lugares onde a água está constantemente presente, precisamente para garantir alguma frescura não apenas às pessoas que ali passavam o seu tempo de descanso como também às estruturas existentes. Por exemplo, em praticamente todos os cantos da Quinta da Fidalga é possível verem-se fontes, como a Fonte de Neptuno, a Fonte Nascente e a Fonte das Sereias. Além disso, o sistema de irrigação não passa despercebido a quem visita a propriedade.

“É um sistema de levadas por gravidade que irriga todos os pomares e jardins da quinta, inclusive em cima do muro existe um sistema hidráulico de rega em toda a quinta e ainda hoje conseguimos ver esses canais”, explica-nos Raquel Proença, a técnica que acompanhou a NiS ao longo de toda a visita à Quinta da Fidalga (e aos seus equipamentos).

Um dos ex-libris do equipamento e que demonstra com toda a clareza a presença constante da água é o Lago de Maré, que funciona exatamente como o próprio Moinho de Maré, em Corroios, que a NiS teve oportunidade de visitar quando fez, em abril, a Rota Barcos do Tejo, a bordo do Bote Fragata Baía do Seixal. “É uma estrutura hidráulica como há poucas na Europa. A entrada e saída da água dão-se conforme a subida ou descida do rio, que está ligado ao lago por uns canais”, esclarece ainda Raquel.

O Lago de Maré.

Outro dos detalhes dentro da propriedade que fascina muitos dos seus visitantes são as casas de fresco que, juntamente com a água, garantiam exatamente o resguardo do calor intenso que se vivia nos dias mais quentes na região nos últimos quatro séculos. Tratam-se de estruturas no topo que proporcionavam sombras e que, por isso, convidavam a que senhoras nobres pudessem estar ali a beber, por exemplo, o seu chá.

É preciso salientar que esta foi sempre uma quinta da alta sociedade. Inclusive, até mesmo no século XX, terá sido frequentada por altas patentes do panorama português, como o Cardeal Cerejeira e até mesmo António de Oliveira Salazar. Teriam, por isso, de estar reunidas as condições para servir da melhor maneira possível todas estas personalidades nobres da sociedade portuguesa.

As fontes icónicas da Quinta da Fidalga

Depois de a NiS ter passado por entre os jardins em labirinto da quinta, pelo Lago de Maré e de nos sentarmos à sombra das casas de fresco, ganhámos fôlego para caminharmos até às três fontes de água que marcam a propriedade seixalense. Todas elas têm caraterísticas diferentes já que cada uma terá sofrido intervenções ao longo dos séculos.

Localizada do lado esquerdo (se estivermos virados de costas para o rio Tejo), está a Fonte Neptuno. Esta será possivelmente a mais arcaica e reúne uma técnica que se estende depois às duas restantes fontes: o embrechado. Neste caso é possível ver desenhos geométricos feitos a partir da junção de pequenos tijolos, pedras e conchas. No centro é facilmente identificável a figura de um crocodilo e ainda de Neptuno, apesar de a escultura se parecer mais com o rosto de um índio do que com um Deus.

A Fonte Neptuno.

Ainda na mesma fonte há azulejos que correspondem ao séculos XVII e XVIII e, justamente por isso, nesta estrutura não se consegue datar quando foi a última recuperação ou transformação. A presença de cimento, por exemplo, é outro dos aspetos que deixa em dúvida esta questão cronológica, uma vez que é um material muito mais recente. Por outro lado, a presença do vidrado irregular já remete para uma época mais distante na história.

Já na Fonte Nascente percebe-se nitidamente, pelo tipo de trabalhado, que é uma estrutura mais recente. Reconhecem-se também através da técnica do embrechado, desenhos de barcos, possivelmente naus. Na mesma zona, embora em bancos, veem-se ainda azulejos hispano-árabes (que também existem na varanda do Palacete), com formas geométricas e florais.

Quanto à Fonte das Sereias, situada no lado oposto da Fonte Neptuno e próxima da Oficina de Artes Manuel Cargaleiro, é possível reconhecer-se estas representações de personagens mitológicas, cujas caudas estão pintadas com instrumentos musicais da época, como a viola e a pandeireta. No centro (e, de facto) bem alto pode ainda observar-se a parte da estatuária, que seria uma figura feminina, feita em terracota. Está, apesar do esforço de preservação, um pouco mais danificada.

A riqueza natural e a capela intacta da propriedade seixalense

Nos vários caminhos que percorrem a Quinta da Fidalga encontra-se natureza abundante, porém, apesar de se reconhecer o plátano existente, ainda não houve um estudo intensivo sobre o património natural existente no espaço. De qualquer forma, de 15 em 15 dias acontecem oficinas de desenho na quinta que se focam, além das estruturas edificadas, no património vegetal do equipamento.

Ainda sobre a capela, que se pode descobrir no caminho que vai da Fonte Nascente à Fonte das Sereias, é inegável o trabalho sumptuoso feito com conhas em que a cruz deste pequeno templo, por exemplo, é feita com navalheiras. Podem ainda ver-se também, no seu interior, restos de pratos da loiça Cavalinho.

“A Quinta da Fidalga hoje em dia é um dos principais polos culturais do concelho do Seixal e tem caraterísticas únicas. É dos nossos ex-libris e ainda por cima está enquadrada aqui com a nossa magnífica Baía. Quando me perguntam espaços no Seixal para visitar, este é sempre um dos que recomendo vivamente”, partilha o atual presidente da Câmara Municipal do Seixal, Paulo Silva.

E acrescenta: “Aqui vivem-se viagens únicas, que se complementam com a Oficina de Artes Manuel Cargaleiro e o Centro Internacional de Medalha Contemporânea”. Estes são dois equipamentos construídos posteriormente em infraestruturas que em tempos eram parte habitável da Quinta da Fidalga e hoje ganham uma maior dimensão graças ao papel que têm dentro da própria quinta.

O Presidente da Câmara do Seixal, Paulo Silva, acompanhou-nos na visita.

A Oficina de Artes Manuel Cargaleiro

A Oficina de Artes Manuel Cargaleiro projetada pelo conhecido arquiteto português Siza Vieira destaca-se como um dos trabalhos meticulosos, nomeadamente no que diz respeito aos materiais utilizados, desta figura nacional incontornável. Conta-nos Raquel Proença, a técnica especializada da Câmara Municipal do Seixal, que apesar de aparentar ser uma construção simples teve os seus desafios.

“Siza Vieira cria aqui soluções muito rebuscadas de encaixe das pedras. Algumas delas são colossos, por isso, foi muito difícil fazer as montagens. Houve umas que não vinham com o ângulo certo e, nesses casos, tiveram de ser recusadas e vir de novo. É uma verdadeira prima-dona do material.”

No seu interior encontram-se de forma temporária ao longo do ano várias exposições. No entanto, até ao momento, só foram desenvolvidas mostras ligadas a Manuel Cargaleiro, uma vez que este é um espaço dedicado às suas obras. Houve ainda outros momentos expositivos com trabalhos de Siza Vieira e inclusive a zona parietal do equipamento é revestida por algumas das suas criações, em formato de réplicas.

“São réplicas originais. Siza Vieira trabalha com a Viúva Lamego que é uma fábrica artesanal de azulejos e todas as réplicas são feitas pela mesma empresa. Apesar de serem réplicas de um original, que está colocado e num contexto especial, acabam por ser originais também aqui porque foi a Viúva Lamego que os fez”, afirma ainda Raquel Proença.

De seguida, carregue na galeria para conhecer melhor todos os recantos da Quinta da Fidalga.

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