na cidade

“Mudar todos mudamos — o difícil é aceitar a mudança”

A psicomotricista Vanessa Estevão reflete ainda neste artigo de opinião sobre o desenvolvimento do ser humano até ser adulto.
É o novo artigo na NiS da profissional seixalense.

Março começa com a letra “m” tal e qual como a palavra “mudança”, que é o tema central deste mês. A escolha de trazer esta temática passou pelo facto de que além de a mudança fazer parte do dia a dia de um profissional psicomotricista, também é algo que nos acompanha ao longo da vida. Todo o ser humano cresce e aprende com o meio onde está inserido e isso muda-o, tornando-o mais maturo e capaz. 

O que acontece é que à medida que uma pessoa muda, isto é, se desenvolve, gera também mudança onde está inserida. Todos nós somos seres holísticos, que integram vários sistemas, que interagem entre si e com os sistemas que nos rodeiam, influenciando-se assim mutuamente. Por isso, somos também designados seres sociais. Seres que necessitam dos outros para mudar e gerar mudança, de forma a manter o equilíbrio.

Tal como o nosso corpo está presente em diferentes contextos ao longo da vida e neles cria as próprias relações, também a rotina diária do psicomotricista é feita de vários contextos e várias relações, ou, como prefiro dizer, de viagens psicomotoras, carregadas de vivências, experiências, conhecimentos, ensinamentos, partilhas, momentos de reflexão e adaptação.

Como psicomotricista, se há algo que aprendi com esta profissão foi o facto de permitir com que possa estar ainda mais atenta a tudo o que me rodeia. Aprendi muito sobre mim própria na descoberta que faço dos outros. E, com isso, mudei e mudo todos os dias um pouco aquilo que sou, melhorando, aperfeiçoando e adaptando-me a cada realidade.

É desta mudança que vivo e que giro a mudança nos miúdos com quem lido. É verdade. O desenvolvimento muda e mudaria por si só, mas quando se fala de uma pessoa com necessidades especiais fala-se de uma necessidade de alterar e mitigar alguns comportamentos, não transformando a pessoa, mas mudando aspetos do seu desenvolvimento para a integrar em sociedade. Só assim é capaz de estar mais adaptada e, com isso, incluída para participar, ganhando dessa forma qualidade de vida.

Assim fazemos a ponte com outro dos temas importantes deste mês de março que muito tem mudado (e ainda bem) na nossa sociedade, mas sobre o qual há ainda um caminho a consolidar: os direitos da mulher. Aquela que muitas vezes teve de mudar a sua forma de ser, falar, sentir, expressar, comunicar e pensar para se incluir num modelo de sociedade que não era respeitador das mesmas oportunidades para todos.

Por tudo o que se lutou e por tudo o que ainda há por lutar para que a igualdade de género seja uma realidade e não uma expectativa, para que a inclusão e a integração na sociedade existam, é necessário que continue a ser celebrado, como já o é há vários anos, o Dia Internacional da Mulher a 8 de março.

Tal como o dia 21 de março, data em que se assinala o Dia Mundial da Trissomia 21 e mais uma vez se fala de inclusão, de aceitação e de que ser diferente não retira capacidade nem acresce uma necessidade de mudança de um conjunto de pessoas para se aproximarem de uma norma. No mesmo dia celebra-se a primavera, mais uma época de mudança, em que os campos se enchem novamente de cor, florescem as flores e os dias começam a ficar mais longos.

Incrível pensar como a mudança está em tudo. Desde as decisões políticas e sociais, ao preconceito e estereótipos e se alarga até à natureza. Pois bem, a mudança está presente e é uma necessidade — em todas as áreas da nossa vida e ao longo desta para que o ser humano possa evoluir.

A mudança vista desde o nascimento

Sabe-se que os três primeiros anos de vida de um bebé passam a voar. São, aliás, um dos períodos mais importantes da vida e em que mais mudanças ocorrem. Todos os dias, o bebé é exposto a estímulos variados, naturais ou intencionais, e isso faz com que mude e adquira novas habilidades e conhecimentos. Assim, constrói e transforma as suas ligações neuronais, consolidando e formando a todo o momento variadíssimas sinapses novas.

O que talvez não saiba é que as redes neuronais não são algo estabelecido no início e que se prolongue para o resto da vida. Ora vejamos: até os neurónios e células do corpo mudam ao longo da vida, de acordo com os ambientes, interações e vivências a que o miúdo está exposto, na família, na escola e na sociedade em geral. Por isso, é da máxima importância mudar também a forma como se olha para o desenvolvimento e para o que é expectável dos bebés.

Hoje, ao observar uma sala de uma creche ou de um jardim de infância é possível ver a representação de uma sociedade, em miniatura. Naqueles espaços, através da brincadeira, do lúdico e do jogo simbólico, criam-se autênticas representações do mundo adulto. Porém, há algo em que estas representações e mímicas se destacam: a criatividade e imaginação. A verdade é que com a responsabilização da vida adulta, a perspetiva muda. Mas será que devia mudar?

A criatividade e a imaginação da vida adulta

Pessoal e profissionalmente o autoconhecimento e o desenvolvimento pessoal têm-me feito defender e procurar implementar uma rotina mais saudável, onde o tempo para ser, estar e criar ganha também destaque, além do tempo para executar e cumprir. Na verdade em que o melhor de se ser miúdo permanece.

Como escreveu Albert Einstein, “a criatividade é a inteligência a divertir-se” e eu não tenho dúvidas disso. Muitas vezes os miúdos com quem trabalho, quando falam comigo, é comum dizerem: “a professora é adulta, a mãe e o pai são adultos”. Porém, quando lhes pergunto: “então e eu, não sou adulta?”, ficam muito hesitantes, e dividem-se na resposta. Algumas vezes dizem que sim, mas tantas outras dizem que não. E a justificação que apresentam é sempre a mesma: “não, porque tu brincas”.

Não deveríamos todos brincar? E não deviam todos os adultos brincar com os mais novos? Onde é que o adulto deixou de ter necessidade de brincar? A responsabilidade não nos retira a necessidade de movimentar o corpo, explorar novas habilidades, exercitar a criatividade e a imaginação ou, pelo menos, não nos deve tirar. Tudo isto são competências que podem ser estimuladas a brincar. A necessidade mantém-se, o brinquedo e o contexto de brincar é que vão mudando ao longo da vida.

Para finalizar, e porque não quero que se sintam perdidos neste artigo de reflexão sobre a mudança, o desenvolvimento e as celebrações de março, quero frisar que tudo isto se integra. Se observarmos as mudanças subtis da natureza que asseguram a transição do inverno e dão lugar à primavera, conseguimos entender a luta das mulheres, que muitas vezes em silêncio, de forma também subtil, tiveram de conquistar o seu lugar.

Tal e qual como as pessoas com deficiência, que ainda aos olhos de hoje de uma sociedade que pouco aceita o diferente, tem de se fazer presente e assumir-se parte ativa na mudança por um mundo melhor, mais inclusivo e representativo para todos.

E é nesse mundo ideal que acredito e sonho como psicomotricista continuar a transformar vidas (e a transformar-me também a cada história). Aceitando a realidade do desenvolvimento, sem esperar apenas que o esperado aconteça, sem qualquer estímulo. Pode parecer estranho, mas desejo também continuar a brincar, para que a minha criatividade e imaginação nunca se percam e que aos olhos dos miúdos não mude assim tanto para deixar de ser vista como uma deles.

E vocês? Já se questionaram por quantas mudanças passaram até hoje?

Quem é Vanessa Estevão?

Vanessa é licenciada e mestre em Reabilitação Psicomotora e faz intervenção em psicomotricidade na infância no contexto de estimulação e terapêutico. Além disso, é responsável pela página online do Movimento Brincar. Nesse espaço pretende levar todos a refletir sobre estes e outros assuntos ligados à sua área. Pode encontrar outras informações na sua página profissional do Instagram.

Para desmistificar esta e outras temáticas relacionadas com a infância, o desenvolvimento, o autoconhecimento, a psicomotricidade, o bem-estar físico, mental, emocional e social, a psicomotricista seixalense Vanessa Estevão, em parceria com a NiS, está pronta para escrever e dar a conhecer, duas vezes por mês, alguns dos seus estudos.

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