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Fomos conhecer o polo da medalhística no Seixal — é o paraíso da criação artística

A NiS esteve no Centro Internacional de Medalha Contemporânea. Avisamos já: esqueça as medalhas tradicionais, tipo bolacha Maria.
Fotografias de Rafael Marques.

Quem entra pelo portão da Quinta da Fidalga e resiste aos encantos naturais e de infraestruturas desde logo visíveis, vai poder descobrir, se olhar precisamente em frente, o Centro Internacional de Medalha Contemporânea. O edifício, inaugurado a 25 de abril de 2021, afirma-se como um espaço único, não apenas para o concelho do Seixal, mas também para Portugal. A verdade é que não existe nenhum outro equipamento em território nacional a homenagear, de forma internacional, a medalhística contemporânea.

Se o Seixal é atualmente conhecido pelo jazz, muito por culpa do SeixalJazz, que se encontra a decorrer, também em tempos foi uma cidade diretamente associada à medalhística. Sabe-se, pelo menos desde 1999, que se realizam bienais de medalha, ou seja, encontros internacionais de artistas ligados a esta arte no Seixal. Esta relação surgiu de uma ligação entre a Faculdade de Belas-Artes, na figura de João Duarte, e a Câmara Municipal do Seixal.

“Além de ser algo que não existe, de todo, no resto do País, aqui não se encontra o que associamos normalmente ao termo ‘medalha’. Falo daquelas que se recebem no corta-mato, uma coisa ‘chapa 4’, que vamos comprar à Decathlon. Não é nada disso que se pode ver aqui. Pelo contrário, apresentamos a medalha enquanto um objeto artístico, pensado, elaborado, trabalhado”, começa por explicar Raquel Proença, técnica da Câmara Municipal do Seixal.

Por isso, esqueça aqui a medalha no formato de bolacha Maria que possivelmente está habituado a ver. Grande parte do acervo do Centro Internacional de Medalha Contemporânea foi uma doação feita ao equipamento pelo escultor e artista plástico João Duarte. Estão também expostos alguns trabalhos de outros nomes sonantes e que se destacaram na medalhística, nomeadamente Hélder Batista, que terá sido professor de João Duarte, e David Catarino, discípulo depois nas Belas-Artes do artista.

“Um pouco do âmbito que o nosso centro pretende é essa transmissão do que é a arte da medalha de uma forma artística. Não ser só a medalha por medalha e ir fazendo, no fundo, essa passagem desse conhecimento, que é importante, e que às vezes não é tão percetível, porque é uma coisa diferente. Parece que é uma coisa menor, no entanto, aqui é trabalhada como uma arte maior”, conta-nos ainda a especialista.

Como o próprio nome do equipamento sugere, este é um espaço dedicado à arte da medalha, mas não apenas a nível nacional. Ao acervo chegaram igualmente criações de artistas de vários cantos do mundo e que terão sido trocas diretas feitas entre João Duarte e outros criativos. Além disso, juntam-se outras medalhas adquiridas pelo próprio em feiras de numismática. Uma das mais icónicas tem a assinatura de Salvador Dalí.

A medalha de Dalí.

Ao lado de cada medalha pode ver-se uma legenda onde está incluído o título da peça, a técnica (se é cunhagem, montagem, fundição, entre outras) e, claro, o nome de quem a produziu. Normalmente, não existe somente uma criação porque o verdadeiro conceito das medalhas não passa por fazer apenas uma. Pelo contrário, o objetivo é que sejam reproduzidas para que possam ser comercializadas ou dadas.

“A medalha tem esta caraterística: é um objeto manipulável, até a própria escala é algo que podemos levar no nosso bolso e ter connosco, porque é para possuir. Não é como uma escultura que está na rotunda. A medalha tem precisamente essa caraterística de ser algo que se possui, que é de uma determinada pessoa e que serve para ser manipulada.”

Isso explica o facto de estes objetos serem muito mais do que visuais. No fundo, muitas das medalhas expostas no Centro Internacional de Medalha Contemporânea são didáticas. Umas permitem brincar-se com elas, outras são puzzles e ainda existem as que têm som, por exemplo. Depois, são feitas a partir de uma infinidade de materiais: papel, tecido, cortiça, metal arame, fio, porcelana, borrachas, líquidos.

“A medalha convencional é o verso e o reverso, com apenas dois lados. Aqui as pessoas podem ver que isso é completamente subvertido”, clarifica Raquel Proença, acrescentando ainda que “uma coisa é olhar para as medalhas, outra é senti-las. Há o aspeto sonoro e o do sentir, não é só o ver. Se alguém as manipular e sentir, a sensação é completamente diferente se só estiver a observá-las. Aqui, percebe-se que a medalha tem uma linguagem própria e tridimensional de uma exploração que não tem limites”.

No meio de todos os objetos medalhísticos que pode conhecer no Centro Internacional de Medalha Contemporânea estão medalhas comemorativas, como por exemplo associadas ao 25 de Abril, à morte ou como homenagem a alguém, relacionadas com eventos, mas também existem exercícios puros de arte. São, no fundo, criações artísticas, isto é, verdadeiros objetos de arte.

De seguida, carregue na galeria para conhecer o interior do Centro Internacional de Medalha Contemporânea assim como algumas das medalhas que pode encontrar expostas.

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