na cidade

A lituana que veio viver para Portugal — e que se apaixonou pelos seixalenses

Persistente, criativa e empreendedora são alguns dos adjetivos que ajudam a descrever Eglė.
A história da paixão por Portugal.

Em casa, é conhecida como Egle Deveikis, mas em Portugal todas as pessoas a tratam por Ocean. Nascida numa pequena cidade na Lituânia, nunca tinha visto o mar até aos 25 anos, quando viajou até às ilhas Fiji. De regresso a casa, percebeu que a sua vida tinha de passar pelo oceano e que não conseguia viver sem ele. 

“Ainda estive alguns anos a viver na Alemanha, por causa da faculdade, mas sabia que de uma maneira ou outra ia acabar a viver ao pé do oceano”, explica à New in Seixal. Nessa altura, estava a trabalhar também como fotógrafa de moda e já conhecia um pouco de Portugal, visto que fez algumas sessões fotográficas no nosso País.

A decisão de mudar de vida e deixar a Lituânia aconteceu em maio de 2018, mas não foi uma escolha fácil. “Escolhi Portugal, sobretudo, por causa do oceano, e também porque não era muito longe da minha casa.” Eglė deixou tudo o que era familiar para trás de forma a atingir o objetivo de viver junto ao mar.

A decisão surpreendente

A família ficou surpreendida com esta decisão, porque estavam à espera que Eglė regressasse à Lituânia, após a experiência como estudante na Alemanha. “No entanto, eles já sabiam quem eu era e o quanto o oceano significava para mim.”

Indecisa entre a Nazaré, Albufeira e Lisboa, acabou por optar pela capital portuguesa. “Em Lisboa há mais possibilidades e já sabia que mudar-me para cá seria desafiante, então pensei que na capital fosse mais fácil para encontrar trabalho.”

Sem família, amigos ou saber falar português, os primeiros meses foram os mais complicados desta experiência. Nunca tinha sido totalmente independente, quer a nível financeiro como emocional, e viu nesta experiência a oportunidade para o fazer. 

A primeira casa ficava em Almada e Eglė não sabia o que esperar, porque não conhecia essa zona e também porque reservou o apartamento através da internet. Dois meses depois, quando o contrato de arrendamento acabou, acabaria por ir viver para Lisboa, mas não foi a melhor experiência. “Pareceu-me uma cidade com muita gente, especialmente no verão.”

O coração dos seixalenses

Voltou a procurar casa em Almada e acabou por ir parar o Seixal, Numa das plataformas de aluguer de casas mais conhecidas a nível mundial, escreveu uma mensagem a um dono de uma casa no concelho, sem sequer conhecer onde era. “No final de agosto de 2018, estava a morar no Seixal, porque esse senhorio fez-me uma proposta muito interessante.”

O contrato de arrendamento da casa que tinha na Quinta da Trindade acabou, mas esta lituana queria mesmo era morar no centro do Seixal. Na altura, não havia muitas casas disponíveis para arrendar e Egle procurou bastante, perguntando a várias pessoas que passavam na rua sobre se conheciam alguém com casa no Seixal. 

“Acabei por encontrar uma casa que ainda não estava acabada, mas o dono não podia arrendar ainda porque faltavam algumas coisas importantes.” Conhecida pela sua insistência, e apesar de não ter água quente ou eletricidade, acabou por convencer o dono e foi um dos meses mais difíceis que passou em Portugal — até porque quando saiu da casa na Quinta da Trindade não tinha sequer lençóis.

A vista da casa.

Sempre positiva, nunca perdeu a esperança e olhando para trás, percebe que se não fosse essa experiência não seria a mesma pessoa. Agora, já tem a casa arranjada e com tudo o que precisa para viver. “Não foi a culpa do senhorio. Eu precisava de um sítio para ficar e ele ajudou-me imenso ao deixar-me ficar lá.”

Foi amor instantâneo e nunca mais saiu do concelho. “É como se fosse uma daquelas pequenas cidades costeiras, com os pescadores durante a manhã a tratarem do peixe e ouves as gaivotas na Baía do Seixal.” As casas coloridas, os pequenos barcos e autenticidade dos seixalenses é aquilo de que mais gosta.

“Percebi que os corações deles podiam ser maiores que o oceano inteiro.” Sobre os portugueses em geral fala bem e considera serem calorosos e simpáticos simplesmente porque o querem ser (e não porque precisam).

Um dos seus locais preferidos.

Durante estes três anos, em que vive no Seixal, já passou por alguns episódios em que sentiu os olhares sobre si. Todos os dias vai correr para a marginal do Seixal. Num desses dias estava a ouvir música, como de costume, e apeteceu dançar-lhe em frente a todos aqueles que por ali passavam.

“Estava sozinha, num país desconhecido, e, na verdade, não importei de todo com o que os outros podiam pensar de mim.” 

O trabalho

A paixão pela fotografia surgiu também, um pouco como tudo na vida de Egle, de forma aleatória. “Eu trabalhava na área da moda e então sempre fez parte da minha vida, mas nunca foi uma coisa muito profissional.”

Até que uma marca espanhola pediu-lhe para fazer uma sessão fotográfica em Portugal, que correu bem e a partir dai começou por ser natural.

Atualmente, trabalha como fotógrafa freelancer, gestora de redes sociais e também tem o seu próprio negócio. O Ocean Desire é uma mistura de blogue, portefólio de fotografias e também uma loja online, onde vende colares com conchas apanhadas na praia. Estas peças estão à venda no seu website.

Embora ainda não se sinta confortável para falar em português, já sabe a maioria das expressões e entende quase todo o vocabulário. Egle não tem vontade de regressar a casa e enquanto conseguir vai continuar por Portugal. “Acredito que a minha casa está aqui.”

Uma das suas fotos preferidas.

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