No novo Upon Harbor, basta abrir as cortinas do quarto para encontrar uma das imagens mais reconhecíveis do Seixal: a baía mesmo em frente. A diferença é que, desta vez, estamos a vê-la a partir de um dos espaços que mais marcaram a história industrial do concelho.
A antiga fábrica da Mundet foi reabilitada e desde fevereiro que recebe hóspedes nesta nova encarnação como Upon Harbor Seixal Bay Hotel, um hotel de quatro estrelas com 102 apartamentos turísticos, restaurante, rooftop, piscinas e uma forte ligação ao passado do edifício.
A New in Seixal foi conhecer o espaço e perceber como uma antiga fábrica de cortiça se transformou num hotel contemporâneo, sem apagar as marcas de quem ali trabalhou durante décadas. Situado na frente ribeirinha do Seixal, o Upon Harbor pertence ao grupo português StayUpon e tem 102 apartamentos turísticos, distribuídos por tipologias entre T0 e T3, incluindo lofts e duplex, num total de 248 camas. Assinado pelo arquiteto Tiago Palmela, o projeto combina alojamento, restauração e bem-estar, com o Tejo e Lisboa do outro lado das janelas.
A transformação percebe-se logo à entrada, mas a antiga fábrica não desapareceu, isto porque a a modernização adaptou o edifício à nova função, sem apagar as referências à Mundet e à indústria corticeira que durante décadas ocupou aquele espaço. Uma das mais evidentes está logo no hall, uma máquina original usada no processo de prensagem da cortiça.
Essa história é contada ao longo do edifício com peças de mobiliário e objetos recuperados da própria Mundet, além de documentos históricos, como registos de controlo e horários, expostos numa das paredes do hall. Para quem não tem qualquer relação com a antiga fábrica, são elementos que ajudam a contar a história do edifício. Para muitos seixalenses, o significado é outro, até porque eles fazem parte desta primeira onda de visitantes, muitos deles antigos trabalhadores da Mundet e familiares de pessoas que por ali passaram.
Depois do hall surge o lobby, pensado para ir além da tradicional zona de passagem junto à receção, com lugares para trabalhar, beber um café, marcar uma reunião. E logo ao lado encontra-se o bar do Ebulição, com ligação direta ao restaurante. Apesar da proximidade, as propostas são diferentes. O bar assume um registo mais descontraído, para cocktails ou um copo de vinho, enquanto o restaurante está preparado para refeições completas e grupos.

É no quinto piso que a localização do hotel se revela o seu maior trunfo. O rooftop abre-se diretamente para a baía do Seixal e conta com um bar, uma piscina coberta, uma piscina infinita e uma sauna envidraçada.
As duas piscinas são de água salgada e exclusivas para hóspedes. Desde o final de julho, porém, o bar do rooftop também está aberto ao público externo, seja para beber um copo com vista para a baía ou para experimentar o novo brunch de domingo, acompanhado por um DJ.
No interior, o bar tem paredes em tons de bege e areia, em contraste com arcos em tijoleira terracota. No exterior, o ambiente torna-se mais descontraído, com sofás e almofadas às riscas em vermelho, branco e amarelo, num registo retro. A baía, como sempre, é o complemento ideal ao cenário.
O brunch funciona em dois turnos, das 11h30 às 13 horas e das 13h30 às 15h30. Estreou a 2 de agosto e, na véspera de o experimentarmos, um funcionário deixou uma recomendação que parecia exagerada: tomar um pequeno-almoço cedo e leve. À mesa, percebeu-se o motivo.
A carta reúne opções doces e salgadas, incluindo alternativas vegan. A principal proposta é a Tábua Brunch (20€ por pessoa). Na versão tradicional, inclui pão de cereais, bolinha artesanal, croissant clássico, croissant de cereais, duas panquecas, queijo, fiambre, iogurte com compota e granola, fruta laminada e pastel de nata.
Na versão vegan, a charcutaria dá lugar a húmus com palitos de cenoura e pepino e a “queijo” creme vegan com tomate. O iogurte também é de origem vegetal.
A música acompanha o brunch sem se sobrepor às conversas e o cenário convida a prolongar a refeição. Num dia de verão, porém, as piscinas acabam por disputar a atenção com a mesa.
A zona coberta tem espreguiçadeiras em metal amarelo, com divertidas almofadas às riscas onduladas vermelhas e cor-de-rosa. Por estar protegida, é também uma alternativa para os dias em que a brisa se faz sentir com maior intensidade no quinto piso.

É ali que se encontra a pequena sauna envidraçada. A localização, numa zona de passagem de hóspedes, pode causar alguma estranheza ao primeiro olhar, mas tem uma vantagem evidente: a vista para a baía continua presente no interior.
A piscina exterior aposta noutra experiência. Há cadeiras para beber um copo, ler um livro ou ficar ao sol. A água estava a uma temperatura agradável durante a visita, embora a exposição do quinto piso torne o vento mais evidente fora da piscina.
Depois de percorrermos o hotel, seguimos para o Ebulição, o restaurante do Upon Harbor, para conhecer algumas das propostas da carta assinada pelo chef Diogo Seixas. A cozinha foi pensada para partilhar e parte da tradição portuguesa para chegar a combinações mais contemporâneas.
Um dos pratos que melhor resume essa abordagem é “À Grande e à Francesa” (29,9€), uma francesinha de lagosta preparada com bife de alcatra, lagosta, linguiça e salsicha fresca. O molho tem um sabor intenso a lagosta, mas consegue acompanhar a carne sem se sobrepor aos restantes elementos.
A alternativa vegetariana “Cogumelos à Solta” (8€) segue um caminho mais suave. Junta cogumelos eryngi, shitaki e shimeji, molho de alho assado, demi-glace vegetal e ovo escalfado. Aqui, o molho de alho é o elemento que liga os diferentes cogumelos, enquanto o ovo acrescenta outra textura ao prato.
Nas sobremesas, os nomes mantêm o tom descontraído da carta. O “Tira-me Isso” (6€) apresenta o tiramisu em pequenas bolas com creme mascarpone e mantém o doce equilibrado. Mais inesperado é o “Até te Espumas” (6€), um pão de ló com espuma de queijo de Azeitão. A espuma mantém um sabor marcado a queijo e não é doce, o que torna a combinação menos consensual, mas particularmente indicada para quem aprecia sabores fortes.
Espalhados por todo o espaço, existem 102 apartamentos distribuídos por 11 tipologias, desde estúdios e estúdios com vista para a baía a apartamentos de um quarto e opções com três quartos, piscina privada e vista para a baía. Nos quartos, as referências à Mundet tornam-se mais discretas. Surgem, por exemplo, num banco decorativo em forma de rolha de cortiça ou no tecido do sofá, cuja textura recorda o material que durante décadas definiu a atividade daquele espaço.
A kitchenette está equipada com placa elétrica, máquina de lavar loiça, forno, chaleira e uma seleção de chás e cafés. Há também uma pequena mesa com cadeiras para refeições. Foi, contudo, na varanda que a localização voltou a assumir o protagonismo. Tem uma mesa, duas cadeiras e vista aberta para a baía. Durante a estadia, serviu também de espaço de trabalho. Com o computador aberto e o rio em frente, até uma manhã de trabalho ganha outro cenário.
É precisamente nesta sobreposição entre passado e presente que o Upon Harbor encontra a sua identidade. Há piscinas, brunch, quartos contemporâneos e uma das vistas mais privilegiadas do Seixal, mas tudo acontece dentro de um edifício que durante décadas teve uma função completamente diferente. Mas, ainda assim, a memória perdura.
Carregue na galeria para conhecer o hotel.







