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Vanessa Estevão: “A terapia faz-se sozinha e só começa quando acaba”

O trocadilho feito pela psicomotricista seixalense inicia um debate importante sobre a terapia e a sua influência nas pessoas.
Perceba o porquê.

Estamos de volta às partilhas e desta vez com um tema recorrente do dia a dia de qualquer pessoa e, claro, psicomotricista. À primeira vista podemos não associar mas os terapeutas também fazem terapia. É exatamente sobre essa experiência que reúne um misto de dois mundos que centro este artigo. No início de abril falámos de emoções e sobre o quanto a saúde mental é importante no desenvolvimento e vida equilibrada de todos nós. Agora cá estamos de novo para aprofundar um pouco mais a temática.

Primeiro ponto: sou psicomotricista e todos os dias trabalho com miúdos e famílias, expectativas, objetivos e realidades que têm de ser ajustadas a par e passo com cada vivência e conquistas que vamos tendo. Enquanto terapeuta, a minha preocupação principal é o bem-estar da pessoa, que ela seja autónoma, independente e que consiga desempenhar aquilo que é esperado de si, o melhor possível, fazendo-se incluir nos contextos com todas as suas capacidades e limitações.

Sim, porque todos temos capacidades e limitações e essa foi uma das minhas grandes descobertas ao fazer terapia. Pois como escrevi anteriormente, sou terapeuta e nós também temos os nossos próprios processos, individuais, a que tantas vezes fechamos os olhos por estarmos focados no bem-estar, nas competências e nas emoções dos outros. Porém, como tão bem sabemos, quem cuida de si, cuida ainda melhor do outro.

A temática sobre a qual vos escrevo surgiu-me numa reflexão no final do ano letivo passado ao decidir dar alta a um miúdo que demonstrou ter alcançado os objetivos que tínhamos delineado à partida, mas cuja família teve alguma resistência ao início em quebrar este vínculo que já perdurava há quatro anos.

De facto, este é sem dúvida um dos maiores desafios que temos na terapia: definir o caminho e saber reconhecer quando está na hora de deixar os pacientes voar. É um desafio porque, muitas vezes, a dúvida vem do próprio que se sente tão confortável naquela relação que a perda se torna novamente uma zona de desconforto.

Na verdade, esta sensação de desorientação, ansiedade e expectativa do futuro é comum a todo o ser humano sempre que ao longo da vida vai passando por mudanças. Contudo, é importante estar o mais consciente possível na vida para que consigamos conectar-nos nas adversidades através da nossa força interior — a motivação intrínseca — que nos torna resilientes e desperta a confiança para chegar mais longe. E, por ser tão natural, faz, sim, parte do desenvolvimento e acompanha-nos em cada transição etária.

Mas será que estamos disponíveis para escutar e perceber estas mudanças nas nossas crianças?

Muitas vezes não: esta é a resposta. Por isso, é essencial discutir estes temas e adotarmos enquanto sociedade um estilo de vida mais empático, emotivo e livre. Só uma sociedade livre é que compreende, acolhe e respeita as diferenças de todos os seus indivíduos, aceitando-os. É para essa sociedade que trabalho todos os dias. Plantando a capacidade e a motivação — neste caso extrínseca — em cada miúdo ou família que acompanho e desejando que no futuro sejamos seres mais livres e conscientes de nós e dos outros ao nosso redor.

Por isso, reforço que a terapia começa verdadeiramente quando acaba e retomo o caso que partilhei anteriormente. Este foi um processo terapêutico cujo foco no desenvolvimento foi bastante mais intenso no final, uma vez que estávamos a trabalhar para ser livres — da terapia. Porque ninguém precisa de terapia a vida toda, mesmo que possa fazer terapia ao longo da vida, em diferentes etapas da sua vida, conforme as suas necessidades em cada momento.

Porém, no caso da psicomotricidade, faz sempre falta? Ou perdura mais no tempo, na vida, o tratamento? A resposta a estas questões é sim e não. Sim, é uma intervenção que atua em várias áreas do desenvolvimento e que estimula competências no âmbito preventivo, educativo e reabilitação. Por isso, aplica-se a pessoas em diferentes faixas etárias, não se resumindo a diagnósticos específicos.

E também porque os objetivos acompanham as mudanças de desenvolvimento na vida da pessoa, por vezes a psicomotricidade pode perdurar alguns anos, mas não se mantém ao longo da vida se não fizer sentido para alcançar mais autonomia, independência, funcionalidade e qualidade de vida.

Como já tinha mencionado, o objetivo do psicomotricista é sempre o bem-estar e é para isso que trabalha, quer seja alcançado em seis meses ou quatro anos. Quando o paciente se sente preparado e atingiu aquilo a que se propôs, está pronto para terminar o seu processo, desvincular-se da relação e seguir caminho. É aí que a verdadeira terapia começa.

A intervenção terapêutica prevê que a pessoa tome consciência das suas capacidades e limitações, desperte ferramentas que tem dentro de si e adquira novas, faça aquisições e consolide outras competências, atingindo assim o seu melhor potencial. A transformação que associamos muitas vezes à terapia trata-se da mudança de perspetiva do próprio sobre si e os seus comportamentos. Mas também no caso das crianças dessa mudança no olhar dos adultos que dela cuidam, principalmente os pais.

A terapia, no fundo, não muda a pessoa. A terapia melhora a pessoa, reduz sintomas e transforma vidas desajustadas em vidas mais equilibradas, saudáveis e felizes. Tomem atenção a este trocadilho que creio levar-vos a refletir mais profundamente sobre as questões aqui debatidas e que apresentam ligeiras pistas deste universo da psicomotricidade (que, se me é permitido dizer, tanto me apaixona).

A meu ver, a terapia dos meus meninos e meninas começa quando termina, porque é quando estão sem mim (em processo ou após chegarmos ao fim) sujeitos a diversas solicitações, desafios e fragilidades que são postas à prova as ferramentas que estamos a construir. Tenho por hábito dizer aos pais: “se o pequeno ou a pequena só fazem comigo ou se fazem algo muito bem na terapia, o objetivo para mim não está alcançado”.

Quero com isto dizer que assim o é porque o tempo que os miúdos estão em terapia é muitas vezes curto e controlado, isto é, neste nosso espaço lúdico e de crescimento criamos muitas vezes a representação de desafios para os miúdos, onde se sintam confortáveis, para que possam desenvolver as suas capacidades. Porém, esses desafios são a aproximação e simbolizam o contexto real, em que todos os dias as suas fragilidades são postas à prova. É justamente aí que a terapia verdadeiramente acontece (fora da sessão), quando têm de ser autónomos e eficientes na sua expressão, relação e aprendizagem.

Tal como eu, psicomotricista, só começo a minha terapia quando termino cada uma das minhas sessões, nos meus momentos de escuta e reflexão sobre os caminhos percorridos e os que ainda quero percorrer, aprendendo todos os dias com a aprendizagem de cada um e trazendo novas ferramentas, dúvidas e reflexões para a minha vida, onde eu própria me ponho muitas vezes em causa, celebro ou me desoriento. Mas só assim dou mais um passo em frente, enquanto pessoa e reforço o meu papel e postura de psicomotricista, em terapia.

A terapia deles faz-se sozinhos e a minha também. Mas ao longo da semana, o meu processo toca-se várias vezes com os deles. E, para mim, só assim faz sentido cuidar, cuidando-se. Espero-vos no próximo mês com um novo artigo. Até lá, é importante recordar que abril celebra a liberdade. E autoconhecimento é a melhor forma de nos libertarmos de tudo aquilo que não nos deixa caminhar em frente.

Quem é Vanessa Estevão?

Vanessa é licenciada e mestre em Reabilitação Psicomotora e faz intervenção em psicomotricidade na infância no contexto de estimulação e terapêutico. Além disso, é responsável pela página online do “Movimento Brincar”. Nesse espaço pretende levar todos a refletir sobre estes e outros assuntos ligados à sua área. Pode encontrar outras informações na sua página profissional do Instagram.

Para desmistificar esta e outras temáticas relacionadas com a infância, o desenvolvimento, o autoconhecimento, a psicomotricidade, o bem-estar físico, mental, emocional e social, a psicomotricista seixalense Vanessa Estevão, em parceria com a NiS, está pronta para escrever e dar a conhecer, duas vezes por mês, alguns dos seus estudos.

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