A ideia de que os casais nunca devem dormir zangados é muitas vezes repetida quando se fala dos segredos para fazer relações durar. Este princípio, transmitido de geração em geração, sugere que todos os conflitos devem ser resolvidos antes de adormecer, para não se guardar rancor ou deixar a tensão aumentar. No entanto, a prática pode não ser a mais eficaz — e, em alguns casos, pode mesmo contribuir para o agravamento das discussões.
Catarina Lucas, terapeuta de casais, conta à NiT que se trata, no fundo, de um ditado que funciona para algumas pessoas, mas que não pode ser encarado como regra universal. Em muitos casos, cria pressão desnecessária e sentimentos de culpa quando os parceiros não conseguem chegar a uma solução imediata.
A ideia de resolver tudo no próprio dia pode ser irrealista. Dependendo da dimensão do problema ou da complexidade emocional envolvida, há questões que demoram dias ou semanas a ser trabalhadas. Insistir numa resolução rápida pode levar a decisões apressadas e pouco alinhadas com o que cada um realmente sente.
“Há coisas que se conversam melhor depois de deixarmos as emoções acalmarem. A almofada é boa conselheira”, explica. Para a terapeuta, dormir não é sinónimo de evitar o conflito, mas pode ser uma estratégia de regulação emocional. O descanso ajuda a diminuir a intensidade das reações e permite abordar o tema no dia seguinte com maior clareza.
Esta explicação tem, também, uma base fisiológica. O sono está associado à regulação emocional e à consolidação de memórias, fatores que contribuem para uma leitura menos dramática dos acontecimentos. “Uma coisa que nos é dita hoje vai ter uma resposta emocional mais intensa. Amanhã essa resposta já vai ser mais diminuída”, realça.
Além disso, o final do dia tende a ser um período de maior cansaço, o que fragiliza a capacidade de comunicação. Segundo a especialista, quando as pessoas estão fatigadas têm menos recursos para gerir frustração, ouvir o outro e negociar soluções, aumentando assim o risco de reatividade.
Insistir em resolver um conflito nestas circunstâncias pode, então, ter o efeito contrário ao desejado. “Pode haver um escalar da situação porque o nosso estado emocional não é consistente com o que estamos a querer fazer. Estou a obrigar-me a fazer algo que não sinto”, explica. A terapeuta defende, acima de tudo, que ninguém deve sentir-se forçado a conversar quando não tem condições emocionais para o fazer.
Ainda assim, adiar não significa ignorar. Para Catarina Lucas, o principal risco está em deixar os assuntos por resolver indefinidamente. Quando as conversas são evitadas, os problemas acumulam-se e transformam-se em ressentimentos.
“É importante que essa conversa exista”, sublinha. “Muitos escondem debaixo do tapete, agem como se nada fosse, e depois criam-se ressentimentos”. Esses conflitos não resolvidos, acrescenta, acabam por se acumular e podem surgir mais tarde de forma desproporcionada.
A recomendação passa, por isso, por estabelecer um compromisso claro: interromper a discussão quando as emoções estão elevadas, dormir e retomar o tema no dia seguinte, num momento mais adequado. O objetivo não é, então, evitar o confronto, mas garantir que ele acontece em condições mais construtivas.

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