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Maria e Cristiana, as enfermeiras seixalenses que salvaram a vida de um idoso no RioSul

A NiS entrevistou as duas heroínas e conta-lhe todos os detalhes sobre a ocorrência do dia 16 de março.
As duas heroínas, Cristiana e Maria.

Maria Justino tem 28 anos e é enfermeira no serviço de Ortopedia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Cristiana Sanches tem 29 e trabalha no serviço de Cirurgia Cardíaca no Hospital de Santa Marta, também na capital. Cristiana gosta de estar rodeada de pessoas e de nadar. Maria adora estar com a família e os amigos, ir ao cinema e viajar pelo nosso País.

Maria nasceu em Lisboa e mora atualmente nas Paivas. A colega é natural do Barreirro, viveu grande parte da vida, em Corroios, e mudou-se para Paio Pires o ano passado. Ambas tiraram a licenciatura em Enfermagem na Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha, em Lisboa. Saíram várias vezes juntas, já que Maria estava na turma da madrinha de curso de Cristiana e, claro, porque faziam parte da praxe académica.

No passado dia 16 de março, enquanto faziam as compras da Páscoa no Continente do RioSul Shopping, o destino juntou as ex-colegas universitárias para salvarem um idoso que se encontrava em paragem cardiorrespiratória. As enfermeiras garantiram o socorro no local e salvaram a vida do homem.

Passados três meses, a Ordem dos Enfermeiros entregou um louvor às jovens e revelou que, depois de ter sido transportado para o Hospital Garcia da Horta, o idoso recuperou rapidamente e encontra-se bem de saúde. A propósito desta distinção, a New in Seixal esteve à conversa com as profissionais de saúde e conta-lhe todos os detalhes sobre o acontecimento de 16 de março de 2024 que, certamente, vai ficar na memória das duas jovens para sempre.

Porque é que decidiram escolher o curso de Enfermagem?
Cristiana: Tenho familiares que são médicos, os mais próximos não são enfermeiros, mas conhecia este mundo. O meu pai sempre quis que fosse médica, eu não. Por mais média que tivesse, não era algo que ambicionava porque sentia que tinha de desempenhar um papel mais próximo do doente.

Alguém a influenciou?
Cristiana: A minha irmã mais velha, agora com 35 anos, porque ela tem alguns amigos enfermeiros.

Quais os membros da sua família que estão ligados ao mundo da saúde?
Cristiana: Tenho uma prima que é médica, o meu tio, que é muito próximo, ele está numa empresa em que está em constante contacto com médicos e enfermeiros. Ele sempre me disse que tinha mais perfil de enfermeira do que de médica.

O que vos motiva a estar perto dos doentes e a querer fazer este acompanhamento?
Cristiana: O enfermeiro tem um papel muito mais próximo, ou seja, tudo aquilo que queria. Acompanhar, cuidar, não ser só numa intervenção ou numa consulta, queria ajudar os pacientes desta maneira. Depois, comecei a procurar e vi que a enfermagem era exatamente aquilo que procurava.  

Maria: Sempre me preocupei em cuidar e a estar com o outro, socorrendo as necessidades das pessoas, sejam elas amigas, pais ou avós. Foi isso que me fez começar a gostar desta profissão desde miúda. Os meus pais também me pressionaram muito para seguir medicina, não era de todo aquilo que queria, não desvalorizando a parte médica, mas, efetivamente, acho que temos uma proximidade diferente, como disse a Cristiana, temos mais intervenções totalmente direcionadas ao doente, que não são obrigatoriamente técnicas ou farmacológicas. Estarmos constantemente com o doente, foi o que me fez ingressar nesta profissão.

Houve algum episódio na sua vida que a fez ter essa visão e cuidado com os outros?
Maria: Penso que também foi a minha educação, os valores que me transmitiram, dou essa quota de responsabilidade aos meus pais. Aos 17 anos, estive internada e fui sujeita a uma cirurgia ao estômago. Esse acontecimento fez com que continuasse a ver que era aquilo que queria, os enfermeiros sempre estiveram presentes no meu internamento, foram eles que me ouviram e apoiaram quando não estava na melhor fase, acho que isso foi o clique final para entender que era este tipo de ajuda que queria prestar.

Vamos recuar até ao dia 16 de março, onde tudo aconteceu. Qual foi o supermercado onde ocorreu o salvamento?
Cristiana: O Continente do RioSul Shopping.

O que é que queriam comprar?
Cristiana: Como estava na altura da Páscoa, fui com o meu namorado buscar ovos e amêndoas para os miúdos da família. Nós estávamos na mesma secção, mas ainda não nos tínhamos visto. Eu estava a escolher os produtos para os meus sobrinhos quando ouvi o primeiro grito de socorro.

O que levaram?
Cristiana: Depois daquela situação, o meu namorado disse que não estava em condições de continuar a fazer compras e que tínhamos de voltar noutro dia. A adrenalina era anta que nem me lembro do que levei no carrinho, só o que já estava lá estava. Tinha um jantar de aniversário e ele disse que precisava de me acalmar e relaxar antes de irmos para lá.
Maria: Foi praticamente igual, só levei o que tínhamos no saco, porque depois não conseguia pensar no que ia comprar no meio de tanta adrenalina. Tínhamos dois ovos e dois coelhos da Páscoa.

Como começou o cenário de ajuda?
Cristiana: Na altura, esta secção ficava mesmo à porta do Continente, ou seja, era um dos primeiros corredores que se via quando se entrava no supermercado, a zona das promoções. Estava a ver as amêndoas e foi aí que ouvi gritar duas vezes. Inicialmente, não vi ninguém, mas depois olhei para uma senhora a empurrar uma cadeira de rodas em direção ao corredor principal. Não disse nada ao meu namorado, comecei a seguir a senhora e ele nem reparou, continuou a ver os doces da Páscoa.

Porque é que a seguiu?
Cristiana: Fui atrás dela, porque notei que o homem que ia na cadeira de rodas estava inconsciente. Quando comecei a andar num passo acelerado, notei que estava alguém ao meu lado e foi nesse momento que percebi que era a Maria.

Disseram algo uma à outra?
Cristiana: Não, apenas fizemos uma troca de olhares e foi como se tivéssemos dito tudo por palavras, ou seja, pela nossa expressão, conseguimos entender que tínhamos de agir as duas.

Como descreve a situação?
Maria: Estava relativamente próxima, na entrada faz-se um quadrado, que dá para o corredor principal, se não me engano a Cristiana estava na lateral e eu estava um pouco mais à frente na paralela. A senhora veio dessa paralela em direção às portas de entrada do Continente. Já tinha ouvido o pedido de ajuda e depois foi quando nos cruzámos.

Depois de se cruzarem, o que aconteceu?
Maria: Olhámos uma para a outra e isso ajudou-nos a coordenar as duas. Estudámos as mesmas cadeiras e disciplinas, temos os mesmos conhecimentos e isso deu-nos confiança para o que vinha a seguir.

E o que veio a seguir?
Cristiana: O senhor estava acompanhado pela filha.

Que idade tinha o senhor?
Cristiana: Não nos recordamos, mas penso que tinha entre os 72 e 74 anos.

Como procederam?
Maria: Quando olhámos para o senhor, vimos que ele estava inconsciente e tivemos logo a noção de que tínhamos de medir a pulsação na jugular, que fica no pescoço, para perceber se ele tinha pulso ou não. Vimos alguma mudança na cor da pele e foi aí que decidimos que ele tinha de sair da cadeira de rodas e ser deitado no chão.

Tiveram ajuda para levantá-lo?
Maria: Sim, foi aí que veio o namorado da Cristiana para ajudar e a minha namorada também resolveu tirar a cadeira de rodas para termos espaço naquele local. Depois apareceu um segurança que estava à entrada e pediu reforços. Vieram também algumas funcionárias do supermercado, mas quem atuou, efetivamente, fui eu e a Cristiana.

Porque não foram as forças do supermercado a fazê-lo?
Maria: Nós identificámo-nos para que as pessoas não pensassem que estávamos a querer socorrer sem ter nenhum conhecimento. Alguns artigos que saíram sobre este tema referiram que não existiam pessoas com formação no supermercado e isso é totalmente falso, há pessoas nos supermercados que têm formação para atuar nestes casos e que naquele momento apareceram.

Então porque continuaram o socorro?
Maria: Continuámos a nossa atuação, porque apanhámos a situação desde o início. Como já tínhamos começado, é muito mais fácil terminarmos o procedimento do que passá-lo para outra pessoa.

Por falar em procedimentos, o que fizeram ao certo?
Maria: Começámos por colocar o idoso no chão e depois fizemos uma reavaliação. Percebemos que o senhor estava em paragem cardiorrespiratória e iniciámos manobras de suporte básico de vida.

Quem deu o suporte?
Maria: Numa fase inicial, foi a Cristiana que começou as compressões, depois íamos reavaliando as duas o pulso, houve algumas oscilações. Depois, pedimos o desfibrilhador, a equipa foi buscar o equipamento e pedimos para contactar o INEM.

Mas foram os seguranças a falar com o INEM?
Maria
: Ao início sim, mas como estávamos lá desde o começo da situação acabei por ficar eu a dar as indicações e a dizer o que se estava a passar. O INEM foi super rápido a chegar ao local.

Chegaram a utilizar o desfibrilhador?
Maria: Sim, até foi a Cristiana que fez isso enquanto eu reavaliava o senhor. Durante este tempo, ele teve duas cardioversões, ou seja, começou a respirar e o desfibrilhador continuou a avaliá-lo para garantir a normalidade dos batimentos cardíacos.

Então ele acordou ainda dentro do Continente?
Maria: Sim, ele começou a respirar de uma forma mais regular e aí colocámo-lo na posição lateral de segurança até as equipas de socorro chegarem com todo o equipamento necessário.

O que aconteceria a alguém nesta situação, caso não existisse ninguém com formação de suporte básico de vida por perto?
Cristiana: Em primeiro lugar, gostava de sublinhar que a culpa não é dos funcionários, eu própria tive de lidar com uma situação destas com um membro da família, antes de ser enfermeira e, admito, que falar com o INEM é difícil e as pessoas não estão preparadas para o que está a acontecer. Por isso, a Maria teve de assumir a chamada, a comunicação não estava a ser eficaz. Não sei até que ponto a situação não seria fatal.
Maria: Acho que se ninguém fizesse o suporte básico de vida nem chegaríamos à chamada, penso que seria um momento fatal para o senhor.

Neste caso, foi uma questão de minutos?
Cristiana: Foi uma das grandes sortes do senhor, a prontidão do socorro, ele deve ter ficado inconsciente logo quando chegámos e a mulher pediu socorro. Estando na área da cirurgia cardíaca, sei que é fundamental iniciar o suporte o mais rápido possível, quando mais rápido, maior será a probabilidade de conseguirmos salvar o doente. Tenho praticamente a certeza de que se não fizéssemos o suporte, o senhor teria perdido a vida.

Mas estavam pessoas no supermercado com formação para lidar com estas situações ou não sentiram isso?
Cristiana: Elas tinham formação, mas não sei até que ponto estavam preparadas para lidar com uma situação deste nível. Apesar de já ter uma licenciatura e trabalhar na área, só quando assisti a um caso destes dentro do hospital, é que percebi qual era a dinâmica e como tínhamos de agir. Só passando pelas situações é que sabemos como é complicado. Digo isto porque a senhora que estava a ligar para o INEM atrapalhou-se e não estava a conseguir dizer nada do que se estava a passar.

O que é que ela disse?
Cristiana: Começou por dizer que ele estava no chão com duas enfermeiras em cima. Isto para o INEM significa zero, apesar de sermos enfermeiras não fazemos milagres e se o senhor continuasse em paragem cardiorrespiratória era necessário um socorro rápido e equipamentos hospitalares. É muito importante dizer tudo com clareza ao INEM para eles saberem que tipo de equipamento e profissionais devem enviar até ao local.

Houve mais alguma atitude que não se adequou à situação?
Cristiana: Também houve funcionários que queriam deitar o senhor de barriga para cima com uma toalha debaixo da cabeça para estar mais confortável. Nós dissemos que não e explicámos o porquê de ter de ficar em posição lateral de segurança. Eles não conseguiam perceber. Acabou por vomitar posteriormente, caso estivesse de barriga para cima a probabilidade de aspiração de vómito era muito grande.
Maria: A nossa prioridade era manter o senhor vivo e a deles era mantê-lo confortável.

Podiam fazer o mesmo que se faz num hospital?
Maria: É claro que não, mas penso que partilho o mesmo sentimento que a Cristiana quando digo que nós demos o nosso melhor e fizemos o que conseguíamos com a maior rapidez possível, tanto que quando os bombeiros chegaram, ele já tinha a tensão vista, ritmos cardíacos avaliados e já estava acordado. Esta foi a verdadeira diferença que conseguimos fazer nesta situação.

Como têm reagido às notícias e elogios que têm recebido?
Maria: Não estava, de todo, à espera desta onda de positividade, o meu dever cívico foi valorizado. Mesmo que não sejam pessoas com formação ou que não trabalhem na área da saúde, penso que o esforço de todos aqueles que querem ajudar o próximo deve ser valorizado. É importante o curso de suporte básico de vida a nível nacional, é algo que devia ser ensinado na escola e que pode fazer a diferença em muitos casos práticos.

E a Cristiana como se sente?
Cristiana: É muito inesperado, nós agimos por impulso e nunca pensámos sequer que existia a hipótese de recebermos um louvor. Nós ouvimos pedir ajuda e foi o que bastou para irmos socorrer a vítima sem hesitar. Felizmente, correu tudo bem.

Continuaram a falar depois do incidente?
Cristiana: Sim, até comentei com a Maria que o senhor estava no Garcia da Horta. Ele foi minimamente estável, mas não sabíamos nada sobre ele e falávamos muito sobre isso.

Não o conseguiram encontrar depois?
Cristiana: Não tínhamos o nome completo dele e, a partir da base de dados, nunca conseguimos encontrar nada, até ao dia em que recebemos uma chamada da Ordem dos Enfermeiros, na véspera do meu aniversário e ficámos a saber que ele estava muito bem e teve uma boa recuperação.

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