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Com as emoções não se brinca — verdade ou mito?

Possivelmente nunca se questionou sobre esta afirmação. Mas será que é mesmo assim? A psicomotricista Vanessa Estevão explica.
Para si, é mito ou verdade?

Escrever sobre emoções não é nada que seja novo por aqui. E, no fundo, existe uma explicação para que esta temática seja tão recorrente. É simples, ou melhor, é natural, embora muitos de nós quando chegamos à idade adulta nos esqueçamos que sentir, chorar, rir, sorrir, ter medo, ficar ansioso e sentir raiva ou frustração fazem parte da nossa essência e natureza, ou seja, é algo inato em qualquer ser vivo.

A diferença entre nós e os animais, por exemplo, é que passámos a racionalizar tanto e tudo aquilo que sentimos na procura inglória de controlar as nossas emoções e sentimentos, que nos esquecemos que tal como precisamos de água para viver e oxigénio para respirar, para o nosso organismo funcionar, em harmonia e equilíbrio, também necessitamos de sentir e expressar emoções.

O primeiro passo é aceitar que somos seres emocionais, uns mais racionais e cognitivos do que outros, mas que cada um sente à sua maneira. Aliás, como digo muitas vezes na minha prática profissional, “o bebé antes de fazer qualquer aprendizagem, de comer ou contactar com a mãe, já está a sentir”. Possivelmente em algum momento já vos ocorreu (ou não) pensar sobre isto, mas a verdade é que a primeira coisa que fizemos na vida foi sentir. Depois disso chorámos para começar a respirar, mas a nossa primeira interação e conexão à vida foi feita através de uma emoção e, por isso, elas vão acompanhar-nos ao longo de toda a nossa vida.

O convite que vos faço é que tomem consciência e valorizem não só a vossa capacidade de sentir, mas também aquilo que cada emoção vos traz e é capaz de ensinar. É verdade, as nossas emoções têm funções. Além de servirem para nos manter vivos, vigilantes ou adaptados ao contexto, atuam também no desenvolvimento da empatia e estão sempre presentes na construção das nossas relações, primeiro connosco e depois com os outros.

Qual a importância das emoções para a psicomotricidade?

De uma forma simples e sucinta, a importância das emoções para a psicomotricidade é total. Isto porque nesta área trabalha-se o corpo todo e do corpo fazem parte os sentidos, os pensamentos, os movimentos, as ideias, a expressão, as interações e as emoções, claro. Estas últimas são muitas vezes transversais a todas estas competências/atividades que realizamos, sem pensar, todos os dias.

Explico sempre que me perguntam sobre a psicomotricidade, que para nos levantarmos todos os dias para ir trabalhar temos de ter uma motivação muito forte (emoção), que se transforma num pensamento (cognição) e que nos leva a agir (movimento). Assim atuam as emoções como motor da nossa ação e pensamento em vários momentos do nosso dia.

Mas afinal, podemos brincar com as emoções ou não?

Este tema surgiu-me após ter sido convidada, através do meu projeto MOVIMENTO BRINCAR!, a realizar um workshop a estudantes de Reabilitação Psicomotora (futuros psicomotricistas), no âmbito da inteligência emocional. Foi assim que decidi desafiá-los a embarcar numa experiência onde pudessem sentir, refletir e partilhar, desconstruindo o tabu das emoções através do ato de brincar.

Neste workshop começaram por se dividir conforme a sua opinião entre verdade e mito — e a todos os leitores deixo o mesmo convite. Para que lado se inclina a vossa opinião neste momento? Será que é verdade, porque estamos a falar de um assunto sério e que cada vez mais afeta a vida de todos nós, sobretudo após uma pandemia de que ainda não nos livrámos e de uma guerra que nem fazemos ideia de quando poderá terminar, mas que ambos os acontecimentos trouxeram à tona o tema da saúde mental?

Ou, por outro lado, será um mito, tendo em conta a dimensão dada e a relevância de chamar a atenção de todos, desde os mais pequenos, para cuidar da saúde tanto física como mental? Poderá, no meio de tudo isto, o brincar ser um meio mais próximo para levar à desconstrução deste tema, de uma forma mais leve?

Estes foram alguns dos argumentos que partilhámos e refletimos. No entanto, enquanto psicomotricista prefiro defender que a resposta a esta questão é verdade e mito. É verdade, porque falar de saúde mental, tomar consciência das nossas emoções e de como a sua expressão física ou psíquica influencia o nosso quotidiano, as nossas relações, a nossa criatividade e até a nossa produtividade é essencial e cada vez mais urgente.

Por isto, falar de saúde mental não deve ser levado como brincadeira, motivo de piada ou coisa de quem não tem “preocupações a sério”. Porque as emoções desreguladas e incompreendidas são algo que causa dor, sofrimento e que impacta negativamente a vida de muitas pessoas (que possivelmente todos os dias convivem connosco, mas que as guardam muitas vezes só para si).

E por ser verdade também que o nosso equilíbrio e bem-estar depende do quanto o nosso corpo está saudável. E isso não diz apenas respeito ao tempo que dedicamos ao ginásio ou ao cuidado que temos com a alimentação e a quantidade de água que bebemos. Um estilo de vida saudável vai muito para além do que se vê. É também influenciado pelas nossas atitudes, pensamentos e comportamentos perante a vida. Ser-se saudável é também ser-se ativo, produtivo, emotivo, social, empático e compreendido.

Neste último ponto, muitas vezes a incompreensão começa em nós, connosco próprios, ao não valorizarmos aquela dor de cabeça no final de um dia stressante de trabalho ou em não nos permitirmos fazer uma pausa e desfrutar de algo que nos faça esquecer e aliviar as responsabilidades para simplesmente explorarmos a nossa criatividade.

Em adulto acredito que todos já disseram ou ouviram a expressão “era tão bom quando era criança”. Isto surge muitas vezes associado ao facto de se retirar à criança a responsabilidade, o stress e a ansiedade, atribuindo-lhes apenas “emoções mais leves”. Mas a verdade é que, tal como os adultos, as crianças também sentem tudo isto e devem sentir, porque não existem emoções boas nem más, positivas ou negativas.

Na minha visão, existem apenas pessoas com mais ou menos capacidade no momento para aceitar e gerir as suas emoções e, por isso, é fundamental aprender e estimular desde a infância um vocabulário mais emocional, tal como se aprende o social, o motor e o comunicativo. Por tudo isto, é que se torna um mito dizer que não se brinca com as emoções.

Usei esta metáfora em jeito de provocação para prender a vossa atenção, mas na verdade pode e deve-se brincar com as emoções. E podem estar a perguntar-se: “porquê?”. Porque brincar é uma competência inata no ser humano e que não desaparece quando nos tornamos adultos. Como já partilhei anteriormente, não existe idade para brincar. O brincar simplesmente muda ao longo da vida, conforme mudam também as nossas rotinas, prioridades e interesses. Brincar é simplesmente desenvolver uma atividade que nos traga prazer e bem-estar.

Sendo uma competência inata, que faz parte de nós, é a melhor ferramenta para aprendermos algo na vida. Isto porque o conhecimento só se desenvolve quando existe uma motivação, ou seja, uma emoção associada e que nos permite reter e memorizar aquela informação para futuramente a utilizarmos noutras situações. É assim que aprendemos a ler, a contar, a pensar e a organizar as nossas emoções, também.

Brincar é também a forma mais interessante, desconstruída e simples de chegar à fala com uma criança, sobretudo sobre temas mais complexos, como não deixam de ser as emoções. E como a inteligência emocional deve ser estimulada logo desde cedo, sabe-se que a brincar qualquer miúdo aprende melhor.

Assim, cabe-nos a nós tirar partido disso e ensinar que, por exemplo, ganhar e perder é válido e pode deixar-nos felizes e tristes; que sentir dor de barriga antes de um teste apenas significa que estamos ansiosos; que ter raiva do amigo que nos tirou a bola no recreio é uma sensação, embora difícil de gerir, que qualquer um sente; e que ter vontade de correr sem parar porque fomos finalmente convidados para aquela festa importante é normal, mesmo que nem todos à nossa volta se expressem dessa forma.

Em resumo: pretendo transmitir a ideia de que sentir é importante e faz bem à saúde. Torna-nos seres mais conscientes e atentos, a nós e aos outros. Compreender as nossas emoções ajuda-nos a limar e eliminar barreiras, promove a escuta e a inclusão. Na verdade todos sentimos, mesmo com diferentes formas de expressão.

Todos sentimos alegria, tristeza, raiva, frustração, ansiedade, calma, vergonha, culpa, medo, coragem e muitas mais emoções dentro de nós, e que se expressam em diferentes momentos ao longo da nossa vida. E, no caso de ainda não ter sentido uma destas emoções, vai acabar por sentir, na medida em que isso é que é sinónimo de estarmos vivos. Brincar com as emoções é saudável e torna-nos mais resilientes, mas desde que a “brincadeira” assente nos pilares da liberdade, respeito, consciencialização, empatia e inclusão.

Sabia que a psicomotricidade pode ajudar a desenvolver a consciência e a regulação emocional? Mais do que brincar, a psicomotricidade procura com a sua intervenção proporcional autonomia e qualidade de vida, tendo o bem-estar e a promoção de um corpo físico e psíquico saudável como objetivo. Nisto, permitam-se ser felizes e brinquem muito.

Quem é Vanessa Estevão?

Vanessa é licenciada e mestre em Reabilitação Psicomotora e faz intervenção em psicomotricidade na infância no contexto de estimulação e terapêutico. Além disso, é responsável pela página online do “Movimento Brincar”. Nesse espaço pretende levar todos a refletir sobre estes e outros assuntos ligados à sua área. Pode encontrar outras informações na sua página profissional do Instagram.

Para desmistificar esta e outras temáticas relacionadas com a infância, o desenvolvimento, o autoconhecimento, a psicomotricidade, o bem-estar físico, mental, emocional e social, a psicomotricista seixalense Vanessa Estevão, em parceria com a NiS, está pronta para escrever e dar a conhecer, duas vezes por mês, alguns dos seus estudos.

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