fit

Afinal, o que é o semáforo nutricional e porque está a causar tanta polémica?

Tem detratores e defensores. Em Portugal, o anterior governo PS decretou a sua adoção, mas o atual reverteu a decisão.
Este sistema pretende ajudar as pessoas na hora das compras.

Provavelmente já viu o Nutri-Score em várias embalagens do supermercado, embora pelo nome não saiba ao que nos estamos a referir. Falamos de um sistema de rotulagem nutricional que avalia o perfil nutricional dos alimentos e atribui-lhes diferentes cores e letras (do verde ao vermelho e do A ao E, sendo assim do melhor para o pior), tendo em conta o quão saudável são as propostas.

O semáforo nutricional foi criado pela Santé Publique France, a agência de saúde pública francesa, e desde 2017 que é utilizada naquele país. O objetivo é fazer com que as pessoas, quando estão no supermercado, consigam fazer melhores escolhas no que toca à alimentação, de forma intuitiva e sem ser necessário decifrar uma longa lista de ingredientes — alguns dos quais com nomes irreconhecíveis (como os aditivos, por exemplo),

Em Portugal, o Nutri-Score tem sido muito falado nos últimos tempos, uma vez que o anterior governo (antes de cessar) publicou um despacho, a 4 de abril, que previa que a Direção-Geral da Saúde estudasse, no prazo de 120 dias, a implementação deste sistema no nosso País.

O novo governo, liderado por Luís Montenegro do PSD, acabou por revogar a medida tomada pelo executivo PS, uma vez que a consideram ilegal. A fundamentação da revogação afirma que a decisão foi declarada “sem conhecimento da Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV), a entidade nacional competente que promove e elabora a regulamentação na área alimentar”, pode ler-se no site da República Portuguesa.

É classificado com letras e cores.

Esta dualidade de opiniões não se coloca apenas na política. Também não existe um consenso quanto aos profissionais de saúde: uns concordam que seja implementado de forma homogénea na União Europeia, outros defendem que não será benéfico.

“O Nutri-Score pode sim ser uma boa opção para ajudar os consumidores a compreenderem melhor aquilo que compram e a tomarem decisões mais conscientes, uma vez que a informação contida nos rótulos não é consultada por toda a gente”, começa por contar à Nit Rita Azevedo, Nutricionista da rede Trofa Saúde.

“O problema desta ferramenta é que ela não nos dá a real noção se um alimento é bom ou não, apenas nos ajuda a fazer escolhas que, à partida, são mais saudáveis. Não está 100 por cento certo nem 100 por cento errado, daí ter esta polémica em seu redor: para termos uma informação completa, temos de ver sempre toda a composição dos ingredientes e a tabela nutricional.”

O sistema faz o cálculo da qualidade de um alimento com base na avaliação da sua qualidade nutricional por 100 gramas, ou mililitros, no caso das bebidas. O algoritmo tem em conta as quantidades de nutrientes como a fibra, proteína, frutas e vegetais e, ao mesmo tempo, contabiliza as gorduras saturadas, o açúcar, sal e as calorias.

Com base nas características de cada produto, é-lhe atribuída uma pontuação, que se localiza entre os menos 15 e os 40 pontos, sendo que quanto mais elevado é o resultado obtido, pior é o alimento.

“O que acontece é que podem existir algumas compensações que colocam um alimento que consideramos mau na cor verde e na letra A. O inverso também se pode verificar, algo que é bom, ser classificado como vermelho e E. Neste último caso, pode referir-se, por exemplo, o azeite. Ao ter 100 por cento de gordura, vai obviamente ter uma má classificação.”

A questão é que a gordura do azeite é uma gordura positiva que não vai obrigatoriamente ser prejudicial para a nossa saúde, e é aqui que conta uma das falhas deste sistema: não faz a diferenciação entre quais são os componentes que mesmo não sendo tão recomendados, também fazem falta.

“O mesmo acontece com os açúcares, uma vez que não ficamos a saber se eles são naturalmente presentes ou se foram adicionados. O que quero dizer com isto é que podemos estar a escolher um produto porque vimos que tinha uma cor boa,e, no fundo, ele não ser assim tão saudável. O Chocapic, cereais de chocolate que estamos habituados a ver, estão classificados com verde, quando todos sabemos que os devemos evitar.”

Esta classificação positiva deve-se ao facto de, apesar desta proposta ter uma adição de sacarose pura, contar com muita fibra, vitaminas e proteína, o que acaba por fazer uma compensação nos valores.

O novo algoritmo (mais restritivo) de cálculo do Nutri-Score entrou em vigor no início de 2024 e tem colmatado algumas destas falhas, não sendo ainda perfeito. A Alemanha, Bélgica, Espanha, França, Holanda, Luxemburgo e Suíça são os sete países da União Europeia em que o semáforo nutricional está em vigor neste momento. Ainda não existe uma regra que o torne obrigatório, mas a nutricionista defende que fazê-lo podia ter a vantagem de “obrigar as marcas a serem mais preocupadas com os seus níveis nutricionais.”

Esta é uma questão que também tem levantado alguns problemas: há empresas que não querem que este sistema seja implementado porque vão sair prejudicadas com isso. A realidade é que com esta ferramenta, apenas ao olhar para o produto, o cliente quando o vai comprar consegue facilmente perceber se ele é saudável ou não (ainda que existam erros, como já mencionamos). Ao isso acontecer, pode meter em causa as vendas das marcas que até agora têm passado a imagem de que são aconselháveis, mas que, na verdade, podem não o ser.

MAIS HISTÓRIAS DO SEIXAL

AGENDA