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Verões no Algarve e férias em Melgaço: a vida do luso-francês de “Emily in Paris”

Em entrevista à NiT, o ator de 30 anos fala sobre os pais portugueses, as viagens a Portugal e o potencial regresso à série do momento.
Kevin é uma das estrelas da nova temporada

A oportunidade de participar no casting chegou através do agente. Era um dos últimos papéis a preencher no elenco da nova temporada. A tão desejada chamada com o “sim” surgiu inesperadamente, durante uma viagem de táxi. “Quando me ligaram a anunciar a boa notícia, gritei de alegria. O condutor teve medo e quase tivemos um acidente”, conta Kevin Dias à NiT, uma das novas estrelas da série sensação da Netflix, “Emily In Paris”.

Além de ser Benoît, o novo interesse amoroso de Mindy, é um ator com raízes portuguesas, como indica o apelido. Aliás, os dois apelidos: lançou-se no cinema como Kevin Fernandes e hoje apresenta-se com Dias no último nome. Na série, o ator luso-francês de 30 anos é um músico que se cruza por acaso com uma das protagonistas, com quem formam uma banda improvisada. A relação entre Benoît e Mindy é quase instantânea, entre uma paixão súbita e, claro, algum drama à mistura.

Na vida real, Kevin é um francês que fala, escreve e compreende perfeitamente a língua, fruto da ajuda dada pelos pais, Irene Dias e Carlos Fernandes. Ela nasceu já em Paris, ele em Guimarães. Kevin nasceu em 1991, também em Paris.

“Sempre tive uma relação muito forte com Portugal. Passava todos os meus verões no Algarve e em Guimarães, mas também em Melgaço, onde temos uma casa”, conta. “E claro, aprendi a falar português com os meus pais, mas também com os amigos na praia.”

Apesar de desconhecido da maioria do público, nacional e estrangeiro, existe uma enormíssima probabilidade de já o ter visto nos ecrãs dos cinemas. É que Kevin, então Fernandes, tinha apenas dez anos quando foi escolhido para fazer parte do elenco de “O Fabuloso Destino de Amélie”, o clássico de Jean-Pierre Jeunet que foi nomeado para cinco Óscares. Kevin era o jovem Dominique Bretodeau.

Começou ainda novo, a mascarar-se e a imitar as personagens dos seus filmes favoritos da Disney. “Depois foi mesmo uma coisa natural. Sempre quis ser ator, desde pequeno que comecei a fazer anúncios, adorava aparecer na televisão, desempenhar papéis diferentes.”

Sobre a passagem pelo filme com Audrey Tautou, recorda-se de perceber que iria “ser um projeto especial”, até porque teve “o privilégio de ser escolhido entre mais de 200 crianças”. “Foi uma porta de entrada maravilhosa para mim.”

Haveria de voltar a atuar num telefilme no mesmo ano, como Pierre, em “Les Déracinés”, mas também numa série televisiva francesa, “Joséphine, Ange Gardien”. Mais tarde, já em 2017, e vários projetos depois, decidiu mudar o nome profissional de Fernandes para Dias. “Achei que soava melhor como nome de artista”, justifica.

Nesse ano, estreou-se numa produção franco-portuguesa, “Todos os Sonhos do Mundo”, um drama produzido por Paulo Branco onde interpretava o papel de Bruno.

Não foi a única aproximação ao público português. Em 2016, havia sido escolhido para o elenco de “Sam”, uma série francesa na qual participou em mais de 30 episódios — que chegaram a ser transmitidos na RTP. “Claro que não tem nada a ver com a visibilidade que dá uma série americana da Netflix, que pode ser um game changer na carreira de um ator”, explica. E assim foi.

“Acho que a minha audição [para a ‘Emily in Paris’] agradou aos produtores e ao [criador] Darren Star”, conta. “Tenho consciência da sorte que tenho em poder fazer parte deste projeto, até porque sabia que a primeira temporada tinha sido um sucesso mundial.”

De ator discreto, passou a protagonista de uma das séries mais vistas em todo o mundo. Algo que, por enquanto, não afetou o seu dia a dia. “Em Paris sinto que as pessoas me seguem com o olhar mais frequentemente”, nota. Viajou recentemente por Portugal, ainda antes da estreia da nova temporada a 22 de dezembro.

“Agora só me reconheceu a minha família (risos)”, diz. “A segunda temporada ainda não estava disponível, mas se calhar da próxima vez que voltar [já me reconhecem].”

A interpretação não é o único talento óbvio do ator e modelo, que fez a estreia na série da Netflix de guitarra em punho. “Sempre gostei de cantar. Aprendi sozinho a tocar guitarra”, recorda. “Fiquei mesmo feliz por saber que o papel [de Benoît] exigia que soubesse cantar. Até gravámos as canções em estúdio com a Ashley Park e hoje todos as podem ouvir nas plataformas musicais.”

Não é o seu único talento. Em conjunto com a ex-mulher e modelo francesa Margot Milani — com quem tem um filho de dois anos —, criou o The Milaniz, um projeto de arte invulgar. “Tive esta ideia de recriar pinturas do estilo renascentista com luzes de néon”, explica, antes de desvendar que tem já planeada uma exposição em Paris para muito em breve.

“O que eu gosto é de criar. Quando não estou a gravar, não consigo ficar sentado sem fazer nada”, confessa. Ao que tudo indica, a história de Benoît em “Emily In Paris” não terminou, mas o ator prefere não desvendar mais detalhes. Sobre o regresso, mantém-se enigmático, mas esperançoso: “Por agora não sei se voltarei, mas espero poder fazer parte da série, caso haja uma terceira temporada.”

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