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Vera Menchik: a campeã de xadrez que foi uma verdadeira “Gambito de Dama”

Venceu o primeiro Mundial feminino e foi a primeira mulher a jogar (e a bater-se) entre os homens.
Ao contrário de Harmon, Menchik existiu mesmo.

“Cavalheiros, tive uma ideia fantástica. Sugiro que criemos um clube com o nome de Vera Menchik. Todos os que cometerem a proeza de perder um jogo com ela, tornar-se-ão seus membros. Os que empatarem, a sua candidatura a membro será tida em consideração”, comentou o mestre de xadrez austríaco Albert Becker.

Em 1929, os maiores génios do jogo reuniram-se naquela que é hoje a cidade checa de Karlovy Vary. No “torneio mais forte desde o fim da Primeira Guerra Mundial”, anunciava a revista “Chess Magazine”, havia uma intrusa: uma mulher chamada Vera Menchik.

Em plenos loucos anos 20, havia ainda muitas barreiras por quebrar. Afinal, no Reino Unido, as mulheres ainda celebravam a conquista do direito ao voto, quando uma mulher ousou intrometer-se entre os homens. E fez pior: derrotou-os e fê-los engolir as próprias gabarolices.

A figura de Menchik é uma lenda na história do jogo e, numa altura em que a personagem de “Gambito de Dama” continua a fazer disparar vendas de tabuleiros por todo o mundo, as semelhanças entre si e Beth Harmon são mais do que óbvias — recorde neste artigo da NiT as vidas que inspiraram a personagem. 

A jogadora nascida na Rússia, de nacionalidade britânica e checoslovaca, tornou-se na primeira mulher a vencer o Mundial de Xadrez Feminino — título que deteve até à sua morte.

Um pouco à semelhança da personagem de ficção da minissérie da Netflix — inspirada no livro de 1983 escrito por Walter Tevis —, Menchik teve também uma infância e adolescência atribulada. E nem isso a impediu de conquistar um mundo de homens com egos de rei.

Crescer no silêncio da revolução

Moscovo, 1906. Não seria propriamente a melhor altura para nascer no império russo, que havia de sofrer um choque uma década depois, fruto da revolução bolchevique. Antes da queda dos czares, a família Menchik vivia bem. Vera chegou mesmo a ser aluna de uma escola privada só para mulheres.

A guerra civil que se seguiu destruiu quase tudo o que tinham arrecadado durante anos. Perderam a casa, os bens, a paz. “Durante o inverno de 1919, a escola que frequentava ficou sem água, aquecimento ou eletricidade. As aulas continuaram e os estudantes, agasalhados com casacos e chapéus, liam à luz das velas. Muitos tinham que caminhar uma hora através da neve, até chegarem a casa, porque todo o tráfego era interrompido depois do horário laboral”, contou Menchik numa carta de 1943 enviada à “Chess Magazine”.

Chegou a vencer vários jogadores de elite.

As dificuldades condenaram o casamento dos pais ao insucesso. O pai, que lhe tinha ensinado as bases do xadrez apenas aos nove anos, fez as malas e regressou à sua terra na Checoslováquia. Vera e a irmã acompanharam a mãe, cidadã britânica, de volta ao Reino Unido.

Sem saber falar inglês, acabou por encontrar no xadrez a forma de se integrar, até porque no tabuleiro, as conversas fazem-se em silêncio, entre jogadas perspicazes e raciocínios rápidos.

“Perguntam-me muitas vezes sobre o que me fez pensar a sério no xadrez. Aparentemente, a atmosfera silenciosa e carregada de fumo não é apropriada para uma jovem mulher. E isso é verdade. Noutras circunstâncias de vida, nunca me ocorreria passar o meu tempo dessa forma, mas o xadrez é um jogo de silêncio e, portanto, o melhor passatempo para uma pessoa que não sabe falar a língua [do país onde vive]”, confessou à “Chess Magazine”.

Apesar de ser uma cidadã britânica, foi quase sempre considerada como uma estrangeira, o que a impedia de participar nas competições nacionais. Mesmo nas suas maiores vitórias, a imprensa destacava-a como a “refugiada russa”. Foi dessa forma que a tratou o grão-mestre franco-russo Alexander Alekhine, apesar dos elogios que lhe deixou.

Quem a subestimou, perdeu.

Os homens em cheque

Foi na pequena cidade de Hastings que começou a reservar muitas das horas do seu dia ao xadrez. Com a ajuda de instrutores do clube de xadrez local, acabou por anos mais tarde cair nas mãos do profissional Géza Maróczy.

No final dos anos 20, deu-se a edição inaugural do Mundial de Xadrez Feminino, mesmo ao lado de casa, em Londres. Menchik participou e, com apenas 19 anos, consagrou-se como a melhor jogadora do mundo.

Apesar dessa edição ter sido pouco concorrida — era, afinal, uma primeira tentativa de captar jogadoras de todo o mundo —. os anos seguintes trouxeram mais e melhores concorrentes. Mesmo assim, Menchick manteve-se no topo com prestações arrasadoras. Por três vezes conseguiu chegar ao fim só com vitórias. Manteve o título de campeã mundial até à morte, com apenas três derrotas registadas.

Rapidamente percebeu que para competir a sério, teria que se juntar aos homens. Em 1929 atreveu-se a desafiar o grão-mestre polaco Akiba Rubenstein. Conseguiu um empate, o que já era por si só um grande feito para uma jogadora com 23 anos.

Foi a primeira mulher a competir no Mundial de Xadrez.

Nesse ano, Menchik era a intrusa no Mundial de Karlovy Vary, onde competiam lendas absolutas do jogo: Capablanca, Euwe, Nimzovich, Bogoljubov, Tartakower, entre outros. As perspetivas para a prestação da única mulher em prova eram mais ou menos unânimes: o último posto estava praticamente reservado.

A sugestão de Albert Becker era uma boa amostra do sentimento generalizado entre os homens. Outro jogador, Hans Kmoch, fez uma aposta pública antes do início do torneio: “Se Menchik fizer mais de três pontos, inscrevo-me no ballet feminino”.

O que aconteceu a seguir era digno de um filme — embora avisemos desde já que não, Menchik não venceu a competição —, bem retratado décadas mais tarde por Salo Flohr, jogador presente no torneio.

“Menchik deve ter ficado com pena de Kmoch: ela fez exatamente três pontos. Contudo, decidiu não poupar outro vienês, Albert Becker, que propôs criar um clube para os derrotados por Menchik. E adivinhem? Na terceira ronda, Becker perdeu para a campeã do mundial feminino. Imaginem a risada que foi toda essa noite. Alguém disse: ‘Muitos parabéns, Professor Becker. É desta forma eleito como o presidente do Clube Vera Menchik’.”

Nos anos que se seguiram, continuou a competir com os homens. Nunca foi muito bem-sucedida nos melhores torneios, embora conseguisse, aqui e ali, derrotar alguns grãos-mestres, à exceção dos craques da elite russa.

Em Londres, 1931, a competir com 20 jogadores em simultâneo.

O título escapou-lhe sempre. O mesmo não se podia dizer dos torneios de segundo escalão, onde continuou a massacrar os egos masculinos. Ainda assim, uma mulher capaz de se bater com os melhores era, à época, por si só um tremendo feito.

“Mantive em suspenso o meu julgamento sobre a Senhorita Vera Menchik, porque se exige o maior cuidado e objetividade na crítica de alguém tão extraordinário. Ao fim de 15 jogos, é certo que é uma absoluta exceção no seu género. Tem um talento tal para o xadrez que com mais trabalho e experiência, será certamente bem-sucedida na evolução de jogadora mediana para campeão internacional de grande classe”, escreveu sobre Menchick o mestre russo Alexander Alekhine, depois da prestação no torneio de Karlovy Vary.

O fim trágico

Casou tarde, aos 31 anos, com outro jogador de xadrez, o britânico Rufus Stevenson. Doente crónico, acabou por morrer seis anos depois do casamento, em 1943.

Os problemas de saúde obrigaram muitas vezes Menchik a ter que optar por ficar em casa e a recusar a participação em diversos torneios. Depois da morte do marido, retomou a competição possível, já que a Segunda Guerra Mundial estava já em andamento.

Havia acabado de vencer três partidas e tinha acesso à semi-final, que se jogaria a 27 de junho. Infelizmente, no dia 26, num dos muitos ataques aéreos nazis à capital britânica, uma das bombas caiu precisamente na casa de Vera Menchik.

O rocket destruiu tudo à sua volta e matou não só Vera, como a mãe e a irmã Olga, que viviam consigo nos subúrbios londrinos. Tinha 38 anos e só então o título mundial de xadrez ficou à mercê de outras mulheres.

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