Em Corroios, no concelho do Seixal, cresce uma geração de artistas que prefere o caminho da autenticidade ao da pressa. Guilherme Lima, 25 anos, é um deles. Conhecido artisticamente como grizzzie, o músico tem vindo a construir o seu percurso longe das fórmulas fáceis, guiado por uma ideia muito clara: “Faço música porque gosto. Desde que comecei, passei a gostar ainda mais de música.”
A sua história cruza raízes familiares, descobertas feitas fora do país e uma evolução criativa constante. Além da música, Guilherme tem uma vida profissional ativa. “Desde 2021 que sou coordenador de uma empresa de eventos, mas não deixo de me dedicar à música a cem por cento”.
O nome grizzzie surgiu nos tempos de escola e acabou por ficar. Uma das suas grandes inspirações foi XXXTentacion, artista que o marcou pela forma crua de criar música. O detalhe das três letras repetidas no nome do rapper norte-americano influenciou a escolha artística.
“Inspirei-me no XXXtentacion. Como tinha três letras iguais no nome, quis fazer uma homenagem”, explica. Entre colegas, a alcunha começou a ser usada naturalmente e Guilherme decidiu assumi-la, acrescentando três “z”. “Quero apaixonar-me pela música da forma como ele fez. É isso que tento fazer também.”
Cabo Verde e o primeiro contacto com a produção musical
Foi em 2014, em São Vicente, Cabo Verde, que tudo começou e quase por acaso. Sem acesso regular à internet, Guilherme descarregou um programa de produção musical apenas para passar o tempo. “Fiz o download de um programa só para brincar”, recorda.
A música, no entanto, já fazia parte da sua vida. Bonga, o tio-avô é um dos melhores músicos angolanos, presença constante no seu crescimento. A ligação às raízes musicais africanas reforçou-se também através de uma das maiores figuras da música lusófona. “Cresci rodeado de música. Isso ficou em mim, mesmo sem perceber logo o impacto.”
Os primeiros passos foram dados na produção de beats de kuduro, género que marcou essa fase da sua vida. Mostrava as criações aos amigos, que reagiam com entusiasmo e insistiam para que começasse a cantar. A resposta era sempre a mesma. “Eles diziam para eu cantar, mas eu respondia que não tinha jeito.”
Depois de viver três anos em Cabo Verde, regressou a Portugal em 2015. O panorama musical estava a mudar e muitos dos artistas que hoje dominam as playlists começaram a ganhar destaque. Nos intervalos da escola, improvisava ao som de beats, apenas por diversão. Até que decidiu escrever uma letra. “Depois disso, nunca mais parei e já lá vão dez anos disto”.
Do “baú” à primeira experiência num estúdio profissional
Em 2018, tinha vários temas guardados e gravados de forma caseira no computador. Dois desses sons chegaram a Lord, ligado ao universo de Plutónio, que namorava com a prima de grizzzie. O interesse foi imediato. “Dois meses depois de ouvir o meu trabalho, chamou-me para ir gravar a Inglaterra”, conta.
Foi a primeira vez num estúdio profissional e a experiência marcou-o profundamente. Gravou 11 músicas e começou a perceber que podia construir um caminho real na música, mesmo sem pressa.
Ainda no regresso a Portugal, chegou a gravar um videoclipe que nunca foi lançado. O resultado final não correspondia à visão artística que tinha idealizado. “Não ficou como queria e decidi não lançar.”
Seguiu-se uma pausa entre 2020 e 2021, dedicada aos estudos e à reflexão. Entre 2020 e 2022, o crescimento foi sobretudo criativo. “Os sons que tinha gravado já não me representavam.” Em 2022, decidiu regressar em força ao mundo da música e lançou finalmente o primeiro videoclipe no YouTube com um amigo.
Foi deste trabalho que surgiu a ideia de lançar o primeiro single, “Último Outono”. “Não queria fazer algo igual ao que os outros fazem. Queria inovar e fazer algo meu, por isso criei, editei e fiz o meu primeiro single.”
A sua produção musical baseia-se nas raízes do rap, com influências de estilos como o trap e o boom bap, que servem de base à sua identidade sonora.
Estúdio próprio e a música como arte
Em 2023, dá um passo decisivo e cria o seu estúdio, investindo cerca de cinco mil euros. Começa a controlar todo o processo criativo, a querer saber mais sobre o mundo da música, e a trabalhar com artistas de renome.
Em paralelo, desenvolveu um projeto no SoundCloud, onde assume uma posição clara. “As pessoas querem levar a música para um lado que não é a arte, tornam-na artificial. Eu levo a música para a arte.” Um dos exemplos é “Coroa de Espinhos”, gravado no telemóvel. “Mesmo tendo estúdio, gravei dessa forma. Para mim, o importante é a mensagem e fazer o que realmente amamos, sem pensar em números”.
Em junho de 2025 aconteceu a sua primeira atuação ao vivo, no palco do Musicbox, em Lisboa. A expectativa era baixa, mas a realidade surpreendeu. “Quando cheguei lá, vi pessoas a cantar a minha música.” Um momento que confirmou que o percurso estava a fazer sentido.
Atualmente, Guilherme Lima, está a trabalhar no projeto “Vizzzão”, que representa um novo capítulo na sua carreira. Com cerca de 80 por cento do trabalho concluído, o disco nasce da vontade de assumir uma identidade ainda mais própria.
“Vizzzão” cruza referências ligadas à moda e à estética, áreas que sempre o inspiraram, com temas mais profundos como família, emoções e vivências pessoais. “Tem coisas muito íntimas da minha vida. É o que penso e sinto, sem filtros.”
O processo criativo tem sido intenso e espontâneo. Guilherme começou a trabalhar no projeto há cerca de um mês e meio e decidiu lançar os temas de forma faseada, criando uma ligação mais próxima com quem o acompanha. “Quero que as pessoas acompanhem o processo, não só o resultado final. Uma música já foi lançada e, até ao lançamento do álbum completo, até ao final deste mês de janeiro, está previsto o lançamento de um novo tema por semana”.
Mais do que um conjunto de canções, “Vizzzão” é um retrato fiel do momento atual de grizzzie. Um projeto feito sem pressa, sem fórmulas e com uma certeza: “Estou a tomar o meu caminho. Faço música porque gosto — e isso nota-se em tudo o que faço.”
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