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Roubo ou inspiração? As acusações de plágio que perseguem Beyoncé

A artista voltou em força com um novo single e novo disco, mas as queixas contra a artista mantêm-se.

O mundo parava novamente para ouvir o novo disco de Beyoncé. Ainda os refrões não estavam decorados e, uma semana após o lançamento, já surgiam as primeiras acusações de plágio. Os dedos acusadores apontavam para o videoclipe do single “Hold Up”.

Ao seu lado surgiam imagens de um vídeo de uma instalação artística com quase duas décadas, criada pela artista visual suíça Pipilotti Rist. No tema de Lemonade, a artista passeia pela rua de vestido e, com um taco de baseball na mão, estilhaça o vidro da janela de um carro. O cenário tem várias semelhanças com a produção de Rist, que repete exatamente os mesmos movimentos e gestos, mas com uma flor gigante em punho.

Seis anos depois, Beyoncé volta a agitar o mundo com o seu novo disco, sucessor de Lemonade, antecipado esta terça-feira, 21 de junho, com o lançamento do primeiro single, “Break My Soul”, horas antes do previsto. Será um dos temas que farão parte do sexto álbum de originais com chegada prometida a 29 de julho.

O que ainda não se sabe é se também este novo trabalho dará origem a novas acusações, mas dada a tradição — Beyoncé tem vindo a ser repetidamente acusada de se inspirar fortemente em trabalhos de outros artistas —, é expectável que a controvérsia se repita. O caso suscitado por vários órgãos de comunicação social na sequência do lançamento de Lemonade nunca foi comentado oficialmente pela norte-americana e também nunca chegou a tribunal. O mesmo não se pode dizer de outras acusações.

É preciso viajar até 2001 para encontrar as primeiras polémicas que envolvem um dos seus primeiros grandes êxitos ainda com as Destiny’s Child. Dois anos depois do lançamento do single “Survivor”, do disco com o mesmo nome, dava entrada em tribunal um pedido de indemnização de perto de 200 milhões de euros por violação de direitos de autor.

Neste caso, o autor que reclamava os direitos era Terrence Robinson, um produtor de Miami que dizia ter sido ele a criar o tema, então originalmente chamado “Glorious”. Segundo o queixoso, o tema teria sido apresentado em 2000 a Mathew Knowles, o pai de Beyoncé. Robinson esperava que a qualidade da música o ajudasse a subir na carreira. Segundo o próprio, Knowles nunca mais deu qualquer resposta.

Meses mais tarde, Robinson ouvia a sua alegada criação pelas vozes das três artistas das Destiny’s Child. “Sei que neste momento poderia ser um dos mais procurados produtores no mundo”, anunciou em 2003 após a apresentação do caso em tribunal.

A banda reagiu com outro processo em tribunal, no qual processava Robinson por fraude. “Já há pelo menos três pessoas a reclamarem que foram elas que compuseram a música”, explicou na altura Mathew Knowles, que argumentou que não fez parte da produção do tema. Segundo o pai de Beyoncé, terá sido a banda a escrever as letras e a produção ficou a cargo do produtor Anthony Dent.

O tema vendeu milhões de cópias e assegurou a conquista do Grammy, em 2002, para melhor performance R&B. O caso ficou dormente e nunca mais foi discutido em público. Segundo alguns meios norte-americanos, tudo terá sido resolvido num acordo extrajudicial sobre o qual não se conhecem detalhes.

Poucos meses depois, Beyoncé soltava-se das amarras da banda e lançava-se a solo com o seu disco de estreia “Dangerously In Love”. “Crazy In Love”, o primeiro single, explodiu, mas chegados ao segundo single, regressaram as polémicas.

A tribunal chegou outra acusação de plágio, desta vez da letra de “Baby Boy”, que a artista americana Jennifer Armour alegava serem semelhantes à do seu “Got a Little Bit of Love For You”. Mais uma vez, várias cópias desta versão inicial do tema foram enviadas a diversos produtores pelo agente de Armour — sem resposta.

Foi num concerto da artista que Armour se deparou com o tema e com as semelhanças. O caso acabaria por não lhe dar razão, com o juiz a considerar que antes de se poderem debater as semelhanças, teria que ficar provado que Beyoncé conhecia, de facto, o tema de Armour, antes de ter criado “Baby Boy”.

Em 2011, era lançado o seu quarto disco, “4”, em conjunto com o single “Countdown” que, como é habitual, contou com um videoclipe altamente produzido, recheado de cores e uma coreografia que todos os fãs poderiam tentar replicar. O problema? É que muitos repararam nas inegáveis semelhanças com outro trabalho.

“Não estou irritada, mas isto é plágio”, afirmou Anne Teresa de Keersmaeker. “O mais rude em tudo isto é que nem sequer se deram ao trabalho de tentar escondê-lo.”

Keersmaeker é a criadora de “Rosas Danst Rosas”, uma peça criada pela própria em 1983, mas também de “Achterland”, lançada em 1990. Ambos os trabalhos de coreografia contêm inúmeros movimentos que são exatamente replicados em “Countdown” mas, segundo a autora original, o novo videoclipe “rouba” também alguns dos cenários e roupas.

Confrontada com as semelhanças, Beyoncé e o realizador Adria Petty admitiram que os trabalhos de Keersmaeker serviu de “influência”. “Claramente que o ballet ‘Rosas Danst Rosas’ foi uma das muitas referências que usei no videoclipe de ‘Countdown’. Foi uma das inspirações que usei para dar vida ao espírito e ao look da canção”, confirmou Beyoncé num comunicado público.

Segundo a artista, o trabalho de Keersmaeker foi apenas “uma de muitas inspirações”, numa lista que inclui “Funny Face” de Audrey Hepburn, bem como trabalhos de Brigitte Bardot, Andy Warhol e Diana Ross. “Sempre fui fascinada pela forma como a arte contemporânea usa diferentes elementos para produzir algo único”, concluiu.

Nenhuma ação chegou aos tribunais, mas Keersmaeker foi suficientemente sucinta e cáustica nos seus comentários. “Nos anos 80, o trabalho era visto como uma afirmação do poder feminino”, escreveu sobre a polémica. “Sempre me perguntaram se era um trabalho feminista. Agora que vejo a Beyoncé a dançá-lo, acho o agradável, mas não lhe reconheço qualquer vanguardismo. É apenas sedutor de uma forma divertida e consumista.”

Sem tempo para respirar, Beyoncé viu-se no mesmo ano confrontada com a acusação de ter copiado a performance nos Billboard Music Awards de outra semelhante, da autoria de uma coreógrafa italiana. As evidências obrigaram a artista a assumir, mais uma vez, não o plágio mas “a inspiração”.

“A minha maquilhadora mostrou-me a performance da Lorella Cuccarini há um ano e ela inspirou-me imenso”, revelou mais tarde Beyoncé. Do lado da italiana, não houve qualquer problema e a coreógrafa confessou que “gostou” das semelhanças na performance de “Run The World (Girls)”.

A saga continuou em 2014, quando uma artista folk húngara acusou e processou em tribunal não só Beyoncé mas também o marido, Jay-Z, por “terem ilegalmente usado” a sua voz no tema “Drunk In Love”. Mitsou apresentou o caso nos Estados Unidos, tendo por base a sua interpretação do tema “Bajba, Bajba Pelem”, de 1995, uma canção Roma que lhe foi passada pela avó.

A sua voz terá sido “digitalmente manipulada” sem a sua permissão e depois embebida na produção final do tema que acabaria por ser nomeado para os Grammy. “A voz de Mitsou é usada durante mais de um minuto e meio dos mais de cinco minutos da canção”, revelava o processo. “Mitsou nunca assinou qualquer documento a permitir o uso da sua voz.”

A húngara acabaria por perder o caso em tribunal devido a uma questão legal, dado que foi usado o meio errado para exigir uma indemnização no sistema judicial norte-americano.

Em 2015, o cenário repete-se, com Beyoncé a ser novamente processada. O pedido: seis milhões de euros de indemnização. O autor da queixa foi Ahmad Lane, nome artístico Javon, que alegava que o seu tema “XOXO” continha inúmeras semelhanças ao tema da cantora “XO”, que faz parte do disco da norte-americana lançado em 2013.

Mais uma vez, o queixoso reclamava ter passado o seu tema a Beyoncé através do vocalista secundário da cantora, Chrissy Collins, que o terá dado à artista. A defesa foi pronta: “os temas são canções completamente diferentes que não têm qualquer semelhança na letra ou na música”. A mesma opinião teve o tribunal, que não deixou avançar o processo.

Também a sua digressão Formation World Tour ficou manchada por nova queixa de plágio. O dançarino e coreógrafo Marlyn Oritz acusou Beyoncé de roubar vários movimentos do seu grupo De La Guarda.

“Tens uma lata monumental em roubar conceitos exatos de coreografia de outros génios criativos (…) Não há problema em inspirar-se noutros trabalhos, mas pelo menos que faça o esforço em torná-los mais seus”, escreveu nas redes sociais. Não foi apresentado qualquer processo.

As repetidas queixas de plágio entrelaçam-se com outros casos curiosos nos quais a artista foi apanhada a contar uma versão alternativa dos factos. Quando, em 2000, lançou um dos seus mais conhecidos temas, “Crazy In Love”, Beyoncé explicou a sua origem. “A canção ocorreu-me durante um dia no estúdio em que parecia realmente estar louca. Disse ‘I’m looking crazy right now’ e o Rich Harrison, o produtor, disse: ‘É essa a canção’.”

Contudo, Harrison tinha outra versão. De acordo com o produtor, foi ele quem mostrou à cantora a primeira versão do tema. “Adoro a ideia, agora escreve o tema. Volto dentro de duas horas”, terá dito Beyoncé, segundo o produtor. O tema foi escrito num par de horas, para alegria da cantora que, de acordo com Harrison, terá apenas composto uma pequena secção do single.

Foi novamente apanhada a mentir em 2008, quando explicou num concerto que compôs o tema “Irreplaceable” em honra de todas as mulheres. Afinal, o tema foi assinado por Ne-Yo, que revelou mais tarde ter sido ele a criar o hit. “Honestamente, escrevi esse tema para mim próprio”, confessou, apesar de ter revelado não ter quaisquer problemas com o facto de a artista ter assumido a sua autoria.

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