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Ricky Gervais volta a enfurecer a comunidade trans no novíssimo especial na Netflix

O comediante britânico sabia ao que ia e as críticas não tardaram. “Supernature” estreou esta terça-feira.
Ele está a tentar ser cancelado

Um peido num funeral de um bebé. É daqui que Ricky Gervais parte para o arranque do seu novo especial de comédia, “Supernature”, não sem antes puxar “do velho cliché de que as mulheres não têm piada”. Um segmento que pavimentou o caminho para a grande e previsível polémica.

Poder-se-ia pensar que um par de piadas escatológicas que envolvem a morte de um bebé pudessem provocar a ira de vários espectadores. Nada disso. O comediante britânico está novamente sob fogo por aplicar o seu habitual tratamento humorístico à comunidade transgénero.

Gervais preparou a plateia para o segmento, apesar de arrancar logo aos quatro minutos do especial. Perante a “ironia” e o “cliché das mulheres sem piada”, o comediante deu vários exemplos: Dame Edna Everage, a personagem feminina do comediante australiano Barry Humphries; e Eddie Izzard, mulher trans.

“Oh, as mulheres”, suspira. “Quer dizer, nem todas as mulheres. Refiro-me às de antigamente, as mulheres antigas. Aquelas que têm úteros — esses dinossauros de merda.”

Já noutro tom, aborda o tema de outra forma. “Adoro as novas mulheres. São fabulosas não são? Aquelas novas que temos visto ultimamente. Aquelas com barba e pila. São uma preciosidade, adoro-as”, diz Gervais, antes de simular uma discussão bem contemporânea.

“Agora os mais antiquados dizem: ‘oh, querem usar as nossas casas de banho’. Por que raio não poderiam usá-las? ‘Porque são para mulheres’”, continua o comediante a articular a discussão. “São mulheres — reparem nos pronomes delas. Há algo nesta pessoa que não seja de senhora? ‘Bem, o pénis dele.’ Dela, seu preconceituoso.”

O segmento foi recebido com gargalhadas e aplausos mas, nas redes sociais, assim que “Supernature” estreou, esta terça-feira, 24 de maio, as críticas começaram a chover, sobretudo vindas da comunidade trans.

O humorista e criador de séries como “The Office” e “After Life” foi acusado de atacar uma comunidade já de si marginalizada. Naturalmente, o especial de comédia provocou já inúmeros pedidos de cancelamento de Gervais e da Netflix.

O segmento serviu de ponte para Ricky Gervais antecipar aquela que seria precisamente a reação que se está a verificar. “Odeio quando dizem: ‘essa piada foi ofensiva. Não, tens de dizer que tu a achaste ofensiva. É tudo uma questão de opinião pessoal”, rematou.

Deu o exemplo de Kevin Hart, ator que foi impedido de apresentar os Óscares depois de uns tweets homofóbicos com mais de uma década terem ressurgido nas redes sociais. “Não podes prever o que será ofensivo no futuro”, defendeu Gervais.

“Nunca sabes qual será a opinião dominante. A pior coisa que podes dizer hoje e que te cancela automaticamente no Twitter, dá direito a ameaças de more, o pior que podes dizer é: ‘as mulheres não têm pénis, certo?’. Nunca ninguém imaginou este cenário. Nunca irás encontrar um tweet com dez anos a dizer: ‘As mulheres não têm pénis.’ Sabem porquê? Porque nunca imaginámos que fosse preciso.”

O comediante acabaria por baixar as armas, sem deixar cair uma nova punchline. “Para ser totalmente honesto: na vida real, é óbvio que apoio os direitos das pessoas trans. Apoio todos os direitos humanos e os direitos trans são direitos humanos”, explicou.

“Vivam a vossa melhor vida, usem os vossos pronomes preferidos. Sejam do género com o qual se sentem mais à vontade, mas encontrem-se comigi a meio caminho, senhoras: percam a pila.”

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