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Porque é que Portugal é cada vez mais procurado pela indústria de Hollywood?

A Aldeia de Monsanto pode receber gravações da nova série de “A Guerra dos Tronos”. Nos últimos anos não têm faltado filmes e séries internacionais por cá.
O spinoff de “A Guerra dos Tronos” pode passar por Portugal.

Historicamente, já foram gravadas algumas grandes produções internacionais em Portugal. É o caso de “007 – Ao Serviço de sua Majestade”, “A Casa dos Espíritos”, “A Nona Porta” ou “Comboio Noturno para Lisboa”. Outros exemplos menos conhecidos são “Os Comandos da Morte”, “O Círculo Invisível” ou “That Good Night”.

Nos últimos anos, contudo, tem havido uma maior aposta no País. Poucos dias antes de ser noticiado que a nova série de “A Guerra dos Tronos” pode ter gravações na histórica aldeia de Monsanto, a revista americana “The Hollywood Reporter” publicou um artigo a destacar isso mesmo, que Portugal é cada vez mais um país procurado pela indústria do cinema e da televisão.

Apesar de sermos um país relativamente pequeno e discreto, numa das pontas da Europa, a publicação especializada destaca que a “beleza deslumbrante”, o “clima ameno e soalheiro”, e as “infraestruturas de primeira linha” têm sido alguns dos motivos pelos quais Portugal tem sido procurado.

Há várias produções internacionais que foram gravadas nos últimos anos por cá. Uma delas é “Colour Out of Space”, o filme de terror fantástico dirigido por Richard Stanley e protagonizado por Nicolas Cage — sendo que um dos produtores era Elijah Wood. Foi quase todo rodado em Sintra e estreou em 2019.

“Temos excelentes condições naturais e climatéricas, variedade paisagística e arquitetónica, excelentes equipas e material técnico mas falta-nos ainda criar a indústria. Nós temos um longo caminho a percorrer que vai exigir consistência no trabalho, nos sistemas de apoio financeiro para atrair as produções internacionais e de uma aposta muito forte na melhoria da formação de profissionais e infra-estruturas de estúdios”, defendeu à NiT o produtor português deste projeto, Mário Patrocínio.

Outro filme que também usou Sintra como cenário foi “Frankie”, de Ira Sachs, drama familiar protagonizado por Isabelle Huppert, com Brendan Gleeson e Jérémie Renier no elenco. Estreou em 2019.

Há também o caso de “Fátima” — embora, pelo tema, fizesse todo o sentido que este filme fosse gravado em Portugal. Esta produção, que ainda não estreou nos cinemas nacionais, centra-se na história dos três pastorinhos. Além de uma equipa técnica e de um elenco bem português, tem nomes como Harvey Keitel, Goran Višnjić e a brasileira Sônia Braga. Foi realizado pelo italiano Marco Pontecorvo, que trabalhou em “A Guerra dos Tronos”.

Bollywood também passou por Portugal nos últimos anos. A gigante indústria de cinema da Índia marcou presença no País através do épico de ação “War”, realizado por Siddharth Anand, que estreou em 2019 e que foi gravado em diversas cidades portuguesas (na altura, condicionando bastante o trânsito).

Uma das principais medidas tomadas por Portugal para atrair produções internacionais é o programa do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) Cash Rebate. Foi lançado em 2018 e consiste num sistema de abate de impostos diretos às produções internacionais entre os 25 e os 30 por cento do custo de produção, tendo como base as despesas locais. A despesa anual está fixada em 12 milhões de euros e cada filme pode gastar, no máximo, quatro milhões.

No ano passado, os criadores de “La Casa de Papel” vieram a Lisboa e arredores filmar várias cenas para a quinta (e última) temporada da série da Netflix. A primeira parte estreia em setembro, a segunda em dezembro. A NiT fotografou Tokyo a descer o Elevador da Bica e numa festa de Santos Populares no Bairro Alto.

Em junho, foi também anunciado que Emily Watson e Richard E. Grant vão gravar um filme chamado “Fado!” em Lisboa. Conta a história de Linda e Jim, um casal que está prestes a celebrar o seu 30.º aniversário com uma viagem romântica à capital. No entanto, antes de partirem para Portugal, Linda descobre um segredo que vai abalar a vida dos dois.

A internacionalização do talento português

Nos últimos anos, com a ascensão das plataformas de streaming, tem havido uma democratização geográfica das produções — o público parece estar mais recetivo a ver filmes e séries não falados em inglês, por exemplo. Além disso, parece haver uma maior abertura para a diversificação das origens dos atores — e uma facilitação no processo de casting, que agora também acontece à distância, através das self-tapes, gravadas em casa, por exemplo, pelos próprios intérpretes.

Nuno Lopes (“White Lines”), Albano Jerónimo (“The One”, “Vikings” e “El Presidente”), Alba Baptista (“Warrior Nun”), Pêpê Rapazote (“Narcos”), Maria João Bastos (“O Mecanismo”), Joaquim de Almeida (“Warrior Nun”), Lídia Franco (“6 Underground”), Ivo Alexandre (“Vikings”), Miguel Amorim (“The One” e “Love, Death & Robots”), Milton Lopes (“The Third Day”), Rodrigo Soares (“Alta Mar”), Pedro Hossi (“Sérgio”) e José Pimentão (“1899”) são alguns dos atores que se têm internacionalizado. Muitos deles conseguiram os papéis através do programa Passaporte, de Patrícia Vasconcelos e da Academia Portuguesa de Cinema, que todos os anos tem juntado atores portugueses com diretores de casting internacionais.

A Netflix vai ainda estrear “Glória”, a primeira série original portuguesa da plataforma. É um thriller de espionagem realizado por Tiago Guedes e escrito por Pedro Lopes. “A série decorre nos anos 60, no auge da Guerra Fria, na pequena aldeia da Glória do Ribatejo, onde se situa a RARET, centro de transmissões americano que emite propaganda Ocidental para o Bloco de Leste. João Vidal, um engenheiro de famílias ligadas ao Estado Novo, mas recrutado pelo KGB, vai assumir várias missões de espionagem de alto risco que podem mudar o curso da história portuguesa e mundial”, descreve a sinopse. Ainda não há data de lançamento, mas pode ser uma porta aberta para outros projetos.

Além disso, plataformas como a HBO e a Netflix têm apostado cada vez mais na aquisição de produções portuguesas para os respetivos catálogos. A Netflix tem promovido ainda concursos locais — primeiro, em busca de projetos de argumentistas portugueses; depois, para apoiar longas-metragens de mulheres cineastas nacionais.

“Com o aparecimento das plataformas de streaming, existem hoje muitos casos de estudo que mostram que também será possível fazer conteúdos originais portugueses que tenham potencial para chegar ao mundo. Temos que apostar mais na criação do que na produção a meu ver. Se formos um país de criadores, as histórias poderão ultrapassar qualquer fronteira e levar o talento português a qualquer ponto do planeta. Para isso temos que apostar no desenvolvimento de ideias e na formação de bons guionistas, em associação com produtores com visão de mercado internacional. No fundo, ao levar criações portuguesas para o mundo estamos a mostrar o nosso talento que por sua vez será um ponto de atração também para atrair produções para Portugal”, disse ainda à NiT Mário Patrocínio.

Há outro projeto que vale a pena ter em consideração. Há três anos, foi instalado em Braga um estúdio de pós-produção, especializado em efeitos especiais, uma sucursal do grupo Nu Boyana Films, que tem divisões na Bulgária e em Londres, no Reino Unido. Já trabalharam em projetos como “Hellboy”,  “Rambo V: Last Blood” e “Angel Has Fallen”. 

Segundo a “The Hollywood Reporter”, no ano passado os grupos britânicos MovieBox e Landesdown Capital decidiram investir 60 milhões de euros na construção de um complexo de produção em Loulé, no Algarve, o que poderá ser mais uma boa notícia para o setor audiovisual português.

Leia também o artigo da NiT que lhe explica o que terá atraído os produtores da nova série de “A Guerra dos Tronos” para quererem gravar em Monsanto.

Carregue na galeria se estiver à procura de novidades na televisão ou nas plataformas de streaming.

 

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