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O artista que pinta ostras e azulejos como forma de homenagem ao Seixal

Hugo Castanheira tem um pequeno espaço no Largo da Igreja que pode visitar para ver os seus trabalhos. Não deixe de passar por lá.
Foto: Fernando Branquinho.

O grande atrativo do Núcleo Urbano Antigo do Seixal é, sem dúvida, a Rua Paiva Coelho que tem os melhores restaurantes do concelho — e estão reunidos nesta lista. Ainda assim, há muito por descobrir noutras ruas, como a Avenida Dom Nuno Álvares Pereira que tem a melhor vista, ou até o Largo da Igreja. Como o próprio nome indica, neste largo pode encontrar a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e um pequeno espaço (L1B — Associação Cultural) que tem uma das figuras mais caraterísticas do Seixal.

Nesta associação cultural, que se encontra num espaço cedido pela Câmara Municipal do Seixal, pode encontrar Hugo Castanheira, um pintor seixalense muito carismático e que utiliza esta loja como o seu atelier e local de inspiração. O universo da arte começou cedo para este artista, tal como muitas outras figuras, mas foi preciso muita persistência e dedicação para fazer da arte a sua vida.

“Quando éramos miúdos havia um programa de desenhos animados, de cartoons, e o Vasco Granja era o apresentador. Ele falava muito dos cartoons e achava isso fascinante, sendo que quis sempre desenhar. Quando dizia que queria ser pintor a maioria das pessoas dizia que ia ser, mas, na verdade achavam que eu ia ser outra coisa qualquer”, começa por nos contar.

Com apenas um mês de vida mudou-se de Aldeia de Paio Pires para o Seixal, que tinha na altura um custo de vida mais barato. A sua infância é semelhante à de muitos outros seixalenses, tendo estudado na Escola José Afonso e praticado modalidades como o basquetebol, futebol ou até o hóquei em patins.

Nunca foi um mau aluno da escola e por isso a mãe queria que ele fosse advogado ou médico. Mas, tudo o que Hugo queria estava relacionado com o mundo da arte, desde pintar bonecos a desenhar — na prática tudo o que envolvesse algum tipo de criação artística.

A primeira experiência no estrangeiro

Aos 18 anos tomou uma das decisões mais radicais da sua vida: mudar-se para Inglaterra. “Nas férias já trabalhava e fui para o Algarve fazer time sharing em que fazia muito dinheiro e ganhei a minha independência. Quando regressei voltei para casa dos meus pais e pensei que não era uma boa coisa voltar para trás.”

Nessa altura costumava sair à noite com os amigos e percebeu que para não preocupar a mãe (e ganhar independência) com os seus horários e vida que estaria no momento de uma ter uma experiência diferente. Acabou por optar ir trabalhar para Inglaterra, onde fez vários tipos de trabalho em restaurantes ou em catering.

Essa experiência, que aconteceu nos anos 90, foi uma das mais marcantes por outros motivos. Em 1997, o ano em que nasceu o filho mais velho, foi decorar o quarto e optou por pintar alguns desenhos do Garfield na parede — e percebeu que tinha mesmo potencial artístico. 

“No natal desse ano pedi que toda a gente me oferecesse materiais de pintura, como aguarelas, papel, pincéis e tintas, e comecei a rabiscar e a fazer coisas. Curiosamente fiz uma coleção que eram umas figuras para colocar o ser humano em perspetiva, que somos tão grandes como as formigas, porque tudo depende da situação em que estamos.”

Nesta coleção fez vários tipos de pinturas e uma das primeiras peças foi comprada: o primeiro trabalho artístico remunerado que fez. De seguida, encomendaram mais duas ou três dessa coleção, e partir daí começou a ganhar alguns contactos e fazer outro tipo de trabalhos, como pinturas de animais de estimação.

As viagens e a influência na sua pintura

No meio deste processo acabou por ganhar experiência e conseguiu uma posição com responsabilidade numa multinacional. O artista foi product manager dessa empresa e acabou por lidar com pessoas do mundo inteiro. No meio dessas viagens percebeu a importância (e a sorte) de ser português.

“O que me fui apercebendo foi que tu sais de Lisboa e vais para Munique, Londres, Paris ou Berlim, as caras dos edifícios são diferentes, mas, os problemas das vidas das pessoas são exatamente os mesmos. As pessoas tornaram-se todas cinzentas, de certa forma.”

Em 2000 essa empresa abriu uma filial em Portugal e Hugo regressou a Portugal, para fazer a sua vida a partir do seu País, mas continuando a viajar pela Europa fora e até fazendo viagens sozinhos. Aqui tem a família, o bom clima, a simpatia dos portugueses e uma série de atividades que podemos fazer sem gastar dinheiro.

Ainda assim, há um aspeto que recorda com saudade dessa experiência: a interação com povos diferentes. Por exemplo, quando esteve duas semanas em Taiwan, não se limitava a estar apenas a trabalhar e ir ver as fábricas. Acabou por conhecer muitos países europeus durante esse período e essa experiência marcou-o enquanto artista.

Foi nesse período, e por causa de um acontecimento em específico, que a sua visão do mundo alterou para sempre. Em setembro de 2001 teve a primeira viagem de negócios sozinho para Paris e no dia dos atentados às Torres Gémeas viajou até à capital francesa.

“A partir do 11 setembro perdi todo o prazer em voar. Por exemplo, houve alturas em que eu apanhava três aviões por dia, e sabia exatamente o que podia levar nos bolsos. Depois só por cumprimentar uma pessoa que estava do outro lado do aeroporto, porque já tinha visto antes noutra viagem, revistaram-me todo.” Desde então, já voltou a entrar no avião, mas nunca mais teve prazer em viajar.

A pintura sempre fez parte do seu percurso.

A pintura como o trabalho principal

A pintura, por sua vez, continuou apenas como um hobby, até porque ainda não conseguia sobreviver apenas do mundo da arte. Após regressar a Portugal, acabou por deixar a empresa onde trabalhava e aí abriu o seu primeiro atelier em 2004 no Seixal.

“Entretanto, chegou a crise de 2008. Eu tinha menos experiência e uma fundação menos sólida e não consegui aguentar o transtorno que isso causou em mim.” Nessa altura, optou por trabalhar noutras áreas, até que há quatros anos regressou ao mundo da pintura de forma oficial.

O seu atelier atualmente.

A Associação Cultural L1B já existe há vários anos para preservar as artes e a memória dos seixalenses e por isso mesmo, o pintor pediu a esta associação um espaço para poder aprofundar a ligação da sua arte com a população local — e o espaço escolhido foi a loja onde se encontra hoje. Há mais artistas associados com a associação, mas atualmente é Hugo Castanheira que mantém o espaço aberto. 

As ostras como arte

O artista seixalense não tem qualquer formação na área e tudo o que aprendeu é autodidata. A inspiração é, por enquanto, a responsabilidade das encomendas dos clientes. Por exemplo, de momento, está a trabalhar num painel com 600 peças que vai demorar quatro meses até estar pronto.

O painel em que está a trabalhar.

“A parte mais fixe do dia é a manhã, porque eu gosto de acordar com o sol. Sempre que acordo e vou à casa de banho, é nesse período que me sinto mais inspirado.” Entre os trabalhos que este artista faz inclui-se iconografia, trabalhos em ostras, como homenagem à história do Seixal, azulejos do Seixal ou quadros. 

Hugo Castanheira trabalha maioritariamente em materiais que estão facilmente acessíveis, como a ostra ou a cortiça, para que possa alterá-los sempre que quiser. “O meu conceito é tornar as coisas feias em coisas bonitas e reutilizáveis. Já pintei pedras da calçada e coisas que iam ser lixo para a lareira.”

Os preços variam consoante o trabalho, sendo que o produto mais barato são mesmo os azulejos do Seixal, que custam 25€. Todo o processo é cuidado e demorado, mesmo o produto aparentemente mais simples, como são os azulejos, demoram em média três dias. 

A pandemia e as alterações climáticas vieram certamente impactar a vida de todos. Ainda assim, trouxeram algumas mudanças positivas como a valorização do comércio local e do trabalho artesanal, em detrimento das grandes lojas internacionais. Por isso mesmo, se procura uma peça original para decorar a sua casa, tem aqui uma bela opção local.

“A minha ambição é ter uma fábrica de cortiça. Quero dar trabalho a pessoas que gostem de trabalhar com as mãos. Usamos as máquinas para estender a nossa capacidade e não necessariamente substituir.”

A ostra.

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