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Nuno Silva: o músico seixalense que é um dos mestres do clarinete em Portugal

Soma já mais de quatro décadas de atividade musical. A sua carreira é um exemplo para quem vive desta arte.
Aqui, o músico, captado pela lente do fotógrafo Jorge Velez.

Nuno Silva teve o seu primeiro contacto com a música quando ainda nem sabia ler nem escrever. Com apenas cinco anos entrou no vasto universo das pautas, das notas e dos sons na Sociedade Filarmónica União Arrentelense, no concelho do Seixal. Por essa altura ainda estava longe de pensar que iria fazer da música a sua atividade profissional.

Aos 12 anos foi para o Conservatório Nacional e foi por lá que começou a perceber que, afinal, tinha potencial e que poderia fazer a diferença no panorama nacional desta arte. A partir dessa altura não hesitou e foi sempre caminhando com o objetivo de ter uma carreira de sucesso na música.

Passou pela Escola Superior de Música do Porto, a atual Escola Superior de Música de Artes do Espetáculo, e licenciou-se em Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa. Fez ainda um mestrado nos Estados Unidos da América na Universidade da Califórnia e, mais recentemente, terminou um doutoramento na Universidade de Évora. Tudo isto, claro, sempre na área da música. Pelo meio não faltaram dezenas de aulas com vários professores por esse mundo fora e chegou até a publicar um livro, apresentado em setembro do ano passado na Biblioteca Municipal do Seixal. 

Com esta descrição já sabe de quem estamos a falar, certo? Chama-se Nuno Silva tem 50 anos e é o primeiro clarinete solista da Orquestra Metropolitana de Lisboa. No seguimento da euforia em torno do concerto de Ano Novo, que acontece já este domingo, dia 16 de janeiro, a NiS não encontrou altura melhor para colocar a conversa em dia com o músico.

Diz que esta aventura pelo mundo da música começou com apenas cinco anos. Foi aí que surgiu o gosto pela música?

Nessa altura, a minha motivação acredito que fosse mais extrínseca, ou seja, existia porque os meus amigos andavam todos na música, porque naquele tempo não havia Internet, a televisão tinha dois canais e nas pequenas aldeias ou se jogava à bola ou se ia para a música. E eu por acaso andei na música e futebol, mas depois a música falou mais alto. Mas não foi logo aos cinco anos, se calhar, que se despertou aquela paixão pela música. Era mais uma forma de estar com o pessoal da minha idade. Só mais tarde é que aconteceu. Foi mais quando fui para o Conservatório com 12/13 anos. Aí é que se começou a desenhar uma carreira, digamos assim.

Foi nesse momento que pensou que queria ser músico?

Sim, sem dúvida. E todas as minhas escolhas a partir dessa altura foram feitas em função da minha carreira.

E foi também nessa altura do Conservatório que percebeu que tinha algum potencial?

Pois, nessa altura começamos a perceber que fazemos algumas coisas que os outros não conseguem fazer ou que temos mais resultados nos concursos.

Já fez parte de que bandas ou orquestras?

Toquei em várias orquestras de jovens e de bandas do concelho do Seixal. Toquei em todas, exceto na banda de Amora, se não me engano. Toquei na Arrentela, nas duas do Seixal, em Paio Pires. Toquei em algumas no norte, bandas filarmónicas, ainda quando era estudante. Depois a nível profissional toquei em várias orquestras por esse mundo fora, mas a título efetivo sempre na minha orquestra. Já estou quase há 30 anos na Orquestra Metropolitana de Lisboa, na qual sou primeiro clarinete solista.

Quais são as suas principais referências musicais?

Existem várias pessoas que em diferentes períodos da nossa carreira e vida nos marcam por uma razão ou por outra. Os meus professores com quem estudei foram sempre e continuam a ser referências para mim. Todos eles foram muito importantes em diferentes fases da minha vida e da minha formação. Nomeadamente aquele com quem comecei a estudar na banda de Arrentela, o António Batista, porque foi ele que me deu as primeiras aulas e as primeiras motivações para continuar. Depois, no Conservatório, o António Saiote. Numa idade difícil como a adolescência, soube cultivar em mim essa vontade de continuar e fazer uma carreira da música e, depois mais tarde, em Paris o Pascal Moragues, e nos Estados Unidos da América, o Hakan Rosengren. Todas estas pessoas tiveram uma importância fundamental na minha vida e na minha carreira e dos quais hoje sou grande amigo também. E a vida é mesmo assim e hoje tenho os meus próprios alunos e tento replicar esses exemplos que tive tanto em termos humanos como musicais.

Então, também é professor?

Sim. Sou professor na Academia Nacional Superior de Orquestra, que é uma academia que está associada à Orquestra Metropolitana de Lisboa. Já sou professor há cerca de 27 anos. Também dei aulas no Conservatório Nacional durante 20 anos. Atualmente só dou aulas ao Ensino Superior e tenho vários alunos premiados a nível mundial.

Mas era professor mesmo especializado no clarinete?

Sim.

Falou da sua passagem pelo estrangeiro, porque para além da sua carreira nacional tem uma internacional. O que nos pode contar sobre a sua carreira internacional?

Atualmente, o mundo está bastante acessível, ou seja, podemos estar em qualquer parte do mundo. E através das redes sociais toda a gente sabe o que nós vamos fazendo. Sou patrocinado por três marcas internacionais, uma sediada em Nova Iorque e as outras duas em Paris. Por isso, graças a elas faço várias atividades pelo mundo inteiro, quer seja em congressos internacionais de clarinete, quer seja concertos ou masterclasses que eu dou em várias academias e escolas no mundo. Também pelo facto de ter estado lá fora desenvolvem-se conhecimentos e contactos que depois permitem manter uma carreira a esse nível. Já fiz vários discos que também vão circulando. É um bocadinho assim que funciona. Ainda há pouco tempo estive com a Orquestra Metropolitana na Polónia, onde fiz o concerto que vou fazer agora no Seixal. Depois, fui convidado para fazer lá também uma masterclass na academia em Cracóvia e já fui convidado para voltar no próximo ano a participar no festival que eles lá têm e fazer outra masterclass. É assim que funciona.

Ainda sente aquele nervosismo antes dos concertos? Como é que gere, ao fim de tantos anos, a sua presença no palco?

O nervosismo está inerente à nossa profissão. Qualquer atividade formativa tem necessariamente que ter uma carga de nervosismo, ou seja, uma certa adrenalina. Se não tivesse também não era atrativa nem interessante. Agora, faço cerca de 100 concertos por ano, o que quer dizer que, em média, é quase um concerto a cada três dias, o faz com que nós aprendamos a lidar com essa pressão e a tocar na mesma com ela. É certo que quando a pressão é castrante e não deixa as pessoas funcionarem é uma coisa negativa. Agora quando a pressão serve para tornar a performance mais atrativa, acho que é fundamental. Costumo de dizer aos meus alunos, que alguns ainda sofrem um pouco com isso, que no dia em que for para cima do palco e não tiver pressão está na altura de me reformar. Porque é fundamental. O Cristiano Ronaldo quando vai para dentro de um campo para iniciar um jogo também está nervoso de certeza. E depois com o passar dos minutos vai-se adaptando e esquece os nervos pois está focado no jogo. E com a música é exatamente igual.

A título de curiosidade, tem ao longo da sua experiência e da sua carreira alguma história engraçada que tenha acontecido mesmo em palco?

Existem várias histórias que foram acontecendo e há sempre pequenas coisas e esquecimentos. Por exemplo, na Orquestra usamos dois clarinetes: um clarinete em si bemol e um clarinete em lá. São dois instrumentos, um é ligeiramente mais comprido do que o outro e servem para tocar um reportório um pouco diferente. E, por vezes, precisamos dos dois e temos que trocar de um para o outro no meio de uma obra ou então num andamento para o outro. Então, aí há uns dois anos estava no CCB a fazer um concerto e quando acabei um andamento reparei que me tinha esquecido do outro clarinete atrás do palco. Tive de fazer um sinal ao maestro para ele esperar. Saí, fui buscar o clarinete, voltei e o público a ver aquela situação que é sempre embaraçosa. Coisas deste género acontecem muitas vezes a vários profissionais. Não tenho assim muitas histórias em cima do palco ou momentos que dão vontade de rir e a pessoa não consegue parar. Já me aconteceu num concerto de música de Câmara numa situação mais informal. Não se esqueça que um instrumentista de corda, um violinista ou um violoncelista consegue rir e tocar ao mesmo tempo, mas um músico de sopro já não pode fazer o mesmo. Mas pronto, são pequenas coisas assim. Agora em termos de carreira, de viagens há sempre muitas histórias para contar. Talvez um dia me lembre de compilar tudo num livro.

Neste momento o que seria o Nuno sem a música?

Não consigo imaginar porque quando se é músico — pelo menos é a forma como vejo — somos músicos 24 horas por dia. Estou sempre a pensar na música e mesmo em coisas que não têm nada a ver com a música no nosso dia a dia, naturalmente, faço analogias. Daí a minha tese de doutoramento, a comparação com o desporto de alta competição, aprender com as outras áreas. Por exemplo, um músico por natureza é uma pessoa mais disciplinada, porque sem disciplina não conseguiria atingir os objetivos exigidos pela carreira. E transportar isso para todas as atividades do dia a dia, para a educação dos nossos alunos, para a educação dos nossos filhos. Por vezes geramos algum conflito quando as pessoas à nossa volta não têm essa capacidade de organização, a nós choca-nos. Pelo menos a mim choca-me um bocadinho. Também o facto de ter estado no estrangeiro em situações em que tudo funciona na plenitude, as organizações, e depois chegamos cá e é muito diferente. Nós temos muitas qualidades enquanto povo, mas também alguns defeitos e a organização e a disciplina não são as nossas maiores qualidades. Percebo agora que, eventualmente, teria capacidade para explorar outras áreas, nomeadamente ao fazer a minha tese de doutoramento apercebi-me que aquela área da Neurociência me interessava bastante e que se agora voltasse a ter 15 ou 16 anos se calhar podia ir por aí. Mas também gosto de política, de relações internacionais, ou seja, qualquer área que tenha um desafio intelectual a mim desperta-me.

Em média, quantas horas toca por dia?

A partir dos 15 anos até aos 23, 24, era uma fase em que estudava muitas horas por dia, digamos que cinco ou seis horas porque não sabia estudar bem. Então estudava muito. Hoje em dia também um bocadinho pela investigação que fui fazendo para a minha tese de doutoramento, que tem a ver com este tema, consigo ter maiores resultados com menos estudos. Além do mais, a vida é mais ocupada: sou pai, tenho dois filhos, tenho muitos concertos, muitas aulas para dar. Então, sobra pouco tempo e por isso o tempo que sobra tem de ser aproveitado na plenitude para render. Atualmente, não sei, talvez dedique uma hora e meia a duas horas por dia de estudo pessoal. Depois, a ensaiar com a Orquestra temos ensaios de cinco horas por dia. Mas isto não é propriamente um estudo individual, é um ensaio de grupo — é diferente.

Os ensaios de grupo decorrem todos os dias?

Por norma, sim. Começamos a ensaiar à terça-feira ou à quarta-feira, dependendo de quando é o primeiro concerto. Os concertos são ao fim de semana ou sábado e domingo ou sexta e sábado. E ensaiamos, se o concerto for sábado e domingo, de quarta a sexta-feira, cinco horas por dia. Pelo meio, à segunda e à terça-feira temos muitas horas de aulas. É assim uma semana do músico.

Estava a dizer que é pai, tem dois filhos. Conseguiu ou fez questão de passar-lhes este gosto pela música?

Nunca fiz um esforço para isso. Nem eu nem a minha mulher, que também está na área da música, é oboísta. É, aliás, minha colega na Orquestra, australiana, toca oboé. E nem eu nem ela nos esforçámos muito para que os nossos filhos fossem músicos. No entanto demos-lhes a possibilidade de terem contacto com a música. Eles são novinhos ainda, uma tem sete, o outro tem dez mas já andaram um na guitarra, a outra no piano. Depois andaram os dois no piano. O meu filho mais velho tem ouvido absoluto, mas não tem interesse pela música e acho que é uma coisa que não se deve forçar. E então neste momento nenhum deles está a estudar música.

Em termos técnicos qual é a melhor coisa e a pior de ser músico e especificamente clarinetista?

Há várias coisas muito boas. Conhecer o mundo e várias culturas, viajar, contactar com diversas pessoas que de outra forma não conheceríamos. Por exemplo, o caso da minha mulher. Ela nasceu no outro lado do mundo, nas antípodas de Portugal. Se não fosse a música provavelmente nunca nos teríamos conhecido. Depois, é a organização mental que a música traz, a disciplina, o cálculo rápido. Essa é uma das coisas que eu falo no meu livro. Por exemplo, há uma substância que o ser humano tem no cérebro que se chama mielina, uma substância branca que envolve as sinapses nervosas chamada mielina. E o cérebro de um músico tem muito mais mielina do que a maioria das outras pessoas. Basicamente é como se tivéssemos uma Internet de banda larga, ou seja, é como se o nosso cérebro funcionasse a uma velocidade mais rápida, que nos permite raciocinar em várias situações do dia a dia, não só na música. Então isso são tudo vantagens que penso que o estudo da música nos traz. Depois, desvantagens, é quase como um atleta em que se não trabalharmos diariamente, se não nos mantivermos em forma, perdemos quase tudo. Não há aquela coisa: ‘ok, já sei, já aprendi, e agora posso descansar, posso ter fins de semana livres, estar um mês de férias sem pegar no instrumento e quando voltar está tudo bem na mesma’. Isso acabou, ou seja, não existe. Estamos sempre presentes, sempre ativos, sempre em evolução e sempre numa perspetiva de manter o que já tivemos, se não perde-se. A questão de tocar o instrumento tem a ver com uma parte muscular que é preciso manter e se não o fizermos diariamente é difícil. Por exemplo, estou num jantar com amigos e o ambiente está bom, apetece-me ficar mais tempo, mas no meu subconsciente digo: ‘amanhã tenho um ensaio e tenho de ir estudar para estar no ensaio descansado’. E acabo por sair mais cedo dessa festa para ir estudar. Estas são, provavelmente, as coisas que mais me incomodam na minha carreira, mas de certa maneira são imprescindíveis e têm de ser feitas.

Sobre o concerto que vai dar, como é que é regressar a casa neste espetáculo de Ano Novo? Está certo que já é tradição este concerto de Ano Novo, mas como é fazê-lo no Seixal?

É sempre especial tocarmos para as pessoas que conhecemos. Por vezes estamos a tocar numa sala grande como o Centro Cultural de Belém (CCB) que tem 1200 lugares, mas se nós temos alguém no público que conhecemos é como se estivéssemos a tocar só para essa pessoa porque é ela que nos conhece. Neste caso, vou tocar no Seixal. Certamente estarão na plateia várias pessoas que eu conheço e que me são próximas sejam amigos, família e é sempre especial tocar para eles. De certa maneira, é uma pressão acrescida também, porque essas pessoas esperam de nós o mundo. E, por outro lado, é bom que o Seixal não perca as tradições de fazer música e levá-la à população. O Seixal mudou muito também porque tem uma população quase internacional por causa de muitas pessoas estrangeiras que hoje em dia habitam no concelho. O que também é bom para a economia do concelho, mas também culturalmente vai trazer coisas novas e temos de ter oferta cultural também para estas pessoas, que normalmente estão habituadas a consumir cultura. Vejo esta situação com muito bons olhos, de regressar, do Seixal ter este hábito de fazer concertos e fico mesmo muito contente por poder vir ao Seixal fazer o concerto de Ano Novo e, neste caso, tocar a solo também. É um concerto de Ano Novo que damos há muitos anos com a Metropolitana no CCB e depois nas semanas a seguir fazemos um pouco por todo o País. É a primeira vez que vamos fazer agora no Seixal, esperemos que seja a primeira atuação de muitas. Estou muito satisfeito por tocar em casa.

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