Mariana Branco chegou pela primeira vez ao Avante em 2021 e nunca mais deixou de voltar. Natural de Agualva-Cacém, mas a viver desde sempre na Azambuja, cresceu a ouvir falar do festival através de amigos e conhecidos, que já eram habituais. Na altura, tinha apenas uma ideia vaga do que acontecia na Quinta da Atalaia. Mas tudo mudou quando entrou na universidade. Foi nesse momento que o Avante deixou de ser apenas uma referência distante e passou a ser parte da sua vida.
“Na primeira vez que vim, fiquei completamente deslumbrada. Percebi logo que a Festa é muito mais do que um festival de música. É um espaço onde há sempre qualquer coisa a acontecer, em cada canto, e onde sentimos que o tempo não chega para tudo”, recorda. Para Mariana, a solução era simples: “A Festa devia durar cinco dias”.
Licenciada em História e atualmente a terminar um mestrado em Estudos sobre as Mulheres, vem ao festival desde 2021, tendo acampado todos os anos, exceto este, por motivos de trabalho. Uma das coisas que mais a marcou desde o início foi a energia das pessoas. “O entusiasmo começa logo nas filas, antes de entrar. É impossível ficar indiferente quando vemos tanta gente animada, com vontade de estar ali. Esse espírito contagia-nos logo”, explicou à NiS.
Com o tempo, percebeu a dimensão do evento e a diversidade do programa. “É uma festa completa: há workshops, debates, concertos, gastronomia de todo o mundo. Portugal inteiro está representado nas bancas, mas também muitos outros países. Por isso, queremos sempre ver tudo — e é isso que nos faz regressar.”
Se tivesse de resumir o Avante numa só expressão, Mariana escolheria “espírito comunitário”. Para ela, é isso que o distingue de qualquer outro festival. “Aqui não há só música, há uma ideia de partilha, de solidariedade. É um espaço feito por voluntários e para todos.”
Em casa, as conversas também ajudaram a moldar a sua visão. O pai tinha opiniões muito diferentes das suas, e isso gerava debates em família. “A minha mãe era mais discreta, mas o meu pai gostava de discutir política. E isso acabou por me abrir espaço para refletir e, mais tarde, desenvolver a consciência crítica na faculdade.”
Hoje, Mariana é participante ativa em debates. Este ano, por exemplo, foi convidada para intervir numa conversa sobre violência contra as mulheres, onde abordou o papel das redes sociais e da pornografia como fatores que contribuem para o problema. “É um tema duro, mas necessário, e a Festa dá palco a essas discussões importantes.”
Apesar disso, não é apenas pelos debates que vem ao Avante. Os concertos também têm um peso especial. Entre todos os que já assistiu, há um que nunca esquece: o espetáculo de A Garota Não com Luca Argel, há dois anos. “Foi o melhor concerto da minha vida. Houve um momento em que apareceram no palco os nomes de mulheres assassinadas em Portugal. Foi doloroso, mas também muito corajoso. Senti que a música se transformou em um ato de memória e de luta.”
Outro dos seus espaços favoritos é o internacional gastronómico. Para Mariana, é como viajar pelo mundo, sem sair da Atalaia. “É incrível. Num momento estamos a beber uma caipirinha no espaço do Brasil e, no seguinte, já estamos no Vietname, a experimentar novos sabores e a falar com pessoas que vieram de lá. São cerca de 17 horas de voo. É um exemplo perfeito do espírito de solidariedade e partilha da Festa.”
Ainda assim, a jovem sublinha que o Avante vai muito além da logística ou da música. “O que mais me impressiona é que há sempre algo para cada pessoa. Pode ser um debate, um espetáculo, uma corrida ou simplesmente uma boa refeição. A Festa é feita dessa diversidade.”
E mesmo quando pensa que vai apenas para um concerto específico, acaba surpreendida por tudo o resto. “Foi assim com A Garota Não. Só conhecia o Luca Argel e saí de lá rendida a ambos. É isso que distingue o Avante de qualquer outro evento: vimos por uma coisa e acabamos por descobrir tantas outras.”
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