cultura

Luís Varatojo: “O Festival do Maio vai ser feito de forma exemplar”

A New in Seixal falou com o músico e diretor artístico de um dos eventos mais esperados do ano no Seixal.
O diretor artístico do festival.

Não é um nome desconhecido do panorama musical português. Na década de 80, Luís Varatojo fez parte dos Peste & Sida, uma banda que é uma referência do punk português. Alguns anos mais tarde, criou um heterónimo para a banda, que passou a chamar de Despe e Siga, e gravou três álbuns com esta designação. Fandango e A Naifa foram outros projetos em que participou já neste século. 

Agora, além do projeto Luta Livre, que serve para despertar a consciência dos portugueses, é o diretor artístico do Festival do Maio. O evento, que é um marco na cultura seixalense, conta este ano com uma segunda edição, após o cancelamento da edição do ano passado por causa da pandemia. Em 2021, os artistas que pode ver no Parque Urbano do Seixal incluem Sérgio Godinho, Slow J, Ana Tijoux e o próprio o Luís Varatojo, que vai apresentar o seu projeto.

Esta edição vai acontecer a partir das 20 horas esta sexta-feira, 28 de maio, e sábado, 29 de maio. A propósito deste acontecimento, a New in Seixal entrevistou Luís Varatojo.

A primeira edição do Festival do Maio aconteceu em 2019. Como é que surgiu a ideia de criar este espetáculo?
É um festival da Câmara Municipal do Seixal e digamos que já está numa segunda vida. Durante muitos anos, a autarquia fez um festival com mais ou menos estas caraterísticas, ou seja, ligado à música de intervenção social, mas que se chamava Cantigas do Maio, que é um nome de um disco do Zeca Afonso. Não sei quais foram os motivos, mas o facto é que interromperam esse festival e em 2019 pensaram que era bom trazê-lo de volta e chamaram-me para fazer a programação.

E porquê em maio?
Primeiro porque penso que é aquele mês que se podem começar a fazer coisas ao ar livre, porque o tempo já está normalmente mais agradável. Depois, porque é um mês simbólico por causa do festival anterior, que se chamava Cantigas do Maio. Acaba também por ser um mês simbólico, tendo em conta que é aqui que se celebra o Dia do Trabalhador.

A primeira edição foi um sucesso no concelho. O que recorda desse ano?
Foi espetacular. Recordo-me que foram duas grandes noites. Na primeira noite tivemos um concerto da Capicua, do Emir Kusturica e The No Smoking Orchestra, que vieram da Sérvia. Depois, na segunda noite, tivemos um espetáculo que tinha sido montado para as Festas de Lisboa, mas que acabou também por acontecer no Seixal, e que se chamava Canções para Revoluções. O festival esteve cheio e foi uma excelente festa.

No ano passado não houve edição. Chegou a estar planeada?
A edição já estava planeada, mas acabou por não acontecer porque foi ano de pandemia. Tínhamos as coisas programadas, mas como não houve nada de festivais não aconteceu. A programação deste ano é quase toda a que estava prevista para 2020 e penso que faz todo o sentido, até porque é o que está a acontecer com outros festivais. Ainda assim, não é possível mantermos tudo, por causa das restrições de viagem.

quiosque
O local do evento.

Este ano regressam ao Parque Urbano do Seixal. Como é estar de volta?
Nós estamos todos cheios de vontade e de pica para fazer coisas, produzir e ver pessoas. Estamos num ambiente ao ar livre, mas que é ultra agradável, porque o Parque Urbano do Seixal é uma zona verde e tem um miradouro com vista incrível sobre Lisboa. Além disso, o relvado do palco é natural, vamos ter street food e bar. Apesar de irmos cumprir as regras da Direção-Geral de Saúde, que implicam algum cuidado e distanciamento, vamos ter a oportunidade de recordar a experiência de estar num evento com mais pessoas. O pessoal está todo altamente motivado.

A logística de organizar um festival em pandemia é certamente diferente. Qual é a maior dificuldade?
Não estou propriamente ligado à produção do festival, até porque faço mais a programação, mas tenho feito questão de assistir a algumas reuniões e perceber como é que são as limitações. A primeira grande limitação é o espaço, que leva 5 mil pessoas e neste momento está reduzida a 700 ou 800 lugares. Depois, tudo o que tem a ver com os acessos e a implementação dos bares, envolve muito mais gente para produzir e assegurar que essas regras são cumpridas. Do lado dos artistas também há dificuldade porque não podemos trazer alguns artistas de fora.

Slow J e Sérgio Godinho são os cabeças de cartaz desta edição. Porquê trazer artistas tão diferentes na mesma noite?
O Sérgio Godinho continua a ser uma figura muito ativa e importante no panorama musical. A nossa intenção continua a ser representar essas vozes e tê-las no palco, mas também abrir caminho para novas propostas, tanto a nível de linguagem como da música. Aliás, tínhamos uma coisa prevista para o ano passado, que por causa de todos estes fatores não pode acontecer. Esta previsto haver mais um palco, com propostas ainda mais novas e menos conhecidas. A ideia é dar palco a todos os artistas, que tenham no seu discurso alguma marca interventiva, em várias frentes.

Em que nível?
A música de intervenção dos anos 70 era muito virada para determinadas reivindicações, que eram os problemas da altura. Agora temos não só queixas do trabalho, mas há problemas como as alterações climáticas, identidade de género e xenofobia. Queremos dar espaço a todas essas vozes que raramente têm espaço noutros festivais.

O Festival do Maio faz parte de uma lista de eventos e propostas que ajuda a dinamizar o concelho. Como é que vê a importância deste evento para o Seixal?
Eu vou acompanhando a comunicação da Câmara Municipal do Seixal, apesar de não viver cá, e pelo que tenho visto está muito dinâmico em termos culturais, como o Festival de Jazz, por exemplo. É dos concelhos onde eu vejo maior dinamismo cultural e não só. A Baía do Seixal está linda e há coisas novas a aparecer. Em relação ao Festival do Maio, traz espetáculos ao concelho e pela forma como vai ser organizado sei que vai ser ótimo.

A organização de um evento deste tipo será escrutinada. Quais são as expetativas para o festival?
Tem uma organização ultra responsável, não tem nada a ver com outros acontecimentos que temos visto aí ultimamente. Acho que vai ser um bom evento. Aliás, até recebemos um pedido da Câmara Municipal de Serpa, porque vai também organizar um festival no mês de junho, e querem perceber como vamos organizar. O Festival do Maio vai ser feito de forma exemplar. Se tivermos cobertura mediática, como fizeram com a Festa do Avante, e correr bem, vai ser um bom exemplo para outras autarquias. Correndo bem pode ser um empurrão para que se organizem mais coisas.

Luís Varatojo também vai atuar.

MAIS HISTÓRIAS DO SEIXAL

AGENDA