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“Lamento de uma América em Ruínas”: o novo super filme da Netflix

Amy Adams e Glenn Close são duas das principais protagonistas desta produção realizada por Ron Howard.
O filme tem 1h56 de duração.

“Hillbilly Elegy” foi publicado em junho de 2016. É um livro de memórias que conta a história de vida, explicada pelo próprio, de J.D. Vance — um promissor estudante de Direito em Yale que vinha de uma família de classes baixas da América profunda, no Kentucky.

A obra tornou-se imensamente popular nos Estados Unidos da América quando, alguns meses depois, Donald Trump foi eleito presidente. O livro de J.D. Vance foi usado como exemplo para perceber o contexto e a mentalidade que levaram a que tantas famílias brancas das classes baixas dos estados interiores e rurais do país votassem num milionário das elites e figura social inexperiente para ser presidente.

Foi assim que “Hillbilly Elegy” se tornou um bestseller nos EUA e acabou por ir parar às mãos de Ron Howard, cineasta prolífico conhecido por “Uma Mente Brilhante” ou “Apollo 13”, que resolveu adaptar a história ao cinema. Curiosamente, o filme chega só depois de Joe Biden ganhar as eleições presidenciais — estreou na Netflix esta terça-feira, 24 de novembro.

Em “Lamento de uma América em Ruínas” — a tradução portuguesa do novo filme — acompanhamos então a vida de J.D. Vance, tanto na sua infância, no final dos anos 90, como nos tempos de faculdade (sendo que também chegou a estar alistado nos fuzileiros). A narrativa vai andando para a frente e para trás.

J.D. (Gabriel Basso) é um peixe fora de água nesta faculdade da Ivy League, sobretudo frequentada por elites sociais e económicas. Tenta adaptar-se à sua nova vida quando é chamado de volta a casa, no Ohio, quando a sua mãe sofre uma overdose de heroína.

Bev (interpretada por Amy Adams) é uma pessoa instável, negligente, toxicodependente, que tanto pode ter um momento calmo e empático como a seguir um ataque impulsivo de fúria. Para equilibrar as coisas, J.D. sempre se sentiu próximo da avó, Bonnie (Glenn Close), a quem o protagonista chama carinhosamente Mamaw.

Bonnie é dura, faz ameaças e está constantemente a dizer palavrões, mas ao mesmo tempo vai dando conselhos sábios (ainda que simples) e ajudando J.D. a lidar com os vários problemas. Foi neste contexto que J.D. cresceu, e foi também dele que se livrou de alguma forma quando conseguiu ir estudar para Yale.

O livro nunca se quis focar na política, mas acabou por fazer um retrato na primeira mão da classe trabalhadora americana branca — por alguém que já estava com um pé de fora (J.D. trabalha agora na área das finanças) mas que conhecia bem aquela realidade.

J.D. Vance acaba por dizer que alguns dos traços que caracterizam estas comunidades — desconfiança em relação aos outros, resistência à autoridade ou devoção à família — fazem com que seja difícil lidarem com a sociedade moderna americana.

Se é indiscutível que o tema é relevante por diversas questões, a crítica especializada tem apontado muitas falhas a este filme — sobretudo tendo em conta o material que deu origem à produção e aquilo que podia ter sido feito.

Amy Adams e Glenn Close, atrizes que já provaram vezes sem conta que são talentosas, são descritas por vários meios de comunicação social americanos como fazendo aqui papéis de cartoons — são caricaturas daqueles estereótipos e não atrizes a realmente encarnarem aquelas pessoas. Mesmo que a sua caracterização seja notável.

Em simultâneo, muitos críticos dizem que o filme é condescendente com estas pessoas, mesmo que também as tente homenagear de alguma forma. Os Vance são apresentados como uma família representativa — mas isso talvez seja simplificar demasiado todo o contexto que aqui é retratado.

Além dos três principais protagonistas, o elenco inclui Haley Bennett, Freida Pinto, Bo Hopkins, Owen Asztalos, Jesse C. Boyd, Stephen Kunken, Keong Sim e Morgan Gao, entre outros.

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