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“La Casa de Papel” tornou o ator Jaime Lorente mais rancoroso, infeliz e anti-social

Precisou de fazer terapia para lidar com o fenómeno mundial da série que agora chega ao fim. Pelo caminho, aventurou-se na música.
Sim, Denver agora também canta

“Abri a porta do carro, os seguranças agarraram-me pelos sovacos e levaram-me pelo ar”, recorda Jaime Lorente (Denver) do momento em que finalmente percebeu a explosão do fenómeno de “La Casa de Papel”. Tinha chegado mais tarde do que os colegas de elenco a um evento da Netflix em Roma e no exterior do edifício, milhares de fãs aguardavam pela chegada de Denver.

O cenário começou a ser recorrente. Perseguidos pelas ruas, nem nos iates privados estavam descansados. “Quando parávamos, saltavam para a água e vinham a nado ter connosco. Chegámos a ficar fechados dentro de um restaurante à espera que a polícia nos viesse ajudar a sair”, conta o parceiro de elenco, Miguel Herrán, em entrevista ao “El País”.

Quatro anos depois da estreia na Netflix, a série prepara-se finalmente para o derradeiro capítulo. Os últimos cinco episódios chegam à plataforma a 3 de dezembro, naquele que será o aguardado encerrar da história do maior assalto do século. Entre os sobreviventes está Denver, um favorito dos fãs e ator que viu a sua carreira passar do oito ao oitenta num ápice.

Foram quatro anos intensos. Tão intensos que apesar de toda a diversão, deixaram as suas marcas. “Passei dez episódios a levar tiros. Três semanas a gravar uma cena numa cozinha que terá apenas três a cinco minutos. Todos os dias o mesmo”, explica. “A minha personagem passa por coisas mais duras do que qualquer outra. Cenas emocionais, fisicamente complicadas, uma guerra. Chegava ao ponto em que me levantava e ouvia: ‘Outra vez. Outra vez.’”

As infindáveis cenas de ação, além de cansativas, provocavam dúvidas na cabeça dos atores, que sentiam que não estavam a usar devidamente as suas aptidões para a interpretação. “Há dias em que não te sentes um ator (…) Chega a um ponto em que estás vazio.”

Nem as armas e explosões tornavam a fadiga mais suportável. “O pó mete-se nos olhos, tosses, o tipo dos efeitos passa-se e explode-te algo na cara”, recorda. “Por vezes vais com medo (…) é perigoso.”

Chegados ao final de “La Casa de Papel” e sem revelar o que estará por vir, Lorente deixa uma pista para o fim perfeito. “É preciso voltar à essência das personagens, que foi por causa delas que inicialmente as pessoas se apaixonaram. A guerra veio depois.”

Numa outra vida, Lorente era apenas um miúdo com más notas. Por sorte, encontrou nos professores os melhores cúmplices. “Sempre fui um péssimo estudante, mas sempre me senti protegido pelos professores. Confiavam em mim, mesmo que as minhas notas não fossem boas. E foi graças a uma professora, que me incentivou a tirar o curso de artes, que acabei por estudar teatro.”

Foi no teatro que cumpriu os primeiros anos da carreira, já a morar em Madrid, até aceitar um convite para uma série televisiva, “El Secreto de Puente Viejo”. Um ano depois estava a ser escolhido para o elenco de “La Casa de Papel” e passava de perfeito desconhecido a estrela da televisão, em Espanha e no resto do mundo.

O medidor moderno de fama que é o Instagram não mentia: o número de seguidores crescia exponencialmente. O gatilho foi a chegada da série à Netflix, depois de vários meses sem grande sucesso doméstico, apesar de exibida na Antena 3.

“Estava uma noite em Múrcia, no bar de um amigo onde costumamos comer e beber durante todo o dia. E um amigo meu viciado nas redes sociais perguntou-me porque é que de repente passara de mil para 10 mil seguidores”, recorda. “A partir daí foi sempre a subir de dez em dez mil.” Quatro anos depois, os 14 milhões que o acompanham colocam-no no top 20 dos espanhóis mais populares na rede social. Mesmo que continue a olhar para ela como uma ferramenta de trabalho e raramente publique fotos pessoais.

Menos controlável era a caixa de mensagens, que começou a encher-se de imagens e propostas indecentes. Chegou mesmo a vir a público pedir contenção aos fãs por se sentir “super violado”. “Fui criticado por dizê-lo, mas era como me sentia. Recebia muitas mensagens privadas e inicialmente até respondia, mas depois comecei a receber imagens de gente nua, a tocarem-se. Eu não tenho que ver isso”, conta. “E também não tenho que ouvir os meus colegas a dizerem ‘que sorte tens’. Já nem sequer vejo mensagens, irrita-me.”

A fama súbita não teve o efeito que pretendia. Ou melhor, trouxe consigo todos os lados positivos e negativos que se esperavam. Se alguns dos seus colegas encontraram a felicidade no reconhecimento, não foi bem esse o caso com Lorente.

“A minha vida deu uma volta de 180 graus e tornou-se um caos. Aconteceu tudo muito rapidamente e ninguém te ensina a lidar com isso.” Acabou por procurar ajuda profissional e fez terapia para tentar enfrentar a fama sem perder o juízo.

“Antes, era incapaz de recusar tirar uma fotografia quando me abordavam na rua. Aprendi que devia dizer não, porque quando consentia, sofria. Uma simples foto e passava meia-hora amargurado”, conta. “Percebo que estou na sala de estar de muita gente, por vezes na cama, e que acabo por ser tão familiar a tanta gente, mas se não crio a minha bolha, não sobrevivo a isto. Ao fim de contas, trata-se apenas de uma pessoa respeitar-se a si própria.”

A pandemia e o confinamento trouxe uma nova realidade. Se Lorente aproveitou o tempo para lançar um livro de poemas (“A Proposito de tu Boca”), também aproveitou para conversar com os fãs sobre as suas depressões e ansiedades.

“O êxito é muito mais difícil de gerir do que o fracasso. Podes esquecer e deixar para trás o fracasso, mas não te consegues livrar do êxito nem com aguarrás.”

Que Jaime Lorente não seja mal-interpretado: está longe de não querer trabalhar, ser visto e potenciar a fama. Até por isso viu o seu papel de Denver catapultá-lo para papéis antes impensáveis. Fez parte do elenco de “Todos lo Saben”, de Asghar Farhadi, ao lado de Penélope Cruz e Javier Bardem, e foi escolhido para ser protagonista da mais cara e maior produção espanhola da história, “Cid”, produzida pela Amazon.

Lançada em dezembro de 2020 e já com duas temporadas produzidas, coloca Lorente no papel de Rodrigo Díaz de Vivar, nobre lutador que foi uma das figuras mais importantes da reconquista cristã da Península Ibérica aos mouros. Foi um sucesso em Espanha e, por várias semanas, destronou do top séries como “Stranger Things” ou “The Mandalorian”.

Mais improvável ainda, Lorente lançou-se em 2020 como cantor com o tema “Corazón”. Seguiu-se “Acércate” e, nos últimos meses, voltou ao ataque com “Saturday” e “Sra. Smit”, num estilo que vai do tradicional cantor romântico de voz áspera à mescla entre um hip-hop e eletrónica dançável. Nos vídeos, a estrela é, como não podia deixar de ser, o próprio.

Numa carreira moldada pelo êxito de uma série fenómeno, contam-se já vários projetos de monta. Foi igualmente protagonista de “Elite” e está já a preparar outra passagem pelo cinema. Será o protagonista de “42 Segundos”, um filme que o coloca no papel de Pedro García Aguado, atleta de polo aquático com um grave problema de drogas e álcool, mas que ainda assim se torna no herói da seleção espanhola nos míticos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992.

Apesar da fama mundial, Lorente parece estar confinado às produções espanholas. Não é por falta de convites, é mesmo por opção própria. “Fazemos coisas bestiais, vivemos num país bestial e agora temos muita responsabilidade. O meu país deu-me muito”, explica ao “El País”. “Não me quero ir embora. Por que haveria de o fazer?”

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