Criar uma personagem de videojogo, animá-la ou até desenhar uma roupa para usar dentro de um jogo pode parecer complicado para quem nunca entrou neste mundo. No Seixal, Lucas Araújo quer mostrar que não tem de ser assim. Freelancer na área do 3D, animação e conteúdos para videojogos, começou recentemente a dar aulas para diferentes idades e níveis de experiência. As sessões podem ser presenciais, na zona da Arrentela, ou online e são adaptadas ao que cada aluno quer aprender, seja criar em 3D, fazer animações ou desenvolver personagens, roupas e outros conteúdos para plataformas como o Roblox.
A ideia surgiu quase por acaso, depois de um miúdo lhe pedir ajuda para aprender a fazer aquilo que já fazia profissionalmente. Desde então, chegaram alunos com objetivos muito diferentes, de jovens interessados em criar personagens e conteúdos para o Roblox a um homem de 62 anos que decidiu aprender 3D depois de se reformar, para se manter ativo e descobrir algo novo.
A primeira experiência aconteceu quando um amigo lhe apresentou um rapaz de 15 anos interessado no mundo dos videojogos. Lucas aceitou o desafio, apesar de nunca ter ensinado, e percebeu que podia partilhar os conhecimentos que tinha adquirido ao longo da carreira. Pouco depois chegou outro aluno, desta vez interessado em animação 3D. O objetivo era criar uma cadeira através do Blender, um programa gratuito usado para modelação e animação 3D. A partir daí, começaram a aparecer outras pessoas e as aulas adaptaram-se a diferentes idades, objetivos e ritmos de aprendizagem.
Um dos casos que mais o desafiou foi o de um rapaz com necessidades especiais, que tinha dificuldade em acompanhar a estrutura habitual de um curso. Para adaptar as sessões às suas necessidades, a mãe passou também a acompanhar as aulas. “São aulas que dão mesmo para toda a gente, todas as idades”, explica o brasileiro de 30 anos.
Não existe um programa igual para todos. Antes das primeiras sessões, Lucas faz uma conversa de cerca de 30 minutos para perceber o que cada aluno quer aprender e como o pode ajudar. A partir daí, prepara as aulas de acordo com esses objetivos.
O formato principal é um pack de quatro aulas, com uma hora cada, por 80€. Também é possível fazer uma aula experimental por 20€. As possibilidades vão do desenho mais básico à criação de uma animação de 30 segundos. Há quem queira aprender a criar em 3D, desenvolver uma personagem própria ou produzir conteúdos para publicar nas redes sociais. Quem estiver mais interessado em videojogos pode aprender a criar personagens, roupas e outros elementos digitais para plataformas como o Roblox.
Esta ligação entre criatividade, tecnologia e videojogos acompanha Lucas desde miúdo, embora chegar profissionalmente a esta área tenha demorado alguns anos. Muito antes de trabalhar com 3D e videojogos, já passava grande parte do tempo a desenhar. A paixão surgiu em miúdo, muito por influência da avó, que gostava de pintar e o incentivava a criar as próprias histórias. “A minha avó sempre gostou de pintar. ‘Vem pintar comigo, vem desenhar comigo’”, recorda. Em casa havia quadros, pinturas e desenhos e começou também a criar bandas desenhadas. “Eu gostava muito de escrever as minhas próprias histórias e de criar as minhas bandas desenhadas”, conta o jovem brasileiro.
Os videojogos também começaram cedo. Apaixonado por futebol, cresceu a jogar FIFA e chegou a imaginar que um dia poderia trabalhar na empresa responsável pelo jogo. “Queria trabalhar com o FIFA, só que essa ideia, para mim, que estava no Brasil, era algo muito distante”, admite.
Nascido e criado em Goiânia, Lucas sentia que as oportunidades para seguir uma carreira ligada ao desenho eram limitadas. “Se eu fosse agricultor, eu estaria no lugar certo”, conta. Portugal surgiu como alternativa pela língua e pela vontade de conhecer a Europa. “Primeiro porque eu falo português, então era mais fácil essa conexão”, explica. Veio para estudar durante um ano, mas a chegada coincidiu com a pandemia e acabou por procurar formas de trabalhar a partir de casa.
Depois de começar a construir um portefólio, em 2020 conseguiu uma oportunidade na Ritmos Urbanos, uma agência que trabalhava com marcas como a EDP e a Bimby. Ainda não dominava algumas das técnicas necessárias, mas aprendeu através de vídeos e tutoriais no YouTube. “Eu não sabia fazer nada disso. Mas disse-lhes que sabia como é se fazia tudo, eu não podia perder aquele emprego”, admite.
A experiência deu-lhe confiança para tentar entrar na indústria dos videojogos. Depois de apostar no concept art sem conseguir resultados, virou-se para o motion graphics. Em 2021 mudou-se com a companheira para a Polónia, onde acabou por conseguir trabalhar na área. “Consegui conquistar o objetivo que eu sempre quis, que era trabalhar em alguma empresa de jogos. Eu estava a fazer algo que eu nunca imaginei, foi incrível”, conta à New in Seixal.
A adaptação ao país foi mais difícil e o futebol ajudou-o a criar amizades. Mais tarde, o frio, o céu cinzento e a vontade de experimentar uma nova fase profissional acabaram por levá-lo de volta a Portugal.
De volta ao País, continuou ligado aos videojogos. Na empresa, The Gang, onde trabalhou até junho deste ano, integrou uma equipa dedicada à criação de jogos para o Roblox e trabalhou com várias marcas. Uma delas foi precisamente a FIFA.
A empresa desenvolveu um jogo de futebol dentro do Roblox e Lucas ficou responsável por parte dos conteúdos visuais usados na promoção. O processo começava muitas vezes no concept art, passava pela modelação em 3D e podia terminar com imagens ou vídeos para divulgar o jogo. Para quem tinha crescido a imaginar um futuro ligado ao famoso jogo de futebol, era um momento especial.
Hoje trabalha como freelancer e continua a colaborar com diferentes empresas, sobretudo ligadas ao Roblox. Cria imagens, conteúdos promocionais, animações e outros elementos visuais para jogos que estão a ser lançados ou para marcas que querem entrar na plataforma.
Foi também nesta fase mais independente que decidiu apostar nas aulas. Para Lucas, não se trata apenas de ensinar ferramentas ou programas, mas de ajudar cada aluno a transformar uma ideia num projeto concreto. Por isso, as aulas começam sempre pelo que desperta a curiosidade de quem está do outro lado.
Também continua a aprender. Além das formações que fez ao longo dos anos, completou um curso online de animação e mantém a aprendizagem autónoma como parte do trabalho.
Apesar de já ter concretizado uma parte importante do sonho que começou em Goiânia, ainda lhe falta um objetivo. Depois de trabalhar com a FIFA dentro do Roblox, quer chegar ao jogo de futebol que conheceu na infância. Já enviou vários currículos e falou com pessoas da empresa, mas continua à espera da oportunidade. “Eu vou trabalhar lá, só não sei quando”, garante. A ideia é passar alguns meses numa empresa dedicada a um jogo de futebol já existente. “É o último ‘check’ que falta”, diz.







