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“Don’t Worry Darling”: o novo filme de Harry Styles não é perfeito, mas vale a pena

O thriller estreia agora nos cinemas portugueses. Junta ainda Florence Pugh, Olivia Wilde e Chris Pine. Leia a crítica da NiT.
Florence Pugh é a grande protagonista.

Foi um dos filmes mais falados do verão. Depois do circuito dos festivais de cinema, “Don’t Worry Darling” (“Não te Preocupes Querida”, em português) estreia nas salas portuguesas esta quinta-feira, 22 de setembro. O hype, muito motivado pela cultura de celebridades, é compreensível. 

Afinal, é uma produção realizada por Olivia Wilde, uma atriz famosa, que passou a namorar com o ator Harry Styles após as filmagens. Styles está num ótimo momento de forma enquanto músico, e a criar uma carreira de valor na representação. Outros nomes célebres estão no elenco, como Florence Pugh e Chris Pine

Depois, houve todos os alegados desentendimentos que, na maioria, não deverão passar de rumores: as conversas sobre a saída de Shia LaBeouf e consequente substituição por Harry Styles; o alegado desentendimento entre Pugh e Wilde; o boato de que Styles cuspiu em Chris Pine em pleno Festival de Cinema de Veneza. Por tudo isto, tem sido um filme bastante aguardado e discutido. O que mais interessa, porém, é aquilo que se vê no ecrã — e a NiT já assistiu a “Don’t Worry Darling”.

Esta é a história de Alice (Florence Pugh) e Jack (Harry Styles). Vivem numa remota comunidade idílica, naquilo que parecem ser os anos 50 ou 60 da América. Embrenhados numa rotina, os homens daquela cidade vestem os seus fatos aprumados todas as manhãs, despedem-se das mulheres com um beijo e rumam ao trabalho nos seus elegantes carros coloridos. 

O que fazem eles? Ninguém sabe, pois trabalham num projeto ultra secreto relacionado com “materiais progressivos”, que é a base daquela comunidade fundada por Frank (Chris Pine), a que chamam o Projeto Vitória. Frank é uma espécie de guru espiritual, o líder (supostamente carismático) que teve a visão de criar aquela sociedade melhor, e que todos admiram.

As mulheres passam os dias a arrumar e limpar a casa, a conviver umas com as outras enquanto tomam cocktails, e ocasionalmente apanham o transporte que as leva ao centro comercial daquela comunidade — ou às aulas de dança que são orientadas pela mulher de Frank, Shelley (Gemma Chan).

Ao final do dia, as mulheres recebem os homens em casa com o jantar feito, a casa impecável, um copo de whisky na mão e a abertura para ter relações sexuais. Todo este modo de vida, claro, condiz com os conservadores anos 50 ou 60 dos EUA.

As coisas começam a mudar, porém, quando Alice questiona o seu mundo. Tudo por causa do comportamento errático de outra esposa do Projeto Vitória, Margaret (KiKi Layne), que era amiga de todas as mulheres. Isso leva a que o seu marido seja despedido do emprego e que ambos tenham de abandonar a comunidade. É precisamente essa sucessão de acontecimentos que irá espoletar a reflexão de Alice.

Como é que chegaram ali? Porque é que não podem sair das zonas autorizadas? De onde vêm os alimentos com que todos os dias preparam o jantar? É um avião que aparentemente se despenha numa área fora de limites que leva Alice a quebrar as regras e a entrar numa espiral de caos. Todos duvidam da sua sanidade mental, a própria Alice começa a ter visões perturbadoras e a sentir-se sufocada. Aos poucos, vai confrontar a comunidade — e o próprio Frank — para chegar à verdade e conseguir libertar-se.

Não podemos revelar muito mais sem desvendar os segredos da narrativa. Mas é óbvio que, naquela comunidade, nada é o que parece — e toda a existência será posta em causa. Acima de tudo, “Don’t Worry Darling” é um thriller distópico. Poderia muito bem ser um episódio de “Black Mirror” com mais desenvolvimento. É uma espécie de “Get Out” (não tão bom ou original) em que o foco não está no racismo, mas na opressão de género. Numa jornada feminista, Alice vai tentar libertar-se das amarras patriarcais que a aprisionaram ali de alguma forma.

Depois de ter brilhado em “Midsommar”, Florence Pugh volta a provar que é uma excelente atriz em “Don’t Worry Darling”. Há pontos em comum: mesmo que em escalas diferentes, são ambos filmes algo perturbadores; a protagonista tem de enfrentar diversos perigos em ambos; a banda sonora arrepiante é essencial para criar as sensações desejadas no espectador. E é Florence Pugh a grande estrela, apesar de Harry Styles e restante elenco cumprirem bem os seus papéis.

A direção de fotografia, a estética das cores, os efeitos e a montagem, tudo isso está no ponto certo. Contudo, ficam questões por responder em relação a alguns detalhes do enredo, e sente-se a falta de uma maior coesão. A partir de certo ponto, deixa de surpreender. Não aprofunda tanto algumas questões como deveria. Também não é imensamente original, no sentido em que navega por fórmulas e temas já testados. E o filme merecia um final melhor e mais conclusivo.

Apesar de não ser perfeito, “Don’t Worry Darling” cumpre, no geral, aquilo a que se propõe — embora talvez o próprio filme acredite ser melhor do que na verdade é. 

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