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Da miséria em Paris ao luxo de Hollywood: a vida de Omar Sy, de “Amigos Improváveis”

O ator francês é o protagonista de uma nova série da Netflix, mas podia ter sido apenas um técnico de ares condicionados.
O filme estreou há 10 anos.

Nos subúrbios a oeste de Paris, a pouco mais de 25 quilómetros do centro da capital francesa, fica o bairro de Trappes. É, como tantos outros, um subúrbio multicultural, com décadas de pobreza — que, por consequência, leva ao crime e também à segregação.

Podia ter sido este, ou outro qualquer do género, o bairro retratado no aclamado filme “O Ódio”, de 1995. Ou também podia ter sido o palco do bastante exagerado (mas divertido) “Os Gangs do Bairro 13”, outro filme francês focado nos subúrbios de Paris e na relação tensa com o grande centro urbano.

Trappes tem vários problemas relacionados com a criminalidade — e foi um dos principais pólos de recrutamento do Estado Islâmico em França nos últimos anos. Foi também o bairro onde o ator Omar Sy cresceu, rodeado de culturas, cheiros e texturas diferentes, naquilo que sempre descreveu como uma infância feliz.

“Indo de apartamento em apartamento no prédio onde cresci, viajei pelo mundo. Havia de tudo, todas as línguas, todos os cheiros, todas as cores… É a minha França, aquela da minha infância, e é por isso que tenho a abertura que tenho hoje”, disse numa entrevista à “Clique”.

Hoje em dia, é um dos mais famosos atores franceses em todo o mundo. Omar Sy tem 42 anos e em 2021 celebra-se uma década desde que estreou o filme que catapultou a sua carreira. Falamos, claro, de “Amigos Improváveis”, realizado por Olivier Nakache e Éric Toledano. Sy interpreta um jovem cuidador, contratado após sair da prisão, que deixa outro bairro do género para ir para uma casa das elites de Paris tomar conta do seu novo patrão milionário tetraplégico.

O papel valeu-lhe o prémio de Melhor Ator nos prémios César, os mais importantes do cinema francês, ainda por cima no mesmo ano em que saiu “O Artista”, filme do mesmo país que chegaria a levar para casa a estatueta dourada de Melhor Filme nos Óscares — sendo que Omar Sy bateu o protagonista de “O Artista”, Jean Dujardin, nos César.

Na altura foi visto por mais de 49 milhões de pessoas. Foi o filme mais visto do ano em França, mas também se tornou um enorme sucesso noutros territórios europeus — e não só. Em Portugal, vendeu mais de 145 mil bilhetes em cinco semanas. Os leitores da NiT consideraram-no recentemente como o melhor filme do século (até agora).

Esta sexta-feira, 8 de janeiro, estreou na Netflix mais um motivo para falarmos de Omar Sy. O ator é o protagonista da nova série francesa da plataforma, “Lupin”, onde interpreta um criminoso cavalheiro em busca de vingança por uma injustiça cometida por uma família rica em relação ao seu pai. Conta com sete episódios.

Dos jogos de futebol onde deixava todos a rir até à rádio (onde era pago para isso)

Nascido em 1978, Omar Sy cresceu numa família humilde de oito irmãos. A mãe era uma governanta da Mauritânia, o pai vinha de uma família senegalesa de tecelões e chegou a França com o objetivo de fazer algum dinheiro antes de regressar ao seu país, onde queria abrir uma loja. Mas, como em tantos outros casos, a família acabou por ficar pelos arredores de Paris, onde nasceram a maioria dos filhos. O pai trabalhou na indústria automóvel.

Omar Sy sempre foi um brincalhão bem-humorado na escola e com os amigos. Adorava jogar futebol — como qualquer jovem francês — e um dos seus melhores amigos de juventude, que também nasceu e cresceu em Trappes, é o famoso futebolista Nicolas Anelka, com quem partilhou muitos jogos. Apesar de não jogar muito bem, Omar muitas vezes era escolhido para as equipas porque os outros miúdos adoravam as suas piadas e boa disposição. Deixava todos a rir às gargalhadas.

“Eu nunca previ que me ia tornar um comediante, mas era algo que me aparecia tão naturalmente. Simplesmente sentia-me bem a fazê-lo”, disse Omar Sy numa entrevista.

Terá sido outro amigo do bairro, ligeiramente mais velho, o atualmente famoso comediante e ator Jamel Debbouze, quem reconheceu pela primeira vez o talento do jovem Omar para o humor. Alguns anos depois, quando Debbouze trabalhava na Radio Nova, lembrou-se do miúdo engraçado com quem costumava jogar à bola na adolescência e chamou-o para um sketch — porque a pessoa que os habitualmente fazia precisava de ser substituído naquele dia.

Omar Sy aproveitou a oportunidade e interpretou um futebolista do Senegal transformado em agricultor. O diretor da rádio gostou do que ouviu e convidou-o a participar regularmente no programa — Sy fazia sobretudo chamadas falsas em que interpretava personagens. Foi assim que começou a sua carreira no entretenimento e arte, em 1996, quando tinha 18 anos.

Se não tivesse sido chamado naquele dia por Jamel Debbouze, provavelmente teria tido uma vida muito diferente. Omar Sy estava a fazer um bacharelato na área da tecnologia e tinha um objetivo pragmático bem traçado.

“Quando cresces como eu, tens que ganhar a vida rapidamente”, contou ao “Le Monde”. “O bacharelato que fiz sobre aquecimento e ares condicionados foi uma escolha estratégica. Como todos tentavam entrar em engenharia elétrica, procurei algo menos popular. Disse a mim próprio que, mesmo que algum dia houvesse problemas [e não encontrasse emprego], poderia ir trabalhar para o Senegal.”

Omar Sy tem dito ao longo da vida que o facto de ser de um bairro como Trappes era mal visto — e fazia com que tivesse menos oportunidades do que outros jovens franceses. E tem explicado que essas duas realidades que existem em França são muito diferentes.

“Há duas Franças que existem lado a lado. Para mim, foi só quando comecei a trabalhar que vi a outra França, que ouvi outras maneiras de falar. Nós sabíamos que existia, mas nunca a tínhamos visto. As pessoas olham para ti e dizem ‘tu és preto e és do bairro’, e as portas estão fechadas. Eu tinha o desejo de ser outra coisa. Por isso, quando vejo que há uma porta um bocadinho aberta, vou encontrar uma maneira de a atravessar.”

E acrescentou ainda: “Eu percebi desde muito cedo que a escola era importante e que os meus pais estavam a fazer grandes sacrifícios por mim. Todas as manhãs via o meu pai levantar-se e ir para um emprego de que ele não gostava. Eles vieram para França pelas mesmas razões que todos os imigrantes se mudam para outro país — para que os filhos possam ter uma melhor vida.”

Dos sketches humorísticos à carreira de ator

Foi nos corredores da Radio Nova que conheceu Fred Testot, que viria a tornar-se o seu parceiro durante muitos anos na área da comédia. Tiveram uma química imediata e começaram a escrever sketches juntos, até se tornarem oficialmente uma dupla. Pouco tempo depois, são convidados para participar regularmente no programa de Debbouze na televisão, feito em Cannes. Lá, dividia um quarto, uma scooter e um salário com Fred Testot.

Omar Sy estava no último ano do bacharelado, mas a certa altura tornou-se impossível de conciliar o curso com o trabalho. Assim, nunca conseguiu acabar os estudos, para desilusão dos pais. Nesse momento, decidiu-se a apostar definitivamente na carreira como comediante — e Omar Sy já contou por várias vezes que os pais só ficaram satisfeitos e confiantes com a escolha do filho depois do sucesso de “Amigos Improváveis”.

Com Fred Testot, continua a fazer sketches até terem o próprio programa na televisão. Mais tarde, começam a fazer espetáculos ao vivo. Com o reconhecimento, chegam novas oportunidades. Ambos estrearam-se no cinema em 2001, com dois pequenos papéis em “La Tour Montparnasse Infernale”.

Depois, foi conseguindo participar noutras comédias francesas, como é o caso de “Le Raid”, “Samouraïs” e “Le Carton”. Em 2006, estreou o primeiro filme em que trabalhou com Eric Toledano e Olivier Nakache, “Nos Jours Heureux”, que foi um relativo sucesso em França. Foi também por volta dessa altura que conheceu a futura mulher, Hélène, amiga de um amigo de Omar Sy. Casaram-se em 2007 e atualmente têm cinco filhos.

Omar e Hélène Sy na estreia de “Inferno”, em 2016.

Ao longo desta década, vai-se afirmando como um ator mais conhecido em França — sempre como autodidata, a trabalhar por instinto puro, tendo em conta que nunca estudou representação — até tudo mudar em 2011.

O sucesso de “Amigos Improváveis” e a chegada a Hollywood

“Amigos Improváveis” é, sem dúvida, o filme que mudou a vida de Omar Sy. Foi o seu primeiro papel de protagonista e foi com ele que chegou a milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, valendo-lhe o reconhecimento internacional e a hipótese de trabalhar em Hollywood. Omar Sy agarrou a oportunidade e começou a somar participações em filmes americanos nos anos que se seguiram.

É o caso de “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido”, “A Decisão Mortal”, “Mundo Jurássico”, “À Procura de uma Estrela”, “Inferno”, “Transformers: O Último Cavaleiro” e “O Apelo Selvagem”, alguns dos quais são grandes blockbusters, pertencentes a sagas icónicas do cinema. 

A carreira internacional solidificou-se e em 2016 comprou uma pequena mansão em Los Angeles, para onde se mudou com a família — apesar de também passarem bastante tempo em França. Em 2018 essa casa foi posta à venda, mas Omar Sy continua a viver e a trabalhar nos dois lados do oceano. 

Nesta década que terminou em dezembro o ator também aprendeu inglês, língua que antes de “Amigos Improváveis” não dominava. Atualmente, a família Sy tem uma casa noutro subúrbio de Paris, numa zona mais rural e sossegada perto de Montfort-l’Amaury, onde o ator tem uma pequena horta no terreno. O objetivo? Omar Sy nunca o escondeu. “Hollywood é o Grand Prix” na área da representação, como já disse. Mas ainda assim quer continuar sempre a trabalhar no seu país, França.

No capítulo de “X-Men” em que participou.

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