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Daniel: o concorrente do “The Voice” que canta ópera e quer ser presidente da Junta

Tem 22 anos, estuda Filosofia, trabalha num restaurante, canta em funerais e vive com a avó e as tias. O seu estilo? Canto lírico.
Daniel Fernandes interpretou “O Amor a Portugal”.

Daniel Fernandes, João Leote, Francisca Oliveira, Mariana Rocha, Edmundo Inácio, Rodrigo Lourenço, Maria Inês Graça e João Neves. O próximo vencedor de “The Voice Portugal” está nesta lista de nomes. São os concorrentes que foram apurados para a gala da semifinal, que é transmitida em direto no próximo domingo, 16 de janeiro. Uma semana depois, acontece a final.

Um dos concorrentes que mais se têm destacado é Daniel Fernandes. O jovem de 22 anos, oriundo de Amares, no distrito de Braga, canta ópera. O último tema que interpretou no “The Voice” foi uma versão de canto lírico de “O Amor a Portugal”, de Dulce Pontes e Ennio Morricone.

Daniel Fernandes, que está na equipa de Diogo Piçarra, foi um dos concorrentes que garantiram um lugar na semifinal através do voto do público. “Um pessoa chega a um ponto em que parece já não haver muitas palavras para descrever isto. Por um lado, fiquei muito feliz por o público ter votado e eu ter passado logo à semifinal. Por outro, também fiquei triste por deixar os Aliança Velha e o Matheus Alcantara, que já tínhamos uma relação de amizade”, explica o cantor à NiT.

Outro momento especial desta última gala é que a produção decidiu fazer uma surpresa a Daniel Fernandes. Trouxeram a sua avó materna Alice, uma das pessoas que o criaram e com quem vive, para o surpreender no palco do “The Voice”. Daniel tinha tentado ligar para casa durante o dia, mas as duas tias-avós com quem também vive disseram sempre que a avó Alice estava ocupada na casa de banho e não podia atender.

“Afinal estava era em Lisboa. Não suspeitava, por acaso não. Da produção tinham-me perguntado se não tinha ninguém da família. Eu disse que não porque prefiro deixar as três em casa do que só vir uma ou virem duas, porque a mais velha não consegue, e para não ficar sozinha em casa… Nem estava à espera que eles a trouxessem. Primeiro nem estava a perceber quem era. A Catarina [Furtado] a mandar-me ficar e eu: o que é que fiz de mal? Já estava nervoso e depois nem estava a perceber quem era. E com aqueles vídeos que fizeram com as minhas tias já estava quase a chorar, antes de cantar.”

Como tudo começou?

Daniel Fernandes tinha “10 ou 11 anos” quando começou a cantar no grupo coral da sua freguesia, Lago. “Uma vez fui à missa, ouvi uma pessoa cantar o salmo e disse à minha tia: gostava de cantar como aquela moça na igreja. ‘Então vamos ao grupo coral e ver como é e inscreves-te’, disse a minha tia.”

Um ano ou dois depois já cantava “Aleluia” sozinho. “E tinha de fazer chichi em casa antes de cantar, com os nervos. Chegava lá e tinha de fazer outra vez, e antes do ‘Aleluia’ tinha de ir fazer mais chichi e vir a correr. Já o padre estava enervado e a música a começar a dar e eu a vir a correr, aconteceu-me isso várias vezes. Depois é que comecei a cantar salmos. E tremia por todo o lado.”

Depois, uma das tias-avós sugeriu que Daniel se inscrevesse em aulas de canto, já que era algo que gostava tanto de fazer. Começou a ter meia hora de aula por semana. “Primeiro comecei por conhecer e saber como controlar a voz, como cantar, etc. Depois a minha professora perguntou-me se queria cantar música mais comercial ou continuar no lírico. E eu entendia que na ópera, no lírico, puxava muito mais pela voz. Ou seja, conseguia chegar a notas muito mais altas. E as comerciais, não quer dizer que sejam mais fáceis, mas eram mais suaves, com menos notas… não tão agudas e fortes. Fiquei sempre no lírico, escolhi este registo. Escolhi não. O registo é que me escolheu, porque a minha voz é que o escolheu porque é onde se sente melhor.”

No início, via o canto como um hobbie, mas com as aulas de canto começou a pensar que poderia ser algo mais profissional na sua vida — algo “que podia levar mais a sério”. “Só que, depois, comecei a fazer os exames nacionais para entrar na universidade, pensar nas saídas, nos empregos… Pus isso completamente num plano secundário. Continuei a cantar mas não investi tanto como deveria, ou como invisto agora. Porque estava a pensar noutras saídas profissionais. E agora é que me deu para ir ao ‘The Voice’ e tem corrido bem.”

Na verdade, Daniel Fernandes já queria participar em “The Voice” há vários anos. Só que nunca se lembrava de se inscrever a tempo. “Sempre me esqueci. Era para me ter inscrito no ano passado ou há dois anos. Só me lembrava na prova cega, procurava as inscrições e estava tudo encerrado… Desta vez lembraram-me, por isso é que fui. Desde o oitavo ou nono ano que andava a pensar em ir ao ‘The Voice’.”

Em 2021, inscreveu-se a tempo e passou nos dois castings que antecedem a prova cega. “Não estava nervoso porque fui mesmo na desportiva, fui à vontade, fui para vir embora. E nas batalhas pensei que ia perder porque ia cantar lírico com alguém que ia cantar algo diferente, que as pessoas gostem mais de ouvir, que os jurados gostem, vou-me lixar porque a ópera fica sempre assim um bocadinho mais resguardada, ninguém aposta muito na ópera. E pensei mesmo que não ia passar nas batalhas. E desde aí que foi sempre uma surpresa enorme, não estava mesmo nada à espera.”

O encontro que fez com que desistisse do curso de teatro

Daniel Fernandes sempre quis seguir uma carreira na área das artes e do entretenimento. Quando terminou o secundário, inscreveu-se no curso de teatro da Universidade do Minho. Queria ser ator, fazer teatro e novelas. Esteve lá um semestre, mas acabou por desistir. Tudo graças a um encontro com atores como Pedro Lima e Fernanda Serrano.

O cantor trabalha em part-time como empregado de mesa no restaurante Migaitas Salão Champagne, em Braga. Certo dia, Pedro Lima e Fernanda Serrano, além de Rui Melo e Ana Brito e Cunha, foram à cidade minhota para apresentar a peça de teatro “Os Vizinhos de Cima”. E foram jantar ao Migaitas Salão Champagne, onde Daniel Fernandes estava a trabalhar para conseguir pagar as propinas e as despesas do carro.

“Cheguei lá e perguntei: Pedro, que curso tiraste para começares no teatro, e depois novelas? ‘Oh Daniel, não estudei nada para começar. Fiz castings, esforcei-me, lutei por aquilo e desde aí é que comecei a aprender mais e a fazer mais formações. Mas começar começar foi sem curso e sem nada’. E perguntei à Fernanda Serrano e foi a mesma coisa. E eu estava num curso muito virado para a cenografia, para a escrita, era sobre todo o espetáculo. Graças a Deus que falei com eles.” 

De vez em quando, Daniel Fernandes canta no restaurante — e foi isso mesmo que fez na noite em que serviu à mesa do quarteto de atores. Pedro Lima até partilhou um vídeo da performance no seu Instagram. Tudo aconteceu alguns meses antes de o ator morrer, em junho de 2020.

Depois, foi estudar Filosofia, na mesma universidade. O objetivo é tornar-se professor da disciplina na escola — que encara como um “plano B” caso não consiga fazer vida da música e do entretenimento.

“No secundário gostava de aprender aquilo, e aquela coisa de estar com os alunos nas aulas. Ok, às vezes os alunos são chatos — eu era chato e se os alunos forem como eu estou lixado. Mas gosto daquela interação de ajudar as pessoas. Quando acabei o secundário estava em Teatro e ainda ajudava colegas meus do décimo ou do 11.º a estudar, porque gostava mesmo. E uma pessoa tem que ter aquele plano mais estável para o caso de as coisas correrem mal. E com as três velhotas em casa não quero arriscar que corra mal.”

A situação familiar de Daniel Fernandes

Daniel Fernandes e o irmão mais velho cresceram em Amares na casa dos bisavós, com a avó materna Alice (que hoje tem 67 anos), e as tias-avós Helena (61 anos) e Eugénia (72 anos). A mãe trabalhava como cabeleireira num centro comercial, num salão que fechava bastante tarde. Para não ficarem lá o dia todo ou para não ter de ir buscar os filhos tão longe e tão tarde, os rapazes foram viver com os bisavós.

Naturalmente, acabaram por fazer a sua vida em Amares. No secundário, o irmão de Daniel foi estudar para Braga. Quando chegou a sua vez, Daniel não conseguiu ir. “Não conseguia ir porque tinha o meu bisavô vivo, porque ele era o meu pai. Foi ele que me criou e era o único homem, a única figura paternal que tinha, porque não tinha muito contacto com o meu pai, nem hoje tenho. Fiquei sempre com ele até ele morrer, porque era o pai que tinha. E depois quando faleceu já estava ali a viver, a ter a minha vida, era a minha casa.” Foi muito criado, portanto, pela avó e tias-avós com quem ainda vive. 

Quando a bisavó morreu, o grupo coral fez uma surpresa e foi cantar ao seu funeral. “Gostei muito. Eles a cantarem ajudou um bocadinho a… não é a alegrar a cerimónia porque nunca fica alegre, mas a homenagear melhor a pessoa que morreu. E com o meu bisavô foi igual.” Desde então, Daniel Fernandes já cantou em inúmeros funerais, tanto a solo como parte do coro. E também já cantou em diversos casamentos. “Gosto mais dos funerais. Os casamentos são muita festa, é lindo, até choro quando entra a noiva e gosto muito de cantar um ‘Avé Maria’, umas coisas mais líricas e celestiais. Mas os funerais parece que têm mais significado.”

Daniel Fernandes quer ser o presidente da Junta de Freguesia

Além de tudo isto, Daniel Fernandes está há alguns anos envolvido em política local. E está nos seus planos candidatar-se a presidente da Junta de Freguesia de Lago nas próximas eleições autárquicas, em 2025.

“Em princípio candidato-me nas próximas eleições autárquicas. Mas atenção: amo mais a música do que a política. Se a música correr bem, esqueço a política. Um dia, um amigo meu disse que gostava muito de ser deputado, de fazer as leis a nível nacional. Eu gosto é de estar à beira das pessoas. Rebentar uma tampa da água e ir lá tentar ajudar. O muro cair e ir lá ajudar.” Todos os anos angaria bens e faz cabazes para pessoas necessitadas. “Amo isso, isso é lindo, é aquilo que me chama mais.”

Contudo, tendo em conta a forma como as coisas têm corrido no “The Voice”, não consegue fazer muitos planos para o futuro. “Não tenho assim muitos objetivos. Faço sempre planos para tudo, mas apanhei estas surpresas todas e de tal forma que não consigo fazer planos para não me desiludir. Ainda agora estava aqui na catedral de Fátima, dei um espirro, aquilo fez um eco gigantesco e pensei: olha, bonito era cantar aqui um ‘Avé Maria’. Amo cantar nestas acústicas, sem microfone nem nada. Só mesmo cantar. Como às vezes faço no restaurante, cala-se toda a gente e começo a cantar, sem música nem nada. Gosto de cantar à beira das pessoas e ver a reação.”

E mostra-se, mais uma vez, surpreendido com o carinho do público — sendo que já há muitas pessoas que o abordam na rua e nas redes sociais. “Quando me virava para as minhas tias e ensaiava, diziam: filho, não percebo nada de música, não sei o que estás a cantar. E eu: não é preciso perceber. Diz-me só se gostas, se achas bonito o que estás a ouvir. Porque é isso que conta: as pessoas acharem bonito. Passe ou não passe, já me sinto completamente concretizado: porque muita gente achou bonito aquilo que cantei.” 

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