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“Crash”: o escândalo que se transformou num clássico está de volta aos cinemas

Venceu em Cannes contra a vontade de Francis Ford Coppola. Foi alvo de aplausos e tentativas de o banir. É boa altura para o revisitar.
Entre o prazer e a estranheza.

A pandemia ainda se faz sentir nos cinemas, adiando a chegada ao grande ecrã de novidades. O que não quer dizer que não haja nada de novo para ver. Ou neste caso para rever. É o caso de “Crash”, o clássico de 1996 de David Cronenberg, que já pode ser (re)visto nos cinemas nacionais numa versão restaurada em 4k.

“Crash” (não confundir com o múltiplo melodrama do mesmo nome de Paul Haggis, que venceu o Óscar de melhor filme em 2004) foi polémico desde o primeiro momento. A ligação entre desejo sexual e a macabra violência de um acidente rodoviário foi tratada como “pornográfico” para alguns. E premiado.

O filme venceu o Prémio Especial do Júri em Cannes — e mesmo esta distinção foi debatida. O prémio, aliás, foi criado para premiar “Crash”. O próprio David Cronenberg contava à “IndieWire” no verão passado que Francis Ford Coppola, presidente do júri naquele ano, estava contra a ideia. Ao ponto de ter feito campanha contra o filme na corrida à Palma de Ouro (que acabaria por ir para “Segredos e Mentiras”, de Mike Leigh).

Apesar de tudo, França acarinhou como poucos o filme. Além de Cannes, “Crash” seria escolhido como o melhor filme do ano para a prestigiada “Cahiers do Cinéma”. No outro lado do Canal da Mancha, a sorte foi diferente. Entre a imprensa mais tablóide e conservadora o filme foi alvo de uma feroz campanha.

O “The Daily Mail” chegou a dar-lhe honras de primeira página, só para pedir que fosse banido. “Ban This Car Crash Sex Film”, titulou. Na altura, Westminster (Londres) chegou mesmo a dar ordem para que o filme fosse proibido de ser exibido nos cinemas na famosa West End. Ainda assim, o filme estreou no resto de Londres e do país, escapando a cortes. Podia, aliás, ser visto logo ao lado de West End, em Camden.

A polémica não se ficou por terras britânicas. Houve histórias de atrasos no lançamento numa das distribuidoras nos EUA e uma outra que colocou seguranças à porta para garantir que nenhum menor entrava. Na Noruega, o filme foi retirado de um cinema indpendente, alegadamente por decisão da dona do espaço, que vira o marido ficar paralisado num acidente de automóvel.

O filme inspirado no romance de 1973 de J.G. Ballard leva-nos a acompanhar James Ballard (James Spader), que sobreviveu a um desastre automóvel. A partir daí, James desenvolve uma doentia atração sexual por Helen (Holly Hunter), uma das vítimas do desastre, e vai descobrindo todo um sub-mundo onde sexo e desejo se combinam com reconstituições de famosos “e macabros” acidentes rodoviários.

Num recente artigo no “The Guardian”, Peter Bradshaw recordava o filme como protagonista da última grande polémica no Reino Unido, de filmes que a imprensa exigia que fossem banidos. Hoje em dia, “este apetite por banir filmes parece ter-se desvanecido”, com este debate a ter sido transferido da imprensa para as redes sociais.

O filme, escrevia o mesmo crítico, lembra uma polémica que “não envelheceu bem”, ao contrário do filme, que apesar de tudo tem resistido ao teste do tempo. A nossa relação com a tecnologia também terá mudado, afastando-se cada vez mais da indústria automóvel, hoje em dia menos perigosa do que então (Bradshaw usa a curiosa expressão “airbag da banalidade”).

Ainda assim, talvez não tão chocante mas ainda hipnótico quanto baste para nos atrair, “Crash” de Cronenberg está estreou na quinta-feira, 8 de janeiro, em alguns cinemas selecionados. Este regresso aos cinemas acontece num período estranho e difícil para o cinema (e o mundo). Aqui teremos pelo menos outro tipo de estranheza para apreciar. Agora em alta definição. E para maiores de 18, claro.

 

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