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“Bridgerton”: os produtores de “Anatomia de Grey” levam a Netflix para o século XIX

É numa Inglaterra de outros tempos que vamos andar, com um toque moderno, entre amores de alta sociedade.
Uma Inglaterra de outros tempos.

Dos romances de Jane Austen a “Downtown Abbey”, passando pela historicamente mais recente “The Crown”, há qualquer coisa na Inglaterra de tempos antigos que continua a chamar por nós.

“Bridgerton” é a nova série que chegou à Netflix neste dia de Natal, pronta para nos voltar a apresentar aos vestidos de gala e eventos de alta sociedade, tão elegantes quanto foleiros. Pelo meio, podemos preparar-nos para o já histórico desafio, de quem tenta quebrar as convenções do seu tempo.

É no século XIX que “Bridgerton” nos coloca mas podemos esperar algo de diferente, atento ao nosso tempo. Falamos no cuidado de, em vez de procurar um elenco maioritariamente branco, para ser historicamente fiel, encontramos pessoas de diferentes etnias. Pode parecer algo marginal mas é uma tendência que já tínhamos visto recentemente quando Dev Patel foi escolhido para protagonizar “A Vida Extraordinária de David Copperfield”, numa nova versão do clássico de Charles Dickens.

É uma frase que bem conhecemos, a que abre o trailer: “vale tudo no amor e na guerra”. Em “Bridgerton” vamos Daphne Bridgerton (Phoebe Dynevor), uma jovem de uma família bem colocada na alta sociedade, que tem pela frente o grande desafio de uma mulher do seu tempo: encontrar um bom marido para casar.

É aqui que a tal expressão para as coisas do amor e da guerra se aplica. Obstinada, Daphne tem pela frente a responsabilidade social e a sua própria ambição de casar por amor. É uma equação particularmente difícil num tempo em que o papel da mulher estava tão restrito. E nada como termos alguém que quer desafiar as convenções do seu tempo.

Não é em modo dramático que isto será feito. É, na verdade, bem mais próximo do ambiente de comédia romântica. O parceiro do crime da jovem será Simon Basset (Regé-Jean Page), o tipo capaz de arrancar suspiros assim que entra numa sala.

Conhecido solteirão, o duque vai aliar-se a Daphne para uma mentira. Tudo começa com os dois a bufarem com o que os irrita no outro. Mas cedo vai dar para perceber que há algo ali a crescer entre eles. Entre corpetes que não deixavam as mulheres respirar e fatiotas abonecadas, há aqui um ambiente light a marcar o compasso numa das últimas estreias de 2020 da Netflix.

De produtores de “Anatomia de Grey”.

“Bridgerton” tem como base de inspiração os livros da autora norte-americana de romances históricos Julia Quinn (pseudónimo de Julie Cotler). A família Bridgerton inspirou a mais bem sucedida série do seu trabalho (são já oito romances e um par de novelas).

A juntar a todo este mundo de alta sociedade, em que uma palavra mal medida, um mau vestido ou um talher fora do sítio podem dar lugar a um escândalo, temos um elemento disruptivo que saltou das páginas para o ecrã. Falamos de Lady Whistledown (narrada pela voz da maravilhosa Julie Andrews), figura misteriosa com muitas histórias de fofoca sempre prontas a sair.

Se já não houvesse traições, expectativas, romances, sobrolhos levantados e tudo o mais para animar os bailes daquele mundo de ricos aristocratas, temos também este lado de humor ácido e irreverente, que pelo menos durante boa parte dos livros foi um dos grandes mistérios. Afinal de contas, quem é a fofoqueira do reino?

Embora ainda longe dos ambientes sumptuosos e do nível de produção de “The Crown”, sucesso da Netflix que já é tema de debate, “Bridgerton” não chega à plataforma sem pergaminhos. A série conta com Chris Van Dusen e, em particular, Shonda Rimes, que se destacaram com “Anatomia de Grey”, série que desde 2005 encontrou audiências fiéis, que a tornaram um dos maiores sucessos televisivos do século XXI.

Os oito episódios desta primeira temporada chegaram à Netflix no dia de Natal. Veremos se esta primeira temporada abre caminho a uma segunda temporada. No que aos livros diz respeito, há muita história para contar. A anos de luz do talento de Jane Austen, é certo, mas com o tal lado de humor e romance que tornaram os livros de Julia Quinn best-seller.

A altura de estreia, entre o Natal e o Ano Novo, e logo num estranho ano que durante tanto tempo nos tem deixado mais por causa, parece ser bem pensada. É um convite aos fãs de romances históricos e histórias de amor para uma sessão de binge-watching, descotnraída, no sofá, enquanto vemos gente de outros tempos a debater-se com as complicadas vestimentas e regras de etiqueta do seu tempo.

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