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“Até que a Vida nos Separe” é uma das melhores séries portuguesas dos últimos anos

A produção da RTP1 chegou ao fim esta quarta-feira, 31 de março. Foram oito episódios que pode rever a qualquer momento.
A série é uma comédia dramática.
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O fim pode ser difícil quando nos envolvemos emocionalmente com uma série de televisão — e foi certamente isso que aconteceu com muitos espectadores de “Até que a Vida nos Separe”, que acompanharam o último episódio da produção da RTP1 esta quarta-feira, 31 de março. O que é um ótimo sinal da qualidade e eficácia desta história.

Numa altura em que há mais oferta do que nunca — com o boom das plataformas de streaming em Portugal —, é natural que certas franjas do público não estejam tão atentas (ou predispostas) à ficção nacional, por diversos fatores. “Até que a Vida nos Separe” é um exemplo perfeito de porque é que não deviam estar a fazer isso.

Esta série — escrita por João Tordo, Hugo Gonçalves e Tiago R. Santos (que juntos já tinham criado “País Irmão”) — acompanha a família Paixão. Eles organizam casamentos na quinta onde vivem, e a estrutura inicial da narrativa faz que em cada episódio acolham uma cerimónia diferente, com noivos com as próprias histórias.

Mas aquilo que sempre importa mais em “Até que a Vida nos Separa” é a família protagonista. Daniel (Dinarte Branco) é o pai, alguém que nunca se quis tornar um fotógrafo de casamentos, mas foi aquilo que a vida o levou a fazer. A sua relação com Vanessa (Rita Loureiro) está numa espécie de crise de meia-idade, num limbo existencial entre a comodidade e o negócio conjunto, mas sem a característica estampada no apelido da família.

Frustrada com o presente, Vanessa questiona-se de forma constante sobre se devia ter tomado outra decisão alguns anos antes — quando teve a hipótese de aparentemente “escapar” para uma vida solta e livre com o mais bem-parecido e sedutor Vasco (Albano Jerónimo), colega de Daniel na faculdade, que foi o seu último namorado antes do atual marido.

Os Paixão têm dois filhos com 20 e poucos anos, Rita (Madalena Almeida) e Marco (Diogo Martins). Ambos são pragmáticos, fulcrais para gerir o negócio da família e, sobretudo, as crises dos pais. Com eles vivem ainda os pais de Vanessa, Joaquim (José Peixoto) e Luísa (Henriqueta Maia), que dá cada vez mais sinais de demência, fruto da idade.

A série está muito bem construída na forma como nos apresenta as personagens e os respetivos dilemas, como mostra que são pessoas (tal como elas existem na vida real) multifacetadas, densas e complexas.

Ao longo dos oito episódios há ainda uma série de flashbacks — viagens ao passado que só ajudam a sustentar ainda mais a história e estas personagens, e que não são um mecanismo narrativo usado de forma gratuita até à exaustão, como acontece com muitas séries internacionais nesta altura. A coerência entre as várias linhas temporais é estrondosa e só contribui para a elevação do enredo.

Além dos protagonistas, há uma série de pequenas personagens (mais unidimensionais, logicamente) que nos dão alguns dos momentos mais divertidos e ímpares. A dupla de seguranças da discoteca onde Daniel tira fotos, o chefe de Daniel nesse clube, o Dário Notário ou a Vanda da Banda são algumas delas.

Tal como as melhores séries, “Até que a Vida nos Separe” presta uma grande atenção ao detalhe — e mesmo a cena mais insignificante para a generalidade da história pode ser bastante rica. Muitas vezes são mesmo as mais divertidas.

Num balanço ideal entre a comédia e o drama — que muitas histórias não conseguem concretizar da melhor forma — a escrita desta produção é uma das suas melhores qualidades. Equilibra as conversas mais coloquiais com pensamentos filosóficos que todos podemos ter no nosso dia a dia, tudo enquanto nos vai dando mais e mais observações realistas e sarcásticas sobre o nosso quotidiano. Há muitas linhas de diálogo que são um espelho da nossa realidade — algo que muitas produções portuguesas têm dificuldade em fazer, e que só aumenta o sentimento de identificação junto do público.

Não é um alien na televisão portuguesa — como foi “Sara”, de Marco Martins, em 2018 —, nem tenta inventar qualquer roda, mas consegue ter uma linha suficientemente ousada. Seja na realização inspirada de Manuel Pureza ou nos momentos mais surrealistas do guião, como os delírios de Vanessa em plena menopausa ou os sonhos de Marco.

Outra das maiores qualidades é o elenco, que está absolutamente incrível. Dinarte Branco e Rita Loureiro têm aqui dois dos seus maiores (e merecidos) papéis da carreira — e Madalena Almeida e Diogo Martins estão perfeitos como os seus filhos, assumindo todas as nuances necessárias para dar a força certa a estas personagens. Os veteranos Henriqueta Maia e José Peixoto fazem um casal idoso ternurento que também se torna uma das peças chave da narrativa.

Por tudo isto, e ainda pela ótima música do genérico criada pelos Cassete Pirata, “Até que a Vida nos Separe” é facilmente uma das melhores séries portuguesas dos últimos anos. E merece todo o reconhecimento por isso. Se não faz ideia do que estamos a falar, pode sempre passar pela RTP Play para ver os oito episódios.

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