Aos 14 anos, João Venes encontrou uma forma de continuar ligado ao mundo dos videojogos sem precisar de ser o melhor jogador. Começou a editar vídeos de Fortnite para outros jogadores, primeiro de forma gratuita e, pouco depois, por 5€. O que começou como uma forma de ganhar algum dinheiro enquanto fazia o de que gostava acabou por abrir caminho a uma carreira no mundo dos eSports.
Hoje, com apenas 20 anos, é a partir do Seixal que João Venes gere a sua própria agência de talentos. Depois de já ter passado por uma agência internacional e trabalhado com jogadores, criadores de conteúdo e marcas como a Red Bull e Hugo Boss, acompanha carreiras num setor que, para muitos, ainda se resume a jogar videojogos.
A história começou muito antes de existir uma agência ou sequer a certeza de que aquela podia ser uma profissão. Começou com um adolescente que queria continuar próximo do mundo do gaming e percebeu que, mesmo não sendo “grande coisa” a jogar, havia outras formas de fazer parte daquele mundo.
A ligação de João aos jogos começou de forma simples, entre amigos. “Não era grande coisa a jogar, mas queria continuar ligado ao meio”, explica à New in Seixal. Aos 13 anos, começou a editar vídeos de Fortnite para os canais de YouTube de outros jogadores. Aprendeu tudo sozinho e começou por fazer alguns trabalhos gratuitamente. Pouco depois, passou a cobrar cerca de 5€ por vídeo. “Comecei a editar para alguns jogadores profissionais e a ganhar algum dinheiro com isso”, conta.
O trabalho de edição acabou por aproximá-lo cada vez mais do universo competitivo. Começou a conhecer jogadores, equipas e outras pessoas ligadas à indústria e, ainda miúdo, percebeu que existiam oportunidades muito além de estar sentado em frente ao computador a jogar. Foi assim que começou a dar os primeiros passos na gestão de carreiras.
De amador a profissional
Uma das primeiras experiências foi aos 14 anos, quando começou a acompanhar e gerir a carreira de um jogador, de forma amadora. Ainda estudava e conciliava tudo com as aulas, mas já procurava formas de transformar a paixão numa atividade profissional. “Comecei a procurar equipas profissionais de eSports para ele, que também queria começar a criar conteúdo. Por isso, ajudei-o a arranjar um sistema de redes sociais e os editores para os vídeos. Geria a logística para que pudesse focar-se em jogar”, explica o jovem seixalense.
Aos 15 anos, surgiu uma oportunidade que mudou completamente o seu percurso. Em julho de 2022, foi convidado a juntar-se a uma agência internacional, a MYI. A partir daí, deixou de trabalhar apenas com jogadores de Fortnite e passou a estar envolvido em campanhas com algumas das maiores marcas ligadas ao gaming e ao entretenimento, entre elas a Red Bull e a Hugo Boss, que patrocinavam jogadores ou promoviam os produtos através de criadores de conteúdo gaming.
Foi nessa agência que João começou a trabalhar a um nível mais profissional. Se, até então, o trabalho passava por encontrar equipas para os jogadores e ajudá-los com a criação de conteúdo, a nova realidade trouxe contratos, negociações e clientes de maior dimensão. “Contratava jogadores para a agência e depois procurava equipas para eles. Ou seja, fazia o mesmo que antes, mas tudo com contratos, mais profissionalismo e com advogados a ajudar”, explica.
A experiência permitiu-lhe perceber que o trabalho de um agente não se resume aos jogadores profissionais. Com o tempo, João começou a trabalhar cada vez mais com criadores de conteúdos, uma área que acabou por ganhar maior peso no seu percurso. “Até aqui eram só jogadores de eSports, que são muito bons, mas não têm grande carisma. Não gostam de aparecer, só gostam de jogar e ponto. Por isso, são pouco interessantes para as marcas”, refere. “Então comecei a olhar mais para os criadores de conteúdo, que são o oposto. Para equipas profissionais não são o que eles procuram, mas para as marcas são muito mais interessantes.”
Durante os três anos que passou na agência, entre os 15 e os 18 anos, João foi assumindo novas responsabilidades, chegando a ser Head de Fortnite, deixando de ter de reportar o trabalho ao chefe. Ao mesmo tempo que crescia profissionalmente, começou a perceber que queria construir um projeto seu.
Em 2025, optou por sair da empresa. Queria experimentar uma realidade diferente e chegou a trabalhar na Polónia, durante o Erasmus, como diretor de parcerias numa organização ligada aos eSports. “Descobri que não era o que queria fazer. Não gostei de trabalhar do lado das marcas, mas serviu-me para perceber que o que queria mesmo fazer era ser agente de talentos”, frisa.
“Decidi que ia atirar-me aos lobos”
Depois de três anos a trabalhar numa agência, sentiu que tinha reunido experiência suficiente para arriscar num projeto seu. Foi entre o final de 2025 e o início deste anos que começou a ganhar forma a agência que hoje gere. “Decidi que ia atirar-me aos lobos. A idade para arriscar é agora”, diz.
Na JV Agency, começou por manter alguns dos clientes que já acompanhava e, rapidamente, ganhou uma dimensão maior. João passou a representar jogadores e criadores de conteúdo, tratando de negociações com equipas e marcas, contratos, campanhas e toda a logística associada às carreiras dos clientes.
No caso dos criadores de conteúdo, o trabalho é particularmente intenso. Entre campanhas, guiões, vídeos e prazos de publicação, cada parceria envolve várias etapas e exige uma gestão constante. “Os meus clientes têm quatro ou cinco campanhas ao mesmo tempo, cada uma com três ou quatro criadores. E para cada criador há uma deadline para submeter o guião, outro para submeter o primeiro rascunho do vídeo e depois outro prazo para saírem os vídeos nas redes sociais”, explica.
É também por isso que, apesar de ter apenas 20 anos, já percebeu que uma parte importante do trabalho passa por saber delegar e gerir uma equipa. “Posso ter muitos clientes e durante algum tempo até pode correr bem, mas se todos precisarem de mim, vou falhar com alguém”, admite. Para conseguir acompanhar o crescimento da agência sem comprometer o trabalho, já contratou uma pessoa para o ajudar na gestão dos clientes e prevê contratar mais um elemento em breve.
No entanto, houve um momento que fez com que até os pais percebessem que aquele trabalho estava a ganhar uma dimensão diferente. Aos 17 anos, João viajou sozinho para Copenhaga para acompanhar uma equipa do Qatar num evento de Fortnite. A viagem foi paga pela própria equipa, mas, inicialmente, os pais tiveram dificuldade em acreditar que a proposta era real. “Eles não acreditavam: ‘Uma equipa do Qatar vai mandar-te dinheiro para viajares para um evento? Estás maluco?’”, recorda.
Depois de confirmarem a transferência através do banco, acabaram por deixá-lo viajar. João partiu sozinho, ainda menor de idade, e chegou a enfrentar alguns imprevistos durante a viagem, incluindo problemas com o voo e dificuldades para fazer o check-in no hotel. Foi também aí que, para si e para a família, ficou mais claro que o que tinha começado como uma brincadeira estava a transformar-se numa profissão. Hoje, as viagens já fazem parte da rotina e deixaram de ser uma exceção para passar a ser uma extensão do que faz.
O trabalho leva-o também a acompanhar os jogadores presencialmente em torneios e eventos internacionais. Só neste verão esteve em Paris, durante o Mundial de eSports, passou por Viena para um torneio da Red Bull e viajou até Bordéus para acompanhar um cliente. Entre viagens, trata também da logística dos jogadores, desde deslocações e entrevistas às necessidades durante os períodos de competição.
“Estou sempre nos treinos, não só a apoiar enquanto fã, mas sobretudo a dar apoio logístico. Às vezes os jogadores precisam de alguém para ir buscar água ou comida quando estão a treinar, e depois vão ter uma entrevista, vou com eles para ajudar”, explica.
Apesar de ter construído uma carreira internacional, João nunca trabalhou diretamente com uma equipa ou marca portuguesa. O seu trabalho tem sido, desde o início, fora do País, sobretudo por considerar que o mercado português de eSports, particularmente no Fortnite, ainda é reduzido. “Nunca tive nenhum cliente português, nem nunca trabalhei com nenhuma marca portuguesa, nem nenhuma equipa”, afirma.
Foi esta experiência que o levou a querer mostrar que trabalhar no gaming não significa ser jogador profissional. Em paralelo com a agência, João criou, durante a licenciatura em Gestão, um evento na faculdade dedicado às diferentes carreiras existentes neste universo, depois de perceber que existia pouca informação sobre o tema.
A iniciativa reuniu cerca de 150 participantes e contou com painéis e convidados ligados a diferentes áreas dos eSports e do gaming, desde agentes de talentos e criadores de conteúdo a team managers e profissionais ligados às competições. “Percebi que havia pouca informação sobre esta área. Auando pensam em eSports e gaming, as pessoas acham que só existem jogadores”, revela.
Hoje, João já não vê o gaming como um universo de competição. Para si, é também uma indústria onde existem oportunidades em áreas tão diferentes como gestão, criação de conteúdo, marketing, redes sociais, produção e negócios. Depois de começar aos 13 anos a editar vídeos, passar pela gestão de jogadores, trabalhar com marcas internacionais e criar a própria agência, o próximo desafio parece ser, mais uma vez, descobrir até onde consegue levar aquilo que começou apenas como uma forma de continuar ligado aos videojogos.
Carregue na galeria para ver alguns do eventos internacionais em que João esteve presente.







