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Angelina Jolie diz que temeu pela segurança “de toda a família” na relação com Brad Pitt

Apesar de não poder quebrar o segredo de justiça, a atriz e cineasta falou sobre a relação atribulada com Brad Pitt.
São declarações inéditas

O complicado processo de divórcio e de custódia dos filhos tem remetido Angelina Jolie a um silêncio quase absoluto. Mas na mais recente entrevista ao “The Guardian”, a atriz e cineasta fez passar a mensagem. Questionada sobre se temeu pela segurança dos seus filhos, foi clara: “Sim, pela minha família. Por toda a minha família.”

Jolie falava acerca do seu mais recente livro, “Know Your Rights”, que serve de guia para os jovens conhecerem todos os direitos que a convenção das Nações Unidas lhes atribui. E se seria fácil pressupor que os destinatários seriam, à partida, crianças de países em desenvolvimento, a conversa rapidamente se focou nos seus próprios filhos e no seu país de origem, os Estados Unidos.

“Conheci demasiadas crianças que viviam na realidade de verem os seus direitos violados — pessoas deslocadas, jovens vítimas de violação. Não conseguia perceber porque é que continuavam a lutar por coisas tão básicas que são os direitos que deveriam ter à partida. Isso irritou-me. Como é que vamos resolver tudo o resto se não resolvermos isso?”, explicou, antes de dar outro exemplo.

“Depois tive uma experiência nos Estados Unidos com os meus próprios filhos e pensei, bem, direitos humanos, direitos das crianças… Lembrei-me dos direitos das crianças, li-os e pensei que, bem, ele são úteis para quando tens um problema e queres ter a certeza de que existe apoio para as crianças da tua vida.”

Embora tenha tentado fugir ao tema do divórcio e do processo em tribunal que, inevitavelmente afeta a vida dos filhos, não foi capaz. “Percebi então que os Estados Unidos não ratificaram a convenção [ratificada por mais de 190 países] e que uma das formas em que isso afeta as crianças é no direito de verem a sua voz ouvida num tribunal”, explicou.

“Uma criança na Europa tem mais hipóteses de ser ouvida e ter uma voz em tribunal do que uma criança na Califórnia. Isto diz muito sobre este país.”

Questionada sobre se temia pelos direitos dos seus próprios filhos, remeteu-se ao silêncio. Mas acenou com a cabeça quando lhe perguntaram se era uma referência ao divórcio e às alegações de violência doméstica que fez contra Pitt. E assumiu ter temido pela sua segurança e pela dos seus filhos.

Para quem passou as últimas décadas a lutar pelos direitos dos outros — recorde o artigo da NiT sobre a faceta humanitária de Jolie —, este era todo um outro problema. “Por norma não consegues reconhecer os problemas mais pessoais, sobretudo quando o teu foco está nas grandes injustiças globais, isto porque, comparativamente a elas, tudo o resto parece tão insignificante. É difícil. Gostava de ter esta discussão e ela é importante…”, explica, antes de se remeter novamente ao silêncio que impõe o processo judicial.

“Não sou o tipo de pessoa que toma decisões de ânimo leve”, diz, em clara referência à decisão de avançar para o divórcio, anunciado poucos dias depois de, revelou a própria, Pitt ter sido abusivo com a filha durante um voo onde se apresentou visivelmente embriagado. “Custou-me muito colocar-me numa posição onde senti que tinha que me separar do pai dos meus filhos.”

“Custou-me muito colocar-me numa posição onde senti que tinha que me separar do pai dos meus filhos.”

Pitt foi ilibado das acusações de violência doméstica, apesar de ter admitido problemas com o álcool. O próprio admitiu ter explodido várias vezes com os filhos, mas sem nunca ter partido para agressões físicas.

“O que sei é que quando uma criança é magoada física ou emocionalmente, ou quando assiste a alguém que ama ser magoado, isso pode causar-lhe danos. Uma das razões pelas quais as crianças precisam de ter estes direitos é que, sem eles, tornam-se vulneráveis a experiências e vidas pouco seguras, pouco saudáveis”, nota.

É também por esses direitos e pela tal voz em tribunal que Jolie tem lutado, sendo que pelo menos três dos seus filhos pediram ao tribunal para que o seu testemunho seja ouvido em audiência.

Dos direitos das crianças, a conversa migrou para os direitos das mulheres e, mais concretamente, os seus. “Acho que a minha mãe fez muito para assegurar os meus direitos”, explica sobre a mãe, também ela uma ativista fervorosa.

“Nunca senti que nasci com estes direitos e proteções. Senti que eram coisas pelas quais tinhas que lutar e, pelo caminho, seres vista como uma pessoa difícil pelo facto de os exigires”, explicou. “Desafiarei quem quer que se coloque no meu caminho e me impeça de fazer o que acho que deve ser feito.”

Sobre a sua carreira, confessa que se sentiu desrespeitada pela primeira vez por Harvey Weinstein, o todo poderoso produtor de Hollywood cujo caso acabaria por fazer explodir o movimento MeToo. Hoje, cumpre 23 anos de prisão por violação e abuso sexual.

Sem entrar em detalhes, remete para os seus 21 anos, quando participou pela primeira vez num filme de Weinstein, “Playing By Heart. Terá sido abordada pelo produtor, naquilo que considera ter sido um abuso dos seus direitos. Conseguiu escapar ilesa.

“Se consegues escapar da sala, pensas que foi só uma tentativa, mas que nada aconteceu, certo? A verdade é que a tentativa e a experiência da tentativa são, por si só, um abuso.”

“Foi algo de que consegui escapar. Mantive-me afastada dele e avisei toda a gente. Lembro-me de dizer ao Johnny, o meu primeiro marido, para espalhar a palavra a outros homens — que não deixassem mulheres a sós com ele“, recordou. “Lembro-me de ser convidada para fazer ‘O Aviador’, mas recusei porque ele estava envolvido.”

Confrontado com as declarações, Harvey Weinstein rapidamente esclareceu que nada aconteceu e que nunca violou ou tentou abusar de Jolie.

A conversa regressou surpreendentemente à sua relação com Brad Pitt. “Nunca mais quis estar associada ou trabalhar com o Weinstein. Por isso foi difícil para mim quando o Brad o fez.”

Além de ter sido protagonista de “Inglourious Basterds”, co-produzido por Weinstein, trabalhou diretamente com ele no filme “Killing Them Softly”. Jolie não gostou. “Discutimos sobre isso. Claro que me magoou”, conta.

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