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“Ainda tem de haver um 25 de Abril dentro das casas das mulheres portuguesas”

Capicua falou com a New in Seixal sobre o novo single e o seu papel na emancipação feminina, a propósito de um concerto na cidade.
A artista.

Um dos maiores destaques das celebrações do Dia Internacional da Mulher, no Seixal, é a rapper Capicua, que foi convidada para atuar no próximo dia 7 de março, pelas 21h30, no Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal. Depois de várias atuações na Quinta da Atalaia durante a Festa do Avante!, a artista regressa ao concelho para interpretar um novo tema, que será lançado no dia 8 de março.

Este foi o pretexto para Capicua falar com a New in Seixal sobre o papel que tem desempenhado na emancipação feminina e o novo single “Que Força é Essa”, uma adaptação da canção original de Sérgio Godinho. Os lugares para o concerto no Fórum já são escassos. Cada bilhete custa 6€, sendo que jovens munícipes até aos 25 anos e com mais de 65 não pagam entrada. Os trabalhadores das autarquias do Seixal, munícipes, bombeiros e voluntários da Cruz Vermelha do concelho do Seixal podem usufruir ainda de um desconto especial de 50 por cento na compra dos ingressos.

Capicua, de 42 anos, tem sido uma inspiração para as mulheres que querem seguir por esta área musical. Socióloga de formação, é conhecida como uma das vozes femininas da música com mais peso na reflexão cultural, social e política. Fá-lo sabendo que as palavras podem ser uma boa arma contra a alienação.

Ana Matos Fernandes (ou simplesmente Capicua) afirmou-se no rap há mais de uma década, provando que esse lugar também pode ser das mulheres, com novas rimas e narrativas. Com uma vasta discografia, conta já com um percurso sólido no panorama da música lusófona. Na última década, tem somado vários concertos, conquistando um público muito diverso e o reconhecimento da crítica, não apenas no nosso País, mas em algumas incursões internacionais pelo Brasil, Espanha, França, México, entre outros.

Porque é que acha que foi escolhida para representar o Dia Internacional da Mulher no Seixal?
Penso que as pessoas me associam às questões feministas, às questões de género, à luta pela igualdade e pelos direitos das mulheres. É normal, sendo esse um tema e uma causa transversal no meu trabalho desde o meu primeiro disco, antes até da minhas primeiras mix tapes.

Mas nem sempre foi assim. Pensa que foi um processo de evolução e afirmação?
Ao longo dos meus anos de carreira, as pessoas foram assistindo à minha música e associando a estas causas. É normal que no Dia da Mulher, mais um dia de luta pelos direitos de igualdade entre homens e mulheres, as pessoas procurem concertos que fazem sentido nessa temática.

Só pela música?
Os meus concertos têm sempre vários temas que falam sobre estas questões. Eu própria em cima do palco de forma aguerrida, afirmativa, assertiva sem pedir autorização a ninguém, sem me preocupar em ser decorativa, num estilo de música que é habitualmente masculino, um boys club, faz a diferneça. Só a minha presença em palco acaba por ser um statement.

Como se sente por fazer esse statement?
Acho que antes de mais, tendo essa bandeira tão presente no meu trabalho e na minha vida pública, seja nas minhas crónicas no “Jornal de Notícias”, ou nos projetos que vou fazendo ao longo do tempo, workshops ou projetos sociais, isso é uma coisa que para mim é impossível de separar. Acaba por não ser um sentimento, é o mais natural possível, eu faço música e escrevo a partir daquele que é o meu lugar no mundo e quais são as minhas convicções e as minhas preocupações e vivências.

De volta ao Seixal. Como é para si atuar neste concelho?
Sinto-me muito feliz quando vou à Margem Sul. O Seixal sempre me recebeu muito bem, é um prazer voltar e, de facto, é um público muito carinhoso e participativo.

Nota-se pela venda de bilhetes.
Sim, a sala está prestes a esgotar e sobram mesmo poucos lugares. Conto ter uma sala quentinha e intimista, com alguns momentos mais poéticos, inspirados no livro que lancei há pouco tempo “Aquário”.

Fala sobre o quê?
É um livro de crónicas, poemas e letras. Entre a música e a poesia vamos andar, não pelas águas do Tejo, mas pelas minhas canções, elas próprias aquáticas.

O que se pode esperar desta atuação?
Primeiro vamos passar por alguns discos da “Madrepérola”, o mais recente que lancei, depois vamos também aos mais antigos. Este ano celebro dois anos do álbum “Sereia Louca”, por isso também vai haver uma canção ou outra desse disco. O objetivo é passar uma noite muito bonita no Seixal e falar daquilo que é importante para mim, tanto a nível poético como de causas. Temos espaço para dançar, celebrar, pensar, é aquilo que quero estimular a todos aqueles que vêm ao concerto.

Qual é a primeira memória que tem do Seixal?
A primeira vez… Lembro-me que tinha um grande amigo que era do Seixal, conheci-o quando fui para o ISCTE, em Lisboa, tirar a licenciatura em Sociologia. Lembro-me de ver o Tejo, andar à beira-rio e ter uma sensação de muita luz, o espelho de água que se fazia na água. Sempre que me lembro do Seixal vem esta imagem de luz no Tejo e de termos ido comer umas lulas grelhadas muito boas.

Quando foi isso?
Foi perto de 2002.

Não se lembra do nome do restaurante?
Infelizmente não me lembro do nome do restaurante, mas era um tasquinho à beira-rio, ainda tinha aquelas riscas azuis tipo casa alentejana. Fui muito bem recebida e comi muito bem. Mas, lá está, o espelho de água do Tejo não me sai da cabeça. Foi um dia claro ao pé do rio.

Surpreendeu-se pela beleza do Seixal?
Sim. Eu achava o Seixal muito castiço, tinha uma ideia de que fosse um local super urbano com montes de prédios e depois cheguei e percebi que não. Mudou a minha visão quando andei junto ao rio, das casinhas baixas, o cheiro a peixe assado. Foi uma bela surpresa, nunca tinha calhado passar no Seixal antes.

Agora já não é nada de novo.
Pois, já vim cá muitas vezes, nem que seja a caminho da Festa do Avante!, que já lá fui tocar algumas vezes e nos arredores também. Sempre muito bem recebida.

Vamos falar um pouco do novo single “Que Força é Essa”. Esta música é original do Sérgio Godinho, como vai ser a sua versão?
Não vou estrear totalmente este single, porque já cantei esta música num concerto que dei em janeiro. com o próprio Sérgio Godinho.

Onde?
Foi no “Conta-me uma Canção”, no Teatro Maria Matos.

É uma parceria nova?
A ideia era fazermos músicas em conjunto e cantar repertório um do outro. Neste caso, eu tinha a missão de fazer uma versão de uma música dele, mas já tinha feito algumas na minha carreira.

Porquê este tema em específico?
Resolvi pegar no “Que Força é Essa” porque é a primeira faixa do primeiro álbum de Sérgio Godinho, é o meu álbum favorito, chama-se “Sobrevivente”. Eu ouço-o desde a infância, é impactante, poético e estimula à resistência das pessoas que são exploradas no trabalho.

Voltando atrás, quais são as alterações?
Nesta versão pego no mesmo tema e viro para o feminino, pondo o foco no trabalho doméstico e o cuidado doméstico, que é esmagadoramente responsabilidade das mulheres. É a acumulação com o trabalho, que já tira muitas horas do dia e é, historicamente, desvalorizado e dado como garantido.

Então o que se mantém do tema original?
A versão é “Que força é essa amiga”, ponho tudo no feminino e aproveito parte da letra do Sérgio, sobretudo os refrões e a estrutura métrica, para falar da exploração do trabalho feminino, naquilo que é a economia do cuidado e a desigualdade da distribuição das tarefas domésticas e da responsabilidade com os filhos e os mais velhos.

Porquê fazer isso agora, neste momento?
Acho que é um tema importante, não só porque estamos ao redor do Dia da Mulher, mas também porque fazemos 50 anos desde a revolução do 25 de Abril. Até agora tivemos muitas conquistas durante este tempo, especialmente para as mulheres.

Quais eram as principais diferenças do estatuto feminino?
Bem, nós vivíamos num tempo em que as mulheres não tinham o direito de voto, não podiam sair do País sem autorização do pai e do marido, não podiam trabalhar sem autorização, tinham os direitos pouco reconhecidos a níveis legais, não podiam ser juízas e imensas coisas estavam vedadas. Hoje temos um País com um mercado de trabalho aberto, a maioria dos licenciados são mulheres, temos os direitos de igualdade consagrados na lei, mas de facto, em muitas outras dimensões, como as questões do cuidado doméstico, ainda há muita desigualdade e as mulheres estão sobrecarregadas.

Em que medida se encaixa a música nestes temas?
É um tema que temos de falar, nas questões de violência doméstica ainda há muito trabalho a fazer, temos de falar naquilo que se passa dentro de casa. Ainda há muito 25 de Abril a fazer dentro das casas das mulheres portuguesas, esta canção é um lembrete.

Podemos esperar ouvir este single no Seixal como estreia?
Sim, mas não diria a estreia, isso foi dia 17 com o Sérgio. Mas será a estreia no meu concerto singular, depois vou tocar em Grândola. Mas é no Seixal que será a inauguração desta música no meu repertório de estrada e o tema sai no dia seguinte ao concerto do Seixal, dia 8 de março, nas plataformas digitais e YouTube.

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