Durante dois anos, Sara de Oliveira teve de aprender a conviver com dores no corpo que a impediam de fazer as tarefas mais simples, como brincar com o filho mais novo. Hoje, com o diagnóstico e a medicação correta, a seixalense de 36 anos começa a recuperar a independência, reinventou-se e vai abrir, a 13 de setembro, o Plim Plim, um novo espaço dedicado a festas de aniversário e eventos pensados para os miúdos.
Depois do nascimento de Lucas, em 2024, Sara começou a sentir fortes dores no joelho que, sem diagnóstico durante meses, limitaram progressivamente o seu dia a dia. Chegou a um ponto em que já não conseguia andar sozinha e precisava da ajuda do marido até para ir à casa de banho. Em casa, com um bebé de poucos meses, o parque, os passeios e as atividades com o filho deram lugar a uma rotina no sofá, sempre com a perna esticada.
O diagnóstico acabaria por chegar: espondilite axial, uma doença inflamatória que, no caso de Sara, afeta sobretudo as articulações dos braços e das pernas. Depois de um longo período de exames e baixas médicas, um tratamento biológico começou, há cerca de seis meses, a devolver-lhe alguma autonomia. As dores diminuíram, mas os limites continuam a ser uma incógnita. “Nestes seis meses tem sido fazer tudo um pouco a medo”, conta.
Foi neste período de regresso, entre a vontade de fazer e a necessidade de aprender a parar, que Sara começou a construir uma nova fase da vida. Escreveu um livro infantil numa noite, enquanto adormecia o filho, descobriu-se como autora e passou a percorrer escolas, associações e feiras do livro. Agora, prepara-se para dar mais um passo e abrir, na Cruz de Pau, um espaço dedicado aos miúdos, com festas de aniversário, workshops e sessões de leitura.
O projeto reúne várias das paixões que Sara foi descobrindo ao longo do caminho, dos trabalhos manuais aos miúdos, à leitura e à vontade de criar. É também uma forma de construir uma vida profissional adaptada àquilo que hoje sabe sobre si própria e sobre a doença.
Antes de a condição lhe impor novos limites, Sara estava habituada a uma vida de trabalho e muito movimento. Formada em ação social e animadora sociocultural, acabou por seguir outro caminho e entrou na restauração, onde trabalhou em vários cafés e restaurantes. Em 2016, decidiu juntar-se ao negócio do marido, dedicado à distribuição de bolos para várias pastelarias. Tudo corria bem até chegar a pandemia, que levou ao encerramento dos cafés e a uma nova mudança profissional.
O casal acabou por começar a trabalhar numa empresa de venda de aspiradores, onde Sara passou pelo contacto com clientes, pela formação e pelas vendas. “Deu-nos uma grande escola em termos de lidar com pessoas, para o bem e para o mal”, conta. Foi também nessa fase que engravidou do segundo filho e acabou por ser dispensada da empresa. Pouco depois do nascimento de Lucas, em fevereiro de 2024, começaram as dores que transformaram completamente a sua rotina.
Primeiro foi o joelho, com dores que se tornaram incapacitantes. “Foi de um momento para o outro”, lembra, ao recordar umas férias em que já não conseguiu sequer sair do carro para conhecer o Porto. Seguiram-se hospitais, exames, consultas e um longo período sem respostas. “Passei um ano em médicos, em exames, TAC, tudo e mais alguma coisa até descobrirem o que é que eu realmente tinha.”
Nesse período e com um bebé em casa, Sara deixou de conseguir fazer tarefas básicas sem ajuda. “Para ir à casa de banho tinha que ser o meu marido que me tinha que levar”, explica à New in Seixal. No entanto, o que mais lhe custava não era apenas a perda de autonomia. Era não conseguir viver a maternidade da forma como tinha imaginado. Com a filha mais velha, Ema, tinha passado os primeiros dois anos em casa, por escolha própria, a fazer atividades, a ir ao parque e a acompanhar de perto cada etapa. Com Lucas, a realidade foi outra. “A nossa rotina era eu e ele na sala, eu no sofá com a perna esticada.” A impossibilidade de fazer com o filho mais novo aquilo que tinha feito com Ema tornou-se uma das maiores frustrações causadas pela doença, que não tem cura.
Enquanto procurava uma resposta para o que lhe estava a acontecer, Sara ficou de baixa durante 2024 e 2025. O diagnóstico chegou ao fim de dois anos e há cerca de seis meses, iniciou um medicamento biológico administrado de 15 em 15 dias, através de uma injeção na perna. As dores diminuíram e o corpo voltou a responder de outra forma, mas a recuperação trouxe também uma nova aprendizagem: perceber onde estão os limites.
“Tenho muito menos dores, sinto-me capaz de fazer as coisas, mas depois acabo por não saber quais são os meus próprios limites”, refere. Um esforço que num dia parece perfeitamente possível pode significar dois dias de dores e repouso no seguinte.
Foi precisamente por estar afastada da vida profissional que Sara de Oliveira começou a tentar perceber como podia continuar ativa sem prejudicar o seu estado de saúde. Sem sequer imaginar, a nova fase da vida profissional passaria por se tornar autora de livros infantis. A ideia de escrever um livro surgiu por acaso, numa das vezes em que saiu de casa durante o período em que estava limitada pela doença. Um antigo colega da empresa de aspiradores tinha ido trabalhar para uma editora e Sara e o marido decidiram visitar o espaço para apoiar essa nova etapa profissional.
Foi aí que reparou, no vidro da editora, num anúncio à procura de novos escritores. A frase ficou-lhe na cabeça. “Já fiz tanta coisa, já fui capaz de tanta coisa, será que eu sou capaz de escrever um livro?”, recorda. Nessa noite, já em casa, enquanto adormecia o filho, decidiu experimentar. Abriu uma aplicação no telemóvel e começou a escrever a história. Sem qualquer plano, escreveu sobre a sua vida com dois filhos e sobre como os filhos mais velhos ficam, de certa forma, em segundo plano quando nasce outro bebé. “Não é um livro de imaginação, é um livro do meu dia a dia, da minha família”, conta.
Sara terminou o livro naquela mesma noite e enviou o texto para a editora sem esperar muito do resultado. Cerca de dois meses depois, a editora deu luz verde à publicação. “Eu Queria Chorar”, que custa 14€, foi publicado pela editora Meia Longa em março e já vendeu 147 exemplares. A publicação abriu-lhe uma porta que não estava nos planos. Vieram as escolas, as associações, as feiras do livro e as sessões de leitura. Sara percebeu que o livro podia ser mais do que um objeto para vender. Podia ser uma forma de chegar às pessoas. “O meu objetivo mesmo com o livro é estar próxima dos miúdos e é fazer sentido na vida de alguém que se identifique com a história”, confessa.
A descoberta enquanto escritora acabou por juntar várias partes da sua vida que, até então, pareciam estar separadas: a formação em animação sociocultural, o gosto pelos trabalhos manuais, que sempre fez como hobby, a maternidade, a leitura e a vontade de criar.
Mas Sara não quis ficar apenas pelo livro. Depois de percorrer o País para o apresentar em sessões de leitura, a seixalense quis ir mais longe. O caminho feito com o livro também lhe mostrou a dificuldade de encontrar espaços onde pudesse apresentar a história e desenvolver atividades com os miúdos. Começou a perceber que, se ela própria sentia essa dificuldade, era provável que outros autores passassem pelo mesmo. Foi assim que surgiu a ideia de criar um espaço onde pudesse acolher sessões de leitura, atividades para os miúdos e festas de aniversário.
A experiência das festas dos filhos e o pequeno ateliê que mantém em casa, onde faz trabalhos manuais, acabaram por dar forma ao projeto. Mas havia uma condição. O novo negócio tinha de caber na vida que Sara tem hoje. “Se eu tiver uma crise, aquele negócio não pode depender de mim”, explica. Ou seja, se acordar com dores e não conseguir ir para o espaço, o funcionamento não pode ficar comprometido.
Foi assim que começou a nascer o Plim Plim, na Cruz de Pau, um espaço para festas infantis, workshops e sessões de leitura, mas também uma forma de Sara testar uma nova maneira de trabalhar, mais compatível com os limites que ainda está a descobrir. O espaço foi pensado para funcionar de forma simples e flexível. Para já, quer concentrar-se nas festas infantis e deixar os restantes serviços crescer de forma gradual. “Não quero sobrepor muita coisa. No primeiro mês quero desenvolver o negócio, quero ter tempo e espaço para desenvolver a parte das festas e depois, quando sentir que está estabilizado, começar a criar os meus próprios workshops”, explica.
A ideia passa também por abrir as portas a quem tenha atividades para desenvolver. “Estou aberta já a pessoas que queiram vir dar os seus workshops, que queiram criar e que precisem de um espaço.” Nesse caso, Sara não pretende cobrar um aluguer fixo, mas ficar com uma comissão por cada inscrição.
Nas festas de aniversário, a lógica é semelhante. Disponibiliza o espaço e deixa que cada família escolha os serviços que pretende contratar. Sara decidiu não assumir, para já, a decoração, a alimentação ou a animação. Em vez disso, está a criar uma rede de parceiros da Margem Sul. “Não lhes peço comissão nenhuma, valor algum. É uma forma também de os ajudar, de divulgar o trabalho deles”, frisa. Para quem reservar o espaço, a lista inclui parceiros de decoração, catering, bolos, animação e insufláveis, com descontos de 10 por cento.
Os preços também foram pensados para tentar manter as festas acessíveis às famílias, já que, na sua opinião, os valores praticados acabam por tornar este tipo de celebração difícil para muitas delas. Por isso, decidiu começar nos 120€ por quatro horas, durante a manhã ou a tarde ao fim de semana, e 240€ pelo dia inteiro. Durante a semana, existe ainda uma opção de três horas, entre as 16 e as 19 horas, por cerca de 80€.
Nos workshops, os valores deverão variar consoante a atividade e os materiais necessários. Sara aponta para um preço “entre os 10 e os 20€ por pessoa” quando forem organizados por si, com os materiais incluídos. Para os restantes dinamizadores, o valor será definido por quem cria a atividade e o espaço ficará com uma comissão por inscrição.
Sara quer que o Plim Plim tenha movimento durante toda a semana. “Não vou estar a criar um projeto só para fazer dinheiro ao fim de semana”, explica. “Por isso, as restantes atividades servem para ocupar o espaço durante a semana.” É aí que entram os workshops, as sessões de leitura e a possibilidade de outros autores utilizarem o espaço.
As sessões de leitura são uma das partes do projeto que nasceu mais diretamente da experiência de Sara enquanto autora. Depois de sentir dificuldade em encontrar lugares onde apresentar o seu próprio livro, quer agora que o Plim Plim possa ser esse ponto de encontro. “Eu Queria Chorar” também terá lugar no espaço e Sara pretende continuar a fazer sessões de leitura.
Apesar de o Plim Plim ser agora o grande projeto em que está concentrada, Sara não fechou a porta à escrita. Pelo contrário, já pensa num segundo livro, embora queira que a ideia surja de forma tão espontânea como aconteceu com o primeiro. Para já, criou a meta de chegar aos 400 exemplares vendidos de “Eu Queria Chorar”.
Carregue na galeria para ver o espaço.







