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Costurava 300 peças por mês. Aos 73 anos, usa as redes sociais para ter mais clientes

A BrincLisa surgiu graças à filha Fátima, que queria ajudar a mãe com mais de seis décadas de experiência a chegar a novos clientes.

Aos 73 anos, Luísa Carvoeiro continua a passar grande parte dos dias entre tecidos, linhas e máquinas de costura. No atelier que criou em casa, em Pinhal de Frades, vai fazendo arranjos, dando forma a novas peças e aceitando as encomendas que ainda lhe chegam.

É um trabalho que conhece bem: há mais de seis décadas que a costura faz parte da sua vida. Tudo começou muito antes de se tornar uma profissão. Ainda em miúda, pegava na agulha da mãe para fazer pequenos vestidos para as bonecas de trapos.

“Desde pequenina que gostava de costurar. Tinha seis anos e já tirava a agulha à minha avó para fazer vestidos para as bonecas”, conta a filha, Fátima Lanternas. Tinha apenas 12 anos quando começou a aprender o ofício de forma mais séria, ainda no Alentejo, onde nasceu.

Com o passar dos anos, a costura transformou-se numa profissão à qual nunca deixou de se dedicar. Quando chegou ao Seixal, aos 19 anos, continuou a trabalhar no ramo e passou por várias fábricas, antes de criar o próprio negócio em Paio Pires, em parceria com uma amiga.

Durante muitos anos, o ritmo foi bem diferente do atual. Entre encomendas de centenas de peças, produção para lojas e dias de trabalho que podiam prolongar-se até de madrugada, Luísa chegou a ter uma média de 300 peças para confecionar por mês. Hoje, as encomendas são mais escassas, mas a máquina de costura continua a fazer parte da sua rotina.

Foi esta mudança que levou a filha a criar a BrincLisa, uma página de Instagram dedicada a divulgar o trabalho da mãe e as peças que continua a produzir. Mais tarde, os arranjos de costura passaram a ocupar um lugar importante nesta nova fase, mantendo em funcionamento, ainda que a um ritmo diferente, o pequeno atelier onde Luísa continua a fazer o que aprendeu em miúda.

Foi em Paio Pires que deu o primeiro passo para trabalhar por conta própria. Depois de alguns anos a passar por fábricas de confeção, decidiu juntar-se a uma amiga que conhecia do setor e começaram a aceitar encomendas numa pequena cave, onde tinham algumas máquinas de costura.

O espaço rapidamente deixou de ser suficiente. Com o aumento das encomendas, mudaram-se para um local maior, que acabou por funcionar como uma pequena unidade de produção.

Ali, o trabalho era feito em grandes quantidades e para várias empresas e fornecedores. As duas recebiam os modelos e os tecidos já preparados e tinham pela frente centenas de peças iguais para confecionar. “Quando recebiam as encomendas, eram quantidades de 300 peças de um só modelo”, conta Fátima, de 52 anos, à New in Seixal.

Durante cerca de 15 anos, Luísa manteve este ritmo. A produção era sobretudo de roupa de mulher, embora também surgissem encomendas de roupa de criança e, mais tarde, até de fardamentos. O método de trabalho era semelhante ao de uma linha de montagem: em vez de terminar uma peça de cada vez, Luísa fazia a mesma etapa em dezenas de peças e só depois passava à seguinte. Era assim que conseguia responder às grandes encomendas que chegavam ao atelier.

Ritmo de trabalho intenso, de manha à noite

O volume de trabalho obrigava a dias longos. “Ela trabalhava imenso. Havia ocasiões em que começava às nove e só acabava às duas da manhã”, recorda a filha.

A determinada altura, a vida de Luísa mudou novamente. Depois de se mudar para Pinhal de Frades, onde vive há mais de duas décadas, a parceria chegou ao fim e passou a trabalhar sozinha. Em casa, transformou a garagem no seu próprio atelier, onde instalou as máquinas, o ferro profissional e todo o material necessário para continuar a aceitar encomendas.

Mesmo sem a antiga estrutura, o volume de trabalho manteve-se durante muitos anos. Os contatos foram surgindo através de outras empresas e fornecedores e Luísa chegou a trabalhar para diferentes clientes. Algumas encomendas chegavam já com os tecidos cortados e os modelos definidos, noutras era ela própria quem fazia os cortes a partir dos moldes em papel. 

Mas o mercado onde Luísa construiu a sua carreira foi mudando. As lojas começaram a fechar e a produção de roupa em Portugal foi perdendo espaço para artigos produzidos noutros mercados.

As encomendas que antes chegavam regularmente começaram, pouco a pouco, a desaparecer. “Infelizmente, por muito que tentemos que haja costura feita em Portugal, há muita coisa que já vem de fora”, explica Fátima. A diminuição foi ainda mais evidente em 2020, durante a pandemia, quando começaram a surgir cada vez menos pedidos das empresas com que Luísa trabalhava.

De 300 peças para encomendas pontuais

A diferença no volume de trabalho tornou-se difícil de ignorar. Se antes chegava a ter uma média de 300 peças para confecionar por mês, hoje as encomendas são mais pontuais. “A minha mãe teve meses e meses sem receber nenhum contacto”, conta Fátima. Atualmente, surgem no máximo 30 peças num mês, embora nem sempre haja trabalho suficiente para atingir esse número.

A mudança obrigou Luísa a encontrar outras formas de se manter ligada à costura. Durante a pandemia, começou a aproveitar os tecidos que tinha em casa para criar máscaras, sacos de pano, carteiras para documentos e outros pequenos artigos. Era uma forma de continuar a trabalhar mesmo quando as grandes encomendas deixaram de chegar.

 
 
 
 
 
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Foi também nesse período que surgiu a BrincLisa. Criada pela filha, a página nasceu com o objetivo de dar visibilidade ao trabalho da mãe e encontrar novos clientes para as peças que continuava a produzir.

Fátima começou por divulgar os artigos entre amigos, colegas de trabalho e através das redes sociais, chegando a existir uma fase em que as encomendas aumentaram significativamente. Mas, com a pandemia e a mudança das rotinas de trabalho, esse movimento acabou por abrandar.

A BrincLisa continuou, ainda assim, como uma montra do trabalho de Luísa. Hoje, a página serve também para divulgar os arranjos de costura, uma área que durante muitos anos a costureira tentou evitar. Enquanto tinha grandes encomendas de produção em série, esse tipo de trabalho não lhe interessava tanto.

Agora, com uma realidade muito diferente, os arranjos ganharam espaço na rotina. O próprio atelier de casa passou a receber pessoas que precisam de apertar, ajustar ou transformar peças de roupa, com os contactos a chegarem através da recomendação de quem já recorreu aos seus serviços.

Atualmente, no atelier de Luísa é possível pedir diferentes serviços de arranjos de costura, desde bainhas à máquina (5€) ou à mão (7,50€), à colocação de fechos (a partir de 5€). Pode ainda apertar ou ajustar peças de ganga (7,50€) ou noutro tipo de tecidos (5€).

“Foi uma forma ótima de ela estar ocupada”, explica Fátima, que destaca a satisfação de Luísa continuar a ser procurada pelo que sabe fazer. “Ela sente-se lisonjeada” quando alguém chega através de um amigo, de um colega ou de uma recomendação.

Aos 73 anos, Luísa já não trabalha ao ritmo de quando tinha centenas de peças à sua espera. Ainda assim, mantém a mesma vontade de costurar. Quando surge uma encomenda, a tendência continua a ser terminá-la rapidamente, como se cada peça fosse mais uma tarefa a cumprir e mais uma oportunidade para não deixar a máquina parada. 

“Ela tem toda a pressa para entregar as encomendas, porque é mais um trabalho que está a concluir, mais uma entrega que foi feita”, conta Fátima. Fora do atelier, a rotina é agora mais tranquila. Sai com as amigas e aproveita o tempo de outra forma, mas a costura continua a ocupar um lugar de destaque na sua vida.

Carregue na galeria para conhecer o ateliê de Luísa.

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