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Esta seixalense mudou de vida para ser tatuadora – e quer ajudar os outros com a sua arte

Aos 25 anos, Catarina Simões aposta no fine line e na remoção e quer especializar-se em tatuagem paramédica para apoiar mulheres após mastectomias.

A mãe ofereceu-lhe uma máquina de tatuar com uma mensagem muito clara: estava na altura de Catarina Simões parar de tatuar o seu corpo e começar a tatuar os outros. O plano falhou logo no primeiro dia. Assim que recebeu a máquina, a jovem de 25 anos viu um vídeo, leu as instruções e decidiu testá-la na própria pele. Sem formação nem desenho preparado, escolheu o pé e fez um pequeno smile por baixo do dedo grande. Se corresse mal, pelo menos ficava escondido.

A experiência foi improvisada, mas despertou curiosidade. Catarina estudou Artes Visuais, sempre gostou de desenhar e passou cerca de cinco anos a fazer unhas, sempre com uma preferência pela nail art. As tatuagens também já faziam parte da sua vida e a ideia de um dia trabalhar nesta área andava há algum tempo na cabeça. Faltava apenas a coragem para avançar.

Essa coragem chegou depois do nascimento da filha, Leonor, em julho de 2025. Foi aí que Catarina decidiu deixar de adiar o sonho, apostar nas formações e começar uma nova fase profissional. Hoje faz sobretudo tatuagens em fine line e projetos florais, trabalha com remoção de tatuagens e participa num serviço de tatuagens em casamentos. Pelo caminho, já definiu os próximos objetivos: especializar-se em tatuagem paramédica e, um dia, quem sabe, abrir o próprio estúdio.

Muito antes de pegar numa máquina de tatuar já passava boa parte do tempo a desenhar. No secundário, escolheu Artes Visuais, uma área que lhe permitiu continuar a explorar esse gosto. Ao mesmo tempo, dedicou-se a fazer unhas de gel.

Começou aos 15 anos e, entre os 19 e os 20, passou a dedicar-se à área de forma mais séria. Foram cerca de cinco anos a trabalhar com unhas, embora nem todas as partes do processo lhe despertassem o mesmo entusiasmo. A preparação não era aquilo de que mais gostava. O melhor vinha depois, quando chegava a hora de desenhar. “Adorava a parte dos desenhos nas unhas, a parte da nail art. No início não gostava nada de fazer a preparação da unha, mas a parte do desenho sempre esteve ali, sempre gostei”, recorda.

Catarina desenhava nas unhas, fazia quadros e procurava outras formas de explorar o lado artístico. Sem o saber, estava cada vez mais perto de trocar aquelas pequenas telas pela pele. A ideia de tatuar já começava, nessa altura, a ganhar espaço. Catarina tinha várias tatuagens e pensava na possibilidade de trabalhar na área, mas continuava sem dar o primeiro passo. Foi então que a mãe resolveu dar-lhe um empurrão e ofereceu-lhe uma máquina de tatuar.

A máquina chegou a casa há cerca de três anos e Catarina nunca tinha trabalhado com uma, mas também não perdeu muito tempo antes de experimentar. Não começou em pele sintética nem preparou previamente aquilo que queria fazer. Nessa noite, viu um vídeo, leu as instruções e apontou a máquina à própria pele. “Pensei: ‘Tenho tanta pele, vou experimentar em mim’”, recorda.

Escolheu um pequeno smile no dedo grande do pé para que se corresse mal, seria fácil esconder o resultado. “Tatuar-me foi um bocadinho estranho, até porque sempre tive muito medo de agulhas. Então, era um misto de ‘uau, isto é incrível’ e, ao mesmo tempo, medo”, descreve a jovem. “Foi muito giro. Fiz e depois foi um bocadinho de inventar. Não tinha o desenho, não tinha nada. Foi uma tela em branco”, lembra. “E desde aí nunca mais quis parar.”

A primeira tentativa também deixou à vista a falta de experiência. Com medo de aprofundar demasiado a agulha, Catarina fez pouca pressão e o pequeno smile quase desapareceu durante a cicatrização.

Pior sorte teve o plano da mãe. Quando ouviu o barulho da máquina, entrou no quarto e percebeu rapidamente que a oferta tinha produzido precisamente o efeito contrário. “A reação da minha mãe foi de desilusão”, conta Catarina à New in Seixal.

Depois daquela primeira experiência, apareceram as primeiras voluntárias. Algumas amigas confiaram nela e insistiram para que lhes fizesse tatuagens, mesmo quando Catarina ainda não se sentia preparada para tatuar outras pessoas. “Estava com muito medo. Não queria tatuar as minhas amigas, não tinha curso nenhum, mas elas faziam mesmo questão”, explica.

Acabou por aceitar. Ainda não encarava as tatuagens como profissão e continuava a trabalhar num salão, onde fazia unhas de gel. Durante algum tempo, dividiu-se entre as duas áreas, sem encontrar a disponibilidade nem a coragem necessárias para apostar definitivamente nas tatuagens. Até engravidar.

Catarina continuou a fazer unhas praticamente até ao fim da gravidez. Em julho de 2025 nasceu Leonor e, com a chegada da filha, apareceu também a vontade de mudar de vida. “A minha filha nasceu em julho e fiz unhas até mesmo ao final. E só depois do nascimento dela é que ganhei essa coragem para tirar este sonho da gaveta e agarrar-me aos meus objetivos e fazer as formações”, refere.

 
 
 
 
 
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A maternidade obrigou-a a pensar de outra forma sobre aquilo que queria para o futuro. Com uma bebé pequena em casa e uma vida que “virou de cabeça para baixo”, Catarina percebeu que já não queria continuar a guardar projetos para mais tarde. Se tudo estava a mudar, aquele também podia ser o momento certo para transformar um sonho antigo numa profissão.

“Foi muito aquele pensamento de mudança e de pensar que eu não podia estar agarrada a certas coisas e, por outro lado, havia certas coisas que tinha de começar a agarrar-me e tirar da gaveta e deixar que sejam apenas sonhos e que passem a ser parte da minha rotina”, explica.

Foi ainda durante a licença de maternidade que começou a concretizar o plano. Em 2024, já tinha feito uma formação em remoção de tatuagens, uma área que lhe interessava pela possibilidade de ajudar outras pessoas a apagar do corpo algo que deixara de fazer sentido. Depois do nascimento da filha, avançou finalmente para a formação de tatuagem, que concluiu no início deste ano.

Para Catarina, juntar tatuagem e remoção faz sentido. De um lado, pode ajudar alguém a apagar uma marca ligada ao passado. Do outro, pode criar uma nova memória na pele. “Sempre gostei de conseguir cuidar das outras pessoas e sinto que era muito uma forma de conseguir fazê-lo. Ou seja, conseguir apagar uma memória que as pessoas não têm de guardar para sempre. Por mais que seja só uma tatuagem, para muita gente não é só uma tatuagem. Para muitas pessoas aquilo marca algo, às vezes bastante pesado, que nem nós conseguimos imaginar”, confessa à NiS.

A maternidade tornou-se assim o ponto de partida para a mudança profissional, mas transformar um sonho em trabalho com uma bebé por perto trouxe outros desafios. “Foi desafiante, porque a minha filha estava comigo na maior parte do tempo”, recorda. Durante as formações, Leonor dormia muitas vezes ao lado da mãe ou ficava-lhe ao colo enquanto Catarina aprendia e treinava.

Até a primeira tatuagem depois da formação teve banda sonora própria. “Ela esteve a chorar o tempo quase todo. Consegui manter-me calma e tentar dar um bocadinho de atenção às duas coisas”, explica Catarina.

Conciliar a maternidade com a vida de tatuadora continua a ser um dos maiores desafios. A solução passa muitas vezes pelas horas em que quase toda a gente está a dormir. “Os projetos das tatuagens são praticamente todos feitos durante a madrugada, porque é o tempo que eu tenho em silêncio, em que ela está a dormir e em que eu consigo estar 100 por cento focada. Da uma às cinco da manhã, o meu tempo é passado a criar tatuagens”, conta a jovem de 25 anos.

A nova fase profissional começou precisamente no salão da Amora onde já trabalhava, mas com outra função. A responsável pelo espaço, que também é tatuadora e lhe deu formação, incentivou-a a avançar e abriu-lhe espaço na equipa. Catarina começou a receber clientes e juntou-se ainda a um projeto de tatuagens em casamentos.

A primeira experiência aconteceu poucos meses depois de começar a tatuar. Nesse casamento, tatuou 20 convidados. “Foi incrível, mas foi uma responsabilidade muito grande”, conta a jovem. Entre o ritmo acelerado, a curiosidade de quem estava na festa e a necessidade de cumprir todos os procedimentos de higiene e segurança, teve de aprender rapidamente a trabalhar sob pressão. Para Catarina, o resultado confirmou que estava no caminho certo.

Hoje, identifica-se sobretudo com o fine line e com projetos florais, delicados e femininos. De certa forma, voltou ao que mais gostava de fazer na nail art. A diferença é que os desenhos já não ficam apenas nas unhas ou nas telas. Agora passam para a pele. “Quando começo a estar muito à vontade, gosto sempre de me desafiar noutros níveis e as tatuagens acabam por conseguir fazer sempre isso, porque são sempre projetos diferentes. Há sempre uma história diferente por trás de cada tatuagem”, revela.

E já existe outro desafio à espera. Catarina quer fazer formação em tatuagem paramédica, que lhe permitirá trabalhar na reconstrução visual de aréolas e mamilos em pessoas que passaram por tratamentos oncológicos e mastectomias. É uma área que ganhou um significado ainda mais pessoal depois de ter perdido uma amiga para o cancro da mama. “Quero muito conseguir fazer as mulheres sentirem-se novamente com aquele poder que às vezes sentem que perdem por esta doença”, afirma.

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