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Catarina João: a artista que cria figuras e dioramas incríveis da cultura pop

Das suas mãos saem peças perfeitas inspiradas em personagens e cenas da Marvel, Star Wars ou Harry Potter. A NiS conta-lhe tudo.
É puro talento.

“O que queres ser quando fores grande?”. Para Catarina João, uma jovem seixalense de 36 anos, esta foi durante muito tempo a questão que assombrou a sua vida. Saltou de escola em escola e de curso e curso à procura de respostas, mas só em 2020 descobriu que afinal não podia reprimir aquilo que toda a vida fora: uma artista.

Começou por seguir Artes no secundário, mas não gostou das disciplinas. Naquela altura, sonhava em ser uma baterista rockstar. Por isso, inscreveu-se numa escola de música em Almada, que acabou por fechar alguns meses depois. Uma situação inesperada que a fez atravessar o Tejo para estudar Audiovisuais, chegando a aventurar-se anos depois num curso de Produção de Eventos. Porém, ainda não era nada daquilo que queria para o seu futuro.

Por achar que tinha de ter uma profissão digna do nome, — para Catarina, ser artista não era uma verdadeira profissão —, foi estudar Direito. Segundo explica à New in Seixal, esses foram os piores anos da sua vida. Não acabou a licenciatura, deixou quatro cadeiras por fazer e detestou aquele mundo. De facto, não havia dúvidas: ali, ela não se inseria.

“Andei sempre assim num percurso muito à descoberta do que é que eu queria ser quando fosse grande. Demorou, andei a saltitar de um lado para o outro, mas hoje já sei a resposta. Pode parecer um clichê, mas a única resposta que tenho é ser feliz. Portanto, para onde a vida me levar é para onde eu vou”, diz à NiS.

Só que o processo, pelo menos até alcançar esse tal estado de espírito profissional, demorou para acontecer. Há cerca de um ano e meio, Catarina foi diagnosticada com uma depressão severa. Descobriu a doença não porque a sua cabeça o tivesse detetado, mas porque o seu corpo fisicamente começou a ficar doente e a dar sinais. Devido a isso, viu-se obrigada a encontrar algo que lhe ocupasse a cabeça e a ajudasse a sair daquele escuro onde sentia estar.

Nesse momento de procura constante por um escape, Catarina deu de caras com um vídeo de um canal no YouTube de que imediatamente se tornou fã: “Nerdforge“. Basicamente, esta seixalense teve pela primeira vez acesso a todo o processo de construção de um diorama. Naquele caso, era do Harry Potter: uma das suas sagas favoritos do universo da cultura pop. A reação na altura foi espontânea: “Eu tenho de experimentar isto”.

E assim aconteceu. Desenterrou de um armário a sua primeira caixa de artes do 10.º ano e começou a fazer muito naturalmente várias peças. Era uma brincadeira, mas rapidamente se tornou numa fonte de elogios entre os amigos. Frases como “isso estão tão giro” ou “tens de começar a fazer isto para o público” tornaram-se habituais aos ouvidos de Catarina João. M

“Eu só lhes dizia: ‘Vocês deixem-me da mão. Eu quero estar sossegada a fazer estas coisas, mas para mim. Pela primeira vez não estou a fazer algo com o objetivo de ser para os outros’. Acabei por não ligar nenhuma a ninguém”, explica à New in Seixal. Esta postura durou algum tempo, até que em fevereiro de 2021 Catarina teve a sua “wake-up call”.

“Em fevereiro do ano passado tive um acidente um bocado agressivo e cortei-me na mão. Ia ficando sem o polegar. Eu só me apercebi quando cheguei às urgências que podia não estar aqui hoje, porque foi um golpe muito profundo e atingiu a artéria. E aquilo bateu-me de tal maneira que me obrigou a pensar na minha vida”.

Um dos pontos em que mais pensou foi o facto de ser para ela difícil autointitular-se como artista. Aliás, durante quase toda a sua vida reprimiu esse lado. Segundo explica à NiS, era mesmo um título que acreditava que lhe tinha de ser concedido por terceiros. Era um preconceito estranho que estava implantado nela e que até à altura deste acidente agressivo não tinha dado conta.

“É o síndrome do impostor. Eu toda a minha vida fui estudar artes, fui para vídeo, fui para cinema, fui para música. Eu fiz teatro. Eu estive sempre ligada às artes, mas na minha cabeça tive que ir tirar direito, porque tinha de ter uma profissão, quando eu vivi a vida inteira a trabalhar por conta própria e nunca passei fome”.

Curiosamente, quando Catarina João acordou do recobro da cirurgia e a enfermeira lhe perguntou aquelas típicas questões básicas para perceber se estava tudo bem, a resposta à pergunta “o que é que faz?” saiu como se não restassem mais dúvidas: “Sou artista”. Este foi daqueles momentos que, a par do dia em que apresentou os seus trabalhos à Comic Con, mudaram a vida desta artista.

A reviravolta e a sua primeira exposição num dos maiores eventos da cultura pop: a Comic Con

Em momento nenhum, Catarina João pensou que fosse possível fazer deste seu talento a sua vida (e o seu ganha-pão). “Eu gostava que assim fosse, mas nunca pensei”, contou-nos. Hoje, esta artista seixalense é uma das grandes referências em Portugal daquilo que é criar-se figuras e dioramas que parecem ter sido tirados de determinadas cenas de filmes para a vida real.

A emblemática cena de “Avengers: Endgame”.

Tudo começou oficialmente em dezembro de 2021, quando a jovem artista decidiu expor os seus trabalhos na sétima. edição da Comic Con Portugal, que decorreu em Lisboa. Este foi o grande momento de viragem na sua carreira e na sua vida.

“Eu entrei na Comic Con para mostrar umas coisas às pessoas e ver se as pessoas gostavam. Eu saí da Comic Con com quatro figuras vendidas, encomendas para janeiro e à data de hoje, em fevereiro, tenho encomendas fechadas até ao mês de junho. Tudo derivado daí. Fora as parcerias que surgiram.”

Uma delas foi com a Nerdy Core. Para Catarina, este foi “quase um casamento para a vida”. A loja, localizada em Coimbra, é especializada em tudo aquilo que pode imaginar relacionada com a cultura pop. Graças à parceria com Catarina João, tornou-se também numa espécie de loja oficial onde pode encontrar fisicamente as peças feitas pela artista originária do Seixal.

As miniaturas e os dioramas incríveis que saem das mãos de Catarina João

Pense no seu filme favorito ou numa cena específica de uma determinada cena. Imagine, por exemplo, que idolatra aquela cena emblemática da animação “O Rei Leão”, em que o Simba está a ser apresentado a toda a selva pelo macaco. Pois bem, se era essa a cena que gostava de ter eternizada na sua estante, então vai gostar de saber que as mãos de Catarina João são capazes de fazê-la.

É realmente difícil encontrar uma especificidade destas à venda nas grandes superfícies ou nas lojas especializadas, mas a vantagem aqui é que, como as peças são feitas de raiz, esta artista consegue concretizá-las e transportá-las, neste caso, do filme para a vida real.

Até agora, as figuras em escala 1/10 e 1/6 de personagens Marvel têm sido as mais populares. Sobretudo o Loki. “As pessoas têm um fascínio incrível com o Tom Hiddleston e eu não censuro, porque pronto, nós temos olhos na cara e o homem realmente merece estar esculpido em estatueta”, diz à NiS.

Depois, existem ainda muitos pedidos de peças alusivas à saga Star Wars. Um desses exemplos desenvolvidos por Catarina, agora no que diz respeito a dioramas, foi a recriação da cena em que o Yoda levanta a nave do Luke. “Tenho essa cena feita com a nave suspensa a sair do pântano”.

Uma obra te qual como se tivesse saído do filme.

Da mesma forma, e ainda sobre os dioramas, Catarina já desenvolveu cenários Marvel, cenários Mandalorian e por aí adiante. Outra das suas peças emblemáticas foi a casa dos Weasley, de Harry Potter. Neste fim de fevereiro, anda de volta do escritório de “O Padrinho”, o filme de Francis Ford Coppola, que celebra em 2022 os seus cinquenta anos.

De entre todos os trabalhos que já desenvolveu, há um que a marca especialmente: o seu primeiro diorama, o book nook, de Harry Potter. Ao que parece, a paixão por esta peça é tão grande que já o tentaram comprar, inclusive na Comic Con, mas ela não foi capaz de vender. “A razão está no facto de ter sido o primeiro e por ter sido a minha escada para sair de um sítio muito escuro”.

O processo de criação

Toda a dinâmica que envolve a criação das figuras e dioramas é, possivelmente, um dos pontos de maior interesse para quem é apaixonado não só por artes, mas também pelo universo da cultura pop. Por isso, a New in Seixal quis perceber como é que, na prática, as criações de Catarina saem da sua imaginação — e das próprias cenas quase fictícias — para a realidade.

“Eu trabalho com uma impressora 3D. Se eu tiver acesso a uma escultura 3D já feita por outro artista, que eu possa comprar o ficheiro ou que me possa ser facultado em esquema de parceria, eu consigo desenvolver todo o cenário à volta, pintar a figura e imprimir a figura”, começou por esclarecer a artista.

Isto na prática significa que as figuras são impressas em resina UV em estado líquido, que depois seca naquele sistema habitual semelhante ao que se usa para secar as unhas. Isto é, todo o processo funciona através de luz UV. Já tudo o que se relaciona com os dioramas, a construção envolve uma reciclagem de materiais.

“Eu reutilizo todos os materiais que houver. Cartão, acetatos, os plásticos, embalagens, os jornais, por exemplo, o Boletim do Seixal e o Boletim do Lidl. Eu coleciono isso tudo, desmancho e faço pasta de papel. Por exemplo, uma amiga minha tinha a impressora avariada, ia deitar aquilo no lixo e eu pedi-lhe para ela me dar. Desmantelei a impressora toda e tenho imensas peças espetaculares ali para fazer ou naves ou destroços ou cenários cyberpunk. Porque esses materiais são ricos. Aqui, a questão é um bocadinho a gente olhar à volta e pensar no que é que é possível transformar isto.”

Como deve, contudo, calcular, independentemente da peça que seja, as horas em torno dela são aquilo que mais valor tem. Não será com certeza estranho se lhe dissermos que esse mesmo tempo depende muito da complexidade da peça.

Por exemplo, uma miniatura em escala 1/10, sem contar com o tempo da própria impressão, porque isso varia de miniatura para miniatura, mas sim tendo em consideração as colagens, o lixar, os preenchimentos, pintar, etc., falamos numa peça para durar, em tempo útil, dois, três dias. Em tempo real, acaba por ser cerca de uma semana e meia, muito por culpa dos tempos de secagem.

Catarina explica que “uma miniatura como o Yoda, em que é só o boneco, com uma capa, com a mão e a bengala, é uma coisa. Uma miniatura como um Loki, onde existem dourados, os corninhos, o ceptro, uma máquina e por aí adiante é outra”.

Já quanto aos dioramas, também varia muito. Pense, por exemplo, num diorama do “Dune”, em que basicamente basta fazer uma planície com areia e uma ou duas micro personagens no meio. Isto até poderá ser uma coisa rápida e que termina e dois ou três dias. Agora, num caso totalmente oposto, se for o escritório de “O Padrinho”, são tempos absurdos. A artista revela que demorou quatro horas só a fazer a cadeira.

No entanto, os seus clientes são bastante acessíveis no que toca a esta demora na elaboração das peças. “As pessoas muitas das vezes respondem-me: ‘Se eu quisesse uma figura pronta para o momento eu ia à FNAC comprar. Eu quero é uma feita por ti. Portanto, demora o tempo que tu quiseres demorar’.” 

Neste mesmo processo de criação, a jovem artista seixalense faz questão de criar peças que sejam direcionadas para as pessoas que vão poder tê-las nas suas estantes. “Eu estou a fazer um Loki que vai agora para casa de uma menina que foi à Comic Con. A mãe quer-lhe fazer uma surpresa e encomendou a peça. Eu já estou a imaginá-la a desembrulhar aquela figura. E quando isso acontecer vai estar um bocadinho de mim na peça. Como eu costumo dizer, cada trabalho de mim leva o meu coração aos bocadinhos”.

Porém, preste atenção. Se for fã de cultura gore e no caso de ser um aficionado por produções como “The Walking Dead”, saiba desde já que não vai ver nada assim com muito sangue e ossos à mostra feito por Catarina. A artista detesta esse tipo de representações e não consegue mesmo materializá-las. O mesmo acontece com palhaços.

“Já me pediram para fazer uma figura do palhaço do “It” e eu pedi desculpa e disse que não era a artista para isso. A verdade é que eu não ia conseguir fazer aquilo. Seria um momento horrível para mim, porque vou ter de estar a olhar para a cara de um palhaço horas e horas a fio e eu tenho a certeza que o palhaço não vai ficar bem feito”.

O fascínio com o universo das miniaturas

Já vem desde miúda. Desde que se lembra de ser gente que Catarina é aficionada pelo mundo do maravilhoso e do fantástico. Quando era mesmo muito pequenina, tinha todas as VHS’s da Disney. Era louca por aquilo. Anos mais tarde tornou-se “completamente doida”, como assim o descreve, por jogos.

Depois, na juventude, tornou-se fã da cultura anime. Consumia muitas bandas desenhadas e adorava desenhar mangá. Além disso, assim como muitos outros jovens da sua geração, era daquelas pessoas que saía a correr das aulas para ir para casa ver “Dragon Ball”.

Quanto às justificações que deu para ser desde sempre puxada para este tipo de mundos, enumerou uma que faz todo o sentido. Ao que parece, esta era para a agora artista uma escapatória do mundo real. Mais concretamente o fenómeno País no Alice das Maravilhas, como assim o interpreta. Já vai perceber o porquê.

“Aquele fenómeno de imaginar que a pessoa fica muito pequenina e entra por aqueles mundinhos maravilhosos fascina-me. Demorei anos a perceber, mas agora reconheço que é exatamente daqui que vem o meu gosto pelas miniaturas”, explicou à NiS, acrescentando que, por exemplo, quando olhava para um aquário e via todos aqueles micro objetos lá dentro, ficava a imaginar como seria passear por ali. 

A juntar-se a isso, o tio de Catarina João é marceneiro. Tinha uma oficina mesmo junto à casa da avó da artista e sempre que ela para lá ia uma coisa era certa: era àquele espaço de construção do tio que ia parar. “Eu adorava aquilo, o cheiro da madeira, adoro construir coisas com as mãos.”

De miúda a adulta, a verdade é que a paixão se manteve. Pode ver os trabalhos de Catarina através da página do Instagram, sendo que é também por lá que pode fazer as suas encomendas. Segundo o que explica a artista, tudo é tratado de forma muito informal. Pode pedir todas as informações e orçamentos através de mensagem privada na plataforma.

Já que falamos neles, no que toca a preços, não há forma de lhe dizermos oficialmente quanto pode custar uma peça. Mais uma vez, tudo depende da própria complexidade do trabalho. Mas há, pelo menos, algumas referências.

Por exemplo, uma miniatura em escala 1/10 pode variar entre os 180€ e os 250€ e em casos de maior adornos, como leds, chega facilmente aos 300€. Já uma nave com 50 ou 60 centímetros pode custar 500€. Um diorama de um cenário com personagens e casas terá um custo a rondar os mil euros.

Além disso, depende muito da exclusividade. Há a possibilidade de ser pedido para que uma determinada peça seja exclusiva, ou seja, só de uma pessoa só. Obviamente, isto custará mais dinheiro. Depois, se falarmos de estátuas em tamanho real, os valores podem ser superior a 10 mil euros.

De seguida, carregue na galeria para conhecer algumas das peças únicas criadas pela seixalense Catarina João.

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