Laure Simon tinha apenas cinco anos quando descobriu que uma das grandes paixões da sua vida era a costura. A avó materna fazia costura, patchwork e tricô, o pai era fotógrafo e a mãe professora de música. “Adoro todo o tipo de trabalhos que envolvam criatividade, desde bordados a pintura e design”, conta a francesa de 40 anos. Décadas depois, já a viver no Seixal, recuperou esse sonho de infância e hoje vende as próprias criações online.
Apesar da ligação da família às artes, os pais nunca viram a costura como um caminho profissional. “Quando tinha cinco anos tinha este sonho de trabalhar em costura, mas os meus pais sempre me disseram que não podia seguir este caminho, nem sequer tirar um curso”, recorda. A preocupação era sobretudo com a estabilidade para a família, que a costura não garantia “um salário ou contrato estável”.
Laure chegou a fazer um curso de costura entre 2005 e 2006, mas o sonho acabou por ficar em suspenso. Em Paris, vivia num pequeno quarto e não tinha espaço para trabalhar. Depois vieram os filhos e a dificuldade de conciliar a vida familiar com a costura. Durante anos, praticamente não pegou nas agulhas.
Por estes dias, descreve o regresso à máquina de costura como “uma libertação.” Depois de tantos anos em que sentiu que aquela não era uma profissão que lhe permitiam seguir, está finalmente a tentar transformar a paixão de infância no seu próprio trabalho.
A história que a trouxe até aqui passou por vários locais. Depois de viver 25 anos em Paris e de passar pelo centro de França, surgiu, em 2018, uma oportunidade em Portugal. Veio trabalhar num call center, na área do atendimento ao cliente, e instalou-se no Seixal em julho desse ano.
Portugal surgiu graças às raízes portuguesas do marido. Durante os primeiros anos, a costura continuou reservada aos tempos livres, mas em março de 2020, com a pandemia, Laure passou a trabalhar a partir de casa e encontrou finalmente tempo e espaço para voltar à máquina de costura.
Entre o trabalho, os filhos e as tarefas de casa, costurava nas pausas, à hora de almoço, antes e depois do trabalho e aos fins de semana. Mas houve outro momento que mudou a forma como olhava para a vida. Em dezembro de 2019, antes de a pandemia se ter tornado conhecimento comum, ficou gravemente doente. Tudo começou com o que parecia ser uma gripe comum, mas pouco depois surgiu uma segunda doença, muito mais intensa. Na altura, nem Laure nem os médicos sabiam que poderia tratar-se de Covid-19.
“Fiquei mesmo muito doente e com muitas dificuldades em respirar”, recorda. Os problemas respiratórios foram graves e chegou a pensar que poderia não ter muito tempo. “A sensação foi horrível”, acrescenta.
Não chegou a ser internada. Não tinha dinheiro para recorrer ao hospital e também não tinha consciência da gravidade do seu estado. Hoje, acredita que esteve perto de morrer. A experiência deixou-lhe a certez de que não queria continuar a adiar aquilo de que realmente gostava.
Pouco depois, o teletrabalho deu-lhe a oportunidade de recuperar a paixão que tinha deixado de lado durante anos. Comprou uma máquina de costura, tecidos e começou a experimentar.
Durante toda a vida, Laure tinha ouvido da família que a costura não era uma profissão segura e que não lhe garantiria um salário ou um contrato estável, mas depois da doença, essa preocupação deixou de ter o mesmo peso. Se era aquilo que queria fazer, já não fazia sentido continuar a adiar. Entre março de 2020 e outubro de 2023, trabalhou a partir de casa e aproveitou todos os momentos livres para costurar. Pouco a pouco, aquilo que começou como o regresso a uma paixão antiga transformou-se num projeto de vida.
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“É uma libertação fazer aquilo de que gosto e que os meus pais nunca deixaram. A minha vida é muito melhor agora.” Para Laure, a costura é a concretização de um sonho que começou aos cinco anos.
Quando o teletrabalho terminou, em outubro de 2023, tentou encontrar outra solução profissional, mas não conseguiu voltar a trabalhar nas mesmas condições. A situação familiar também pesou na decisão. O segundo filho tem uma doença e desloca-se numa cadeira de rodas, o que exige acompanhamento e disponibilidade, nomeadamente para o levar e buscar à escola.
Decidiu então ficar em casa para se dedicar aos filhos e à costura. “Prefiro ter menos dinheiro e estar muito bem na minha cabeça e com os meus filhos”, frisa. Financeiramente, a decisão trouxe dificuldades, já que a família passou a viver essencialmente com o salário do marido, mas permitiu-lhe conciliar as responsabilidades familiares com aquilo que sempre quis fazer.
Hoje, tem em casa um quarto dedicado à costura, onde guarda a máquina, os tecidos e os restantes materiais. “Tenho um quarto especial para isso, com tecidos por todo o lado”, conta à New in Seixal. É ali que trabalha quando os filhos estão na escola ou ocupados, sem um horário fixo.
Também faz grande parte da roupa que veste. Ao longo dos anos, foi aprendendo, experimentando e adaptando diferentes modelos. Os restos de tecido que sobram não são, por norma, deitados fora: transforma-os em bolsas, elásticos para o cabelo e outros pequenos acessórios.
Começou a pensar em vender as peças em 2022, mas foi sobretudo a partir de 2023 que passou a apostar mais no negócio. Atualmente, as bolsas são o principal produto e custam a partir de 12€. As vendas são feitas sobretudo online, através da sua loja na plataforma Etsy, e as redes sociais ajudam-na a divulgar o trabalho.
Já participou em mercados de artesanato em Lisboa, mas percebeu que as vendas presenciais nem sempre compensavam os custos. Online, consegue chegar a clientes em Portugal e também em países como Espanha, França e Itália, sem deixar de trabalhar a partir de casa. Os elásticos para o cabelo, que custam 2€, são outro dos produtos disponíveis. Laure guarda alguns dos restos de tecido precisamente para os transformar nestes acessórios.
Nos primeiros tempos, experimentou peças simples, como tops, pequenas bolsas e alterações a roupa que já tinha. Aprendeu também através de cursos online e fez vários testes até ganhar confiança. Agora continua a criar protótipos e novos modelos, incluindo bolsas em patchwork. No tricô, dedica-se sobretudo aos cachecóis, especialmente durante os meses mais frios.
Carregue na galeria para conhecer o trabalho de Laure Simon.







