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Neste restaurante pode matar saudades da comida da mãe (e da avó) por 11€

As doses são generosas e há clientes que vêm de propósito à quinta-feira à procura da famosa costela assada.

Os pratos mudam todos os dias, mas há algo que nunca muda: quem entra no Sopão raramente fica pela primeira visita. Uns chegam porque ouviram falar das doses generosas. Outros porque alguém garantiu que ali ainda é possível almoçar por 11€ sem sair com fome. E há ainda quem regresse pela comida saborosa. Da cozinha saem receitas que fazem lembrar os almoços de domingo, desde o arroz acabado de fazer ao feijão bem temperado e aqueles pratos que sabem a casa.

Em Amora, este restaurante tornou-se um verdadeiro ponto de encontro para trabalhadores, famílias e clientes habituais, que já conhecem o ritual. Antes mesmo de escolherem entre a maminha grelhada, o frango com quiabo, a jardineira ou as tiras de porco preto, muitos limitam-se a perguntar qual é o prato do dia. A resposta muda diariamente. A sala cheia, essa, mantém-se praticamente igual.

O Sopão, na Rua Francisco Valença, abriu em 2012. À frente do projeto está Janice Maria, de 64 anos, brasileira natural de Vila Grande, no estado do Espírito Santo, e que se mudou para Portugal há mais de duas décadas. O restaurante nasceu de forma improvável e sem grandes planos de negócio, mas acabou por conquistar uma comunidade de clientes que continua a crescer graças ao mais antigo método de divulgação: o passa a palavra.

“O restaurante começou como uma brincadeira”, recorda a proprietária. Na altura, tinha um pequeno minimercado onde preparava algumas refeições para amigos que trabalhavam nas obras da zona. “Aos poucos, começaram a aparecer cada vez mais pessoas e passei a cozinhar arroz, feijão, farofa e outros pratos.”

Quando percebeu que aqueles almoços improvisados já tinham clientes fiéis, aproveitou o espaço ao lado da loja e transformou-o num restaurante. Até o nome acabou por nascer dessa relação de proximidade. “Os amigos diziam na brincadeira: ‘hoje vou ao Sopão porque é barato e a comida é boa’. Faziam uma festa com isso e acabei por ficar com o nome.”

Passados 14 anos, continua a receber clientes de várias nacionalidades. Nunca investiu em grandes campanhas de publicidade, já que os próprios clientes acabaram por recomendar o restaurante a familiares, colegas e amigos.

Há clientes que aparecem à quinta-feira só pela costela

Quem entra no Sopão sabe que dificilmente encontrará a mesma ementa dois dias seguidos. A filosofia da casa passa por cozinhar diariamente receitas diferentes, sempre acompanhadas por arroz, feijão, massa, salada e outros acompanhamentos, que transformam cada refeição num almoço completo.

Ao longo da semana, as sugestões vão alternando entre pratos portugueses e brasileiros. Num dia, chega à mesa frango com quiabo, maminha grelhada ou entrecosto assado. No seguinte aparecem tiras de porco preto, jardineira à portuguesa, moqueca de pescada ou tropeiro. Há ainda bifinhos de novilho, grelhados e outras propostas que vão sendo preparadas consoante os produtos disponíveis e a época do ano.

Mas às quintas-feiras existe um prato de eleição. “Faço costela de vaca assada no forno e há clientes que vêm de propósito nesse dia”, conta Janice, entre risos. Ao fim de semana surgem outras especialidades que já conquistaram os clientes habituais. A vaca atolada – carne de vaca estufada lentamente com mandioca – é um dos pratos mais procurados e continua a ser uma das receitas brasileiras mais difíceis de encontrar na região.

Nos dias quentes junta-se ainda uma salada fresca com maionese, peito de frango, cenoura ralada e batata-palha, enquanto no inverno regressam propostas mais reconfortantes, como feijoada ou dobrada com feijão branco.

A procura é tão consistente que raramente sobra comida. “Hoje fiz dez quilos de frango e cinco quilos de quiabo. Foi tudo”, conta. No dia seguinte, será outro prato a ocupar o lugar de destaque, mas o cenário repete-se.

Grande parte dessa fidelização nasce da recomendação. “Tenho muitos clientes que vêm de propósito diariamente. Outros chegam porque alguém lhes disse para experimentarem. Quem vem pela primeira vez gosta, volta e ainda traz outras pessoas.”

O maior elogio não é o preço acessível, mas as memórias que a comida desperta

Apesar de o preço ser um dos grandes atrativos, Janice acredita que não é isso que faz as pessoas regressarem. O prato do dia custa 11€ e inclui uma refeição completa, um valor que a proprietária foi ajustando ao longo dos anos, sempre a pensar no perfil de quem a visita.

“Muitos trabalham nas obras, têm um determinado orçamento e gostam de comida mais consistente. Procuro deixá-los satisfeitos ao serem bem servidos.” O verdadeiro segredo, garante, está na cozinha. “A comida que faço faz lembrar os pratos preparados pelas mães ou avós”, conta. É precisamente esse o comentário que mais ouve dos clientes. “Dizem: ‘lembrei-me agora da comida da minha mãe’, ou ‘este pudim fez-me lembrar a minha avó’.”

São palavras que continuam a emocioná-la, mesmo depois de tantos anos. “Sinto-me bem em transmitir esse sentimento de conforto.” Os ingredientes podem parecer simples, do alho à cebola, tomate, pimenta e muitos anos de experiência, mas a proprietária admite que há detalhes que prefere guardar para si. “Tenho os meus segredos”, diz. É essa combinação entre tempero, confeção lenta e sabores familiares que distingue o restaurante.

Atendimento começa muito antes de servir o almoço

No Sopão, a refeição não começa apenas quando o prato chega à mesa, mas na forma como cada cliente é recebido. Janice faz questão de conhecer quem entra pela primeira vez. “Quando chegam pessoas que não conheço, vou à mesa apresentar-me. Acho isso muito importante.”

Para a proprietária, um bom serviço não depende apenas do que chega à mesa. “É servir as pessoas com empatia, respeito e boa comida.” Essa preocupação estende-se a toda a equipa, que faz questão de manter um ambiente familiar e descontraído, onde muitos clientes acabam por conhecer os funcionários pelo nome.

Curiosamente, há outra pessoa que ajuda diariamente o restaurante, apesar de estar a milhares de quilómetros de distância. O filho de Janice vive no Brasil, mas é ele quem acompanha as redes sociais, publica os pratos do dia e segue as avaliações deixadas pelos clientes. “É ele que me liga e diz: ‘hoje ganharam cinco estrelas’ ou ‘hoje falaram muito bem do restaurante’.”

São também essas publicações que deram origem a frases que já se tornaram imagem de marca da casa, como “almoçar bem não tem de pesar na carteira” ou “final do mês não significa abdicar de um bom almoço”, mensagens que resumem a filosofia que acompanha o restaurante desde o primeiro dia.

O espaço tem capacidade para cerca de 35 pessoas e costuma encher rapidamente. Embora esteja aberto até às 15 horas, muitas vezes os pratos esgotam antes. “Às vezes às 14h40 já não tenho comida”, admite.

O Sopão dispõe ainda de serviço de take-away, que permite levar para casa algumas das especialidades. As encomendas podem ser feitas através do 961 256 509, uma solução útil para quem já conhece a rapidez com que as especialidades da casa desaparecem.

Longe de querer transformar radicalmente o conceito do restaurante, Janice prefere continuar a aperfeiçoar o que a trouxe até aqui. Vai introduzindo novidades, adaptando os menus às estações do ano, mas sem perder o que os clientes procuram quando atravessam a porta do Sopão: uma refeição generosa, bem confecionada e servida com simpatia.

Porque há sabores que alimentam muito mais do que o estômago, proporcionam aquela sensação de conforto e pertença. “O que mais me orgulha é a satisfação dos clientes. Falarem bem do restaurante é um orgulho.”

Carregue na galeria para descobrir o espaço onde Janice Maria dedica o seu tempo a fazer o melhor que sabe.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    R. Francisco Valença 22 2845
    2845-130 Amora
  • HORÁRIO
  • De segunda-feira a sábado do 12h às 15h. Encerrado ao Domingo.
PREÇO MÉDIO
Entre 10€ e 20€
TIPO DE COMIDA
Brasileira, Portuguesa, Churrasco, carnes

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