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João Macedo: “Consegui colocar o Seixal no mapa”

O chef seixalense contou a sua história de vida, mas não quis revelar como serão os novos projetos.
O chef seixalense.

O Núcleo Urbano Antigo do Seixal está repleto de boas propostas para uma experiência gastronómica e tudo começou com um sonho de João Macedo. Nascido no Seixal, o chef trouxe uma proposta inovadora que tem sido um sucesso no concelho, trazendo pessoas de vários pontos do País só para experimentarem as suas criações culinárias.

A paixão pelo universo da culinária começou em miúdo, sempre com um toque cabo-verdiano do lado do pai. Após o curso em Gestão Hoteleira e a passagem em vários espaços, como o Hotel Mundial, a mulher inscreveu-o no “MasterChef Portugal”, em 2015. Ainda que não tenha vencido a competição, aproveitou a fama para se aventurar no seu primeiro restaurante: a Mundet Factory.

Quase cinco anos depois, e com uma pandemia pelo meio, quase todos conhecem este espaço único no Seixal e o percurso de João Macedo, a cara do projeto. À New in Seixal, revelou as melhores memórias da infância no Seixal e também o percurso profissional até abrir a Mundet. Além disso, mostrou satisfação pelo impacto que o seu legado tem no reconhecimento do Seixal em Portugal.

Em que momento da sua vida é que aparece a culinária?
A cozinha sempre fez parte da minha vida. A minha mãe é uma grande cozinheira e toda a parte cabo-verdiana do lado do meu pai tinha grandes convívios à volta da mesa. Claro que ao longo da juventude fui sempre fazendo algumas brincadeiras em casa. Mas, com o início do curso de Gestão Hoteleira e a disciplina, começou a ficar mais vincado que adorava cozinhar. Fiz também outras coisas, trabalhei muitos anos à noite e jogava à bola. 

Quais são as primeiras memórias que tem na cozinha?
A primeira memória que eu tenho fo a cortar cebola com os óculos de natação, que era para não chorar. Essa foi a minha grande memória. Além disso, irritava-me desde miúdo porque é que só comíamos acompanhamentos como arroz, batata ou feijão. Lembro- me que um dia experimentei fazer um brás de legumes, que ainda hoje tenho na minha carta.

Nascido e criado no Seixal, o chef é uma das figuras mais conhecidas do concelho. Como foi crescer no Seixal?
Penso que crescemos os dois (chef e o concelho). Lembro-me quando abri a Mundet, a restauração na Margem Sul era muito pratos típicos ou grelhados. A Mundet julgo que veio abanar os alicerces da restauração neste lado do rio. Arriscámos ao trazer cozinhas do mundo e trouxemos uma mudança em termos de gastronomia, de representação e até de decoração do próprio espaço. Trouxemos outras culturas que normalmente só se comem noutras capitais e aqui aparece um espaço na periferia a fazer isso. 

O que recorda da sua infância no concelho?
As grandes memórias que tenho desse período eram basicamente passadas a jogar à bola, de manhã à noite. Tenho o orgulho de ter jogado no Seixal Futebol Clube. Mas, as memórias que eu tenho é a alegria de podermos brincar num concelho onde podíamos estar o dia todo na rua e tínhamos pomares ou amoras para comer. Tínhamos a liberdade de viver na natureza. É o que Seixal nos permitia.

Passou por vários espaços, como o Hotel Mundial. O que recorda desse período da sua carreira?
A maior experiência que levo é mesmo da minha passagem pelo Hotel Mundial, no Martim Moniz. Iniciei o projeto do rooftop do Hotel Mundial, que hoje em dia é um sucesso. Principalmente foi a hierarquia e a organização que o hotel transmitiu-me. Quando trabalhamos em restaurantes, em bares ou discotecas, não sentimos essa organização hoteleira. Acredito que foi esse o momento em que soube o que era ser profissional nesta área. Essa experiência levou-me a ser quem sou hoje.

Em 2015, participa no Masterchef Portugal. Porquê é que decidiu ir para o concurso de televisão?
Na verdade, foi uma brincadeira da minha mulher. Após ser pai, a vida muda um bocado, porque já não vamos tanto para as festas ou para as discotecas, e começamos a confraternizar em casa ou indo à casa de amigos. Todas as semanas acabava por fazer algo temático, como um jantar mexicano. Na brincadeira, a minha mulher inscreveu-me. Eu nem sabia, porque estava a trabalhar quando ela me informou que ia a um casting. Não seguia o programa e não sabia de nada. Lembro-me de ir ao primeiro casting e ter acabado de acontecer a erupção do vulcão da Ilha do Fogo, a terra do meu pai, e fiz um prato pensado nesse acontecimento, com produtos de Cabo Verde. Logo aí percebi que ia entrar no programa, porque as pessoas perceberam um bocado que a minha ideia é ir às histórias e às experiências que nos tocam.

Não venceu a edição em que participou. Era esse um objetivo?
Sinceramente, sabia que naquela altura, e vamos ser sinceros, eu era um cozinheiro amador. Com o decorrer dos programas, começas a perceber que nem toda a gente é amadora. Agora nas versões mais recentes já participam pessoas com negócios próprios e que já trabalharam em restaurantes. O meu grande objetivo é provar que me conseguia desafiar. Saber que, principalmente por causa da minha formação em marketing e publicidade, o objetivo era criar uma imagem e ter o meu próprio restaurante. Aliás, durante o programa já tinha um plano de negócios preparado.

Um ano depois da saída do programa, inaugurou a Mundet Factory. O plano sempre foi abrir um restaurante no Seixal?
Quando saí do programa, fui ao programa do Goucha por ser expulso do programa e falou-me de ter algo na minha terra. Liguei para a Câmara Municipal do Seixal, pedi autorização para fazer a reportagem do programa na Falua. Após esta parceria, comecei a pensar num restaurante no Seixal. Claro que não foi fácil, porque tive sempre o sonho de abrir algo na Mundet, porque foi ali que foram os nossos primeiros concertos e crescemos enquanto adolescentes. Se há algum monumento no Seixal, a Mundet é o principal. Não há nada melhor do que pegar na minha história e da fábrica, que era a maior exportadora do mundo de cortiça,e aconteceu logo um namoro imediato.

Nesse momento, a autarquia estava a requalificar a zona. Foi o momento ideal para criar o restaurante?
Em conjunto com a Câmara, com as obras de recuperação da marginal, foi uma boa altura e ajudou bastante. Fico muito feliz, penso que é um legado que vou deixar. Foi uma jogada arriscada, mas hoje em dia vejo outros espaços e outros restaurantes a dizer que se não fosse eu não teriam também arriscado e isso deixa-me feliz.

A equipa do restaurante.

Quase cinco anos depois, a Mundet Factory é um marco no concelho. Como vê esse reconhecimento?
Enche-me de orgulho. Tive um sonho e consegui mantê-lo e torná-lo num êxito. Consegui voltar a dignificar a história do concelho e da fábrica Mundet, consegui implementar a minha cozinha e o meu conceito, e ainda consegui pôr o Seixal no mapa. O Seixal não fica a caminho de nada, como se costuma dizer na zona, e ver passados cinco anos pessoas virem de Sintra, Oeiras ou Setúbal por causa da minha comida e do espaço, é a maior gratificação.

A sua cozinha é, sobretudo, internacional. Como é que a descreveria em apenas três palavras?
A minha comida é paixão, cultura e sabor.

O ano passado foi duro para vários setores, incluindo para a restauração. O que é que significou a pandemia para a Mundet?
Estamos a falar de 20 empregados e com um conceito que eu tenho muito inspirado não só na comida, mas na apresentação do prato e do próprio ambiente da Mundet. É muito difícil colocar isso tudo num saco para levar para casa e essa foi a grande dificuldade da Mundet. Enquanto um restaurante de pizzas podes ir lá e mandar a pizza para casa e não há problema nenhum, aqui não vens só para comer, mas para teres uma experiência. Além disso, manter 20 postos de trabalho foi uma grande dificuldade. Após abrir o restaurante, não deixa de ser sonho mas também passa a ser uma responsabilidade. Foi como começar tudo de novo e é voltar como se estivesse em 2016.

Faria algo de forma diferente nesse período?
Penso que todas as decisões foram bem ponderadas. Se calhar, teria começado com as entregas próprias ao domicílio e não estar tanto focado nas outras plataformas, que têm a sua margem. Mas, não estávamos preparados para isso. Nós abrimos restaurantes porque gostamos de estar com pessoas e agradar às pessoas. De um momento para o outro, estás a tentar socializar com uma caixa de plástico ou um saco de papel, foi muito frustrante. 

Após um novo confinamento no início do ano, quais foram as novidades lançadas para a reabertura?
A reabertura tem sido mega positiva. Começamos a meio gás só com as esplanadas, com um menu mais reduzido, que já ampliamos. As grandes novidades são que somos a primeira casa do concelho a ter gelados da Santini. A esplanada está com essa cor de verão. Além disso, temos parrilas novas e uma carta completamente nova de cocktails, com novidades que estão na moda. Invés de abrirmos com uma carta fechada, estamos a colocar novidades a cada duas semanas, e os susents têm sido um sucesso. 

Quer abrir um novo espaço no concelho ou não é algo que esteja nos seus planos?
Durante os cinco anos, tive inúmeros convites para várias coisas, mas eu sou só um. Tenho aqui um barco enorme, que para além de ser patrão e dono, também sou chef de cozinha, o que me ocupa imenso tempo. Se calhar, em breve pode acontecer alguma coisa, mas não é o meu foco abrir vários restaurantes. Pode ser que haja alguma coisa. 

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Refeitórios da Mundet, Praça 1º de Maio
    2840-485 Seixal
  • HORÁRIO
  • Terça a sábado
  • Das: 12:30
  • Às: 01:00
  • Domingo
  • Das: 12:30
  • Às: 19:00
PREÇO MÉDIO
Entre 20€ e 30€
TIPO DE COMIDA
internacional

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