O que começou com um grupo de amigos a juntar dinheiro para conseguir provar vinhos que dificilmente conseguiriam comprar sozinhos transformou-se no Sweet Wine of Mine, um projeto para descobrir pequenos produtores e aproximar os seus vinhos do público. Agora, preparam-se para levar essa paixão a um dos maiores eventos vínicos já realizados no concelho, o Seixal Wine Fest, que acontece este sábado, dia 3 de outubro.
Ricardo Portela, de 47 anos, e o irmão Tiago, de 41, são os rostos por detrás do projeto. Durante um encontro de amigos, enquanto bebiam um Pêra-Manca branco, surgiu a vontade de experimentar a versão tinto, mas o preço tornava a compra menos acessível: 385€ por um Pêra-Manca tinto 2015. A solução foi simples: juntar dinheiro entre todos e, mais tarde, comprar a garrafa.
“Foi assim que surgiu a ideia de fazer uma vaquinha para juntar o dinheiro ”, recorda Tiago. Assim nasceu um “clube de vinhos”, que começou com quatro amigos e que conta atualmente com 11. A cada dois meses, os participantes contribuem com uma quota de 35€ e, no final do ano, organizam um jantar para provar vinhos que, de outra forma, não estavam ao alcance de cada um.
Da paixão pela música ao Sweet Wine of Mine
No entanto, a ideia começou a crescer. Os irmãos, que partilham há muitos anos uma banda e a paixão pela música, decidiram transformar o gosto pelo vinho num projeto profissional. O nome surgiu dessa ligação à música. “Sweet Wine of Mine” é um trocadilho inspirado numa conhecida canção dos Guns N’ Roses e acabou por dar identidade ao projeto. O nome existe há cerca de quatro anos, mas a empresa só foi criada em 2025.
Antes de se dedicarem ao projeto a tempo inteiro, os dois trabalhavam numa empresa familiar ligada ao setor da hotelaria, onde mantinham contacto com restaurantes e hotéis, sobretudo em Lisboa. Foi dessa experiência que nasceram alguns dos contatos que acabaram por ser importantes para o crescimento do Sweet Wine of Mine.
A transição para o mundo dos vinhos começou pelos eventos. A dupla juntou-se a um amigo e começou a procurar produtores com quem pudesse criar parcerias. O primeiro jantar oficial aconteceu a 17 de abril de 2024, em Lisboa. O conceito era simples: juntar um restaurante, um produtor e uma seleção de vinhos. O espaço fica responsável pelo menu, enquanto o Sweet Wine of Mine trabalha com o produtor na escolha das referências que são servidas. Sempre que possível, o próprio produtor está presente.
“Os jantares começaram a acontecer porque achámos que era a melhor oportunidade de dar a conhecer os vinhos ao público. Como quase ninguém conhece os pequenos produtores, são vinhos que, para serem vendidos, têm mesmo de ser provados”, explica Tiago à New in Seixal.
A experiência acabou por se tornar uma das principais formas de apresentar os produtores com quem trabalham. Em vez de apostar apenas em referências conhecidas, os irmãos procuram projetos mais pequenos e vinhos com uma identidade própria. “Quando começámos a procurar vinhos diferentes, percebemos que os pequenos produtores tinham esse perfil: vinhos diferentes e que tinham uma filosofia muito própria. O objetivo não era fazer vinhos para as pessoas, mas nos quais eles acreditavam”, contam.
Atualmente, o Sweet Wine of Mine trabalha com 14 produtores e, além dos eventos, vende os vinhos através da loja online e procura colocá-los em restaurantes. A intenção passa por aproveitar a experiência que os irmãos já tinham na área da hotelaria para ajudar estas referências a chegar a novas cartas. “O nosso objetivo é ir tentando mudar esse conceito e que os restaurantes tenham vinhos diferentes para que os pequenos produtores possam entrar nos menus”, refere Ricardo.
O primeiro festival de vinhos do Seixal
“Começámos a ter muitos produtores e a pensar que era giro organizar um evento onde pudéssemos tê-los todos presentes”, explica Tiago. A ideia ganhou forma e transformou-se no Seixal Wine Fest, que acontece no Jardim da Praça dos Mártires da Liberdade, este sábado, dia 3 de outubro, das 14 às 20 horas.
A primeira edição reúne vários pequenos e médios produtores de diferentes regiões do País, além de projetos ligados à gastronomia, numa programação que pretende juntar provas, comida e experiências num só espaço. Entre os participantes estão Das Duas Uma e Venâncio Costa Lima, de Palmela, Herança Sanheiro e Tina, da Argentina, Aromas do Côa e RH Vinhos, do Douro, Encosta do Pinhal e Master Vitoria/Val do Rio, do Alentejo, Meu Quintal, da Região dos Vinhos Verdes, Adega Sampayo e Quinta da Atela, do Tejo, Rego Wines, da Beira Interior, e Adega Sampaio Schleiss, do Algarve.
Ao longo da tarde, os visitantes podem descobrir cerca de 50 referências de diferentes produtores. Para participar nas provas, basta adquirir o copo oficial do evento, que custa 5€. Além de permitir a degustação dos vinhos disponíveis, inclui um bilhete para um sorteio de quatro garrafas e um boletim de voto, com o qual o público poderá escolher os seus favoritos nas várias categorias: melhor vinho tinto, branco e rosé, melhor petisco e melhor projeto presente no festival. A entrada no recinto é gratuita e também estão previstos vários showcookings.
Uma prova de vinhos no meio do Tejo
Entre as propostas do programa está uma experiência pouco habitual: uma prova de vinhos comentada a bordo de uma embarcação tradicional, disponibilizada pela Câmara Municipal do Seixal. A ideia surgiu durante as conversações com a autarquia, quando os organizadores perceberam que existia a possibilidade de utilizar um dos barcos municipais. A proposta acabou por ter uma forte adesão e as vagas esgotaram.
Também a gastronomia foi pensada com uma forte componente local. A organização procurou envolver projetos do concelho e convidou vários restaurantes, como o Margem Certa e o 100 Peneiras, que fará um showcooking, além do produtor de mel do Seixal, Mel Real.
Mais do que reunir produtores, a intenção do Sweet Wine of Mine é dar palco a vinhos que dificilmente chegariam ao público. “É uma oportunidade única para as pessoas poderem provar vinhos que não estão à venda em supermercados ou em garrafeiras”, destaca Tiago.
Durante o festival, também vai ser possível comprar os vinhos dos produtores presentes, a preços especiais de feira. Para os irmãos, esta é uma forma de prolongar a experiência para lá do evento e permitir que quem encontrou uma nova referência possa continuar a consumi-la depois.
O Seixal Wine Fest é, para já, o maior evento organizado pelo Sweet Wine of Mine, mas não deverá ficar por aqui. “O nosso plano é que o Seixal Wine Fest se torne um evento anual. É esse o objetivo e vamos fazer os possíveis para que isso aconteça.”
Fora do festival, continuam os jantares vínicos, que costumam reunir cerca de 30 pessoas. Mas há outro projeto que gostariam de concretizar na Margem Sul: ter um espaço físico que junte uma garrafeira a um wine bar. A ideia seria permitir que os clientes pudessem ver os vinhos, prová-los e participar em eventos.
Quatro anos depois daquela primeira “vaquinha” entre amigos, o projeto cresceu para uma empresa, uma rede de 14 produtores e agora um festival com o objetivo de juntar todos esses mundos no mesmo espaço. Este sábado, Ricardo e Tiago levam ao Seixal a mesma lógica que esteve na origem do Sweet Wine of Mine: descobrir uma garrafa diferente e prová-la.
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