Agarrar na clássica receita da francesinha e, ao bife, linguiça e salsicha fresca, adicionar lagosta. A decisão poderia ser arriscada, fosse implementada mais a norte. Mas a verdade é que o chef Diogo Seixas não teme a ousadia de colocar a receita atrevida na carta do Ebulição, o restaurante do novo hotel do Seixal, o Upon Harbor, que está instalado no antigo complexo industrial da Mundet desde maio.
A lagosta surge, claro, de duas formas distintas: aninhada no recheio da francesinha e embebida no molho, onde o marisco ajuda a apurar os sabores. O chef batizou-a de “À Grande e à Francesa” e o preço corresponde ao nome: 29,9€.
Este é um dos pratos que ajuda a perceber o que o chef de 34 anos quer fazer no novo restaurante, depois de ter estado à frente do Omaggio, o restaurante do Praia do Sal Resort, em Alcochete, outra unidade do grupo StayUpon. A mudança para o Ebulição representa um novo desafio dentro do mesmo grupo e a oportunidade de desenvolver um conceito próprio num espaço ligado à história industrial do Seixal.
“Quero uma cozinha de partilha”, resume o chef. Em vez de cada pessoa escolher obrigatoriamente o seu prato, a ideia é encher a mesa com várias propostas e provar um pouco de cada uma. Foi a pensar nisso que a carta ficou dividida entre propostas mais pequenas e outras mais consistentes, vegetarianas, do mar e da terra. Entre cogumelos, lulas, pica-pau ou um prego de caranguejo, cada mesa pode construir a refeição à sua maneira.
É precisamente o “À Grande e à Francesa” (29,90€) que mais se destaca entre as propostas. A versão da francesinha do Ebulição leva lagosta, bife de alcatra, linguiça e salsicha fresca. O molho fica marcado pelo sabor da lagosta, mas acompanha a carne sem se sobrepor aos restantes elementos. É um dos pratos mais consistentes da carta e pode facilmente ocupar o centro da mesa numa refeição de partilha.
Para começar com algo mais pequeno, os Cogumelos à Solta (8€) juntam cogumelos eryngi, shitaki e shimeji, molho de alho assado, demi-glace vegetal e ovo escalfado. O molho de alho liga os diferentes cogumelos e o ovo acrescenta outra textura ao prato.
Do mar chegam os Ovos Rotos de Camarão (14€), o Camarão ao Alhinho com Cerveja (15€), as Lulas Crocantes com salada de manga, cebola roxa e aioli de lima (14€) e o Choco Frito com maionese de alho negro (13€). Depois há um prego que troca a carne por um caranguejo inteiro. O Prego de Caranguejo de Casca Mole (16€) é servido em bolo do caco com abacate, manga, cebola roxa e uma maionese ligeiramente picante. “É uma espécie de caranguejo de casca mole, que é frito e vem inteiro no bolo do caco”, nota o chef.

Nas carnes, há Pica-Pau de Lombinho de Novilho (17€), servido com pickle de cebola roxa e caviar de mostarda, Prego de Novilho no Bolo do Caco (15€) e Tártaro de Novilho com chips de mandioca (15€). O pica-pau é uma das sugestões destacadas pelo chef por ser uma proposta mais pequena e fácil de combinar com outros pratos.
Os nomes continuam a brincar com expressões populares portuguesas. O Mais Vale um Croquete na Mão que Dois a Voar são croquetes de rabo de boi, vendidos a 3,50€ por unidade. O Quem Não Arrisca, Não Petisca é o tártaro de novilho com chips de mandioca e o Isto Vai Dar Molho corresponde ao pica-pau de lombinho de novilho.
A brincadeira continua nas sobremesas, onde também aparecem versões diferentes de sabores conhecidos. O Quem Pêra Sempre Alcança (6€) junta pêra em calda de especiarias e vinho do Porto branco a gelado de noz. Já o Tira-me Isso (6€) apresenta o tiramisú em pequenas bolas acompanhadas por creme de mascarpone.
Mais inesperado é o Até te Espumas (6€), um pão de ló servido com espuma de queijo de Azeitão. A espuma tem um sabor marcado a queijo e não é doce, numa combinação pensada para quem prefere sabores fortes no final da refeição.
Para uma opção mais fresca, o É de Partir o Abacaxi a Rir (4,50€) combina abacaxi caramelizado, lima, hortelã e gelado de limão. Durante a semana também é possível passar pelo Ebulição para uma refeição mais rápida. O menu executivo custa 16,50€ e inclui couvert, prato principal e café.
A memória da antiga fábrica da Mundet não ficou à porta do Upon Harbor. O Ebulição, que está instalado imediatamente junto ao hall de entrada do hotel, senta cerca de 80 pessoas, no entanto, pode chegar às 200, mudando a disposição do espaço, se se tratar de um evento. Aqui existem várias referências ao passado industrial do edifício, misturadas com uma decoração mais atual. Terracota, castanho e vermelho dominam o espaço, com muita madeira pelo meio.
A cortiça, claro, também tinha de estar presente. Surge nos tecidos dos bancos e das poltronas, enquanto peças coloridas, candeeiros e pilares com padrões fortes dão mais personalidade à sala. Numa das paredes, vários quadros mostram documentos históricos da antiga fábrica, entre registos de controlo e horários.
Não há esplanada, mas dificilmente se perde a vista. As grandes paredes de vidro deixam entrar muita luz e mantêm a baía do Seixal e a paisagem ribeirinha mesmo ali ao lado. E não precisa de ficar hospedado no Upon Harbor para conhecer o Ebulição: o restaurante está aberto a todos os que lá queiram entrar.
Carregue na galeria para ver o espaço e alguns dos pratos.








