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A chef seixalense que faz os petiscos mais tradicionais — e que já serviu Zidane

Passou pela Alemanha, França e Inglaterra, mas é no Seixal que está o seu coração. E os dois restaurantes da sua autoria.
A cara do 100 Peneiras.

A fachada azul e amarela do número 27 da Rua Paiva Coelho, no Seixal, é um dos locais mais conhecidos dos seixalenses. Lá dentro, o cheiro a comida portuguesa e a música ambiente convidam a qualquer hora do dia para entrar e experimentar as iguarias do 100 Peneiras — claro que também pode ficar pela esplanada. 

Quem manda na cozinha é a chef Dina Oliveira, com 44 anos, formada pelo Instituto Paul Bocuse, em Lyon, e pela Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril. Esta seixalense é considerada a alma e a arte da taberna mais portuguesa do Seixal. “Sempre tive um gosto muito grande pela cozinha, até porque tanto o meu pai como a minha mãe eram grandes cozinheiros lá em casa”, explica à New in Seixal.

Desde miúda que se habitou a ir ao mercado comprar (e escolher) os ingredientes para ajudar na confeção das refeições em casa. Com o gosto muito refinado, a culinária acabou por ser um passo natural na vida de Dina. Após tirar um curso de empregada de mesa e bar, aos 18 anos decidiu ir para a Alemanha. “Pensava que Portugal era pequeno para mim nesse momento e sempre gostei de estar em sítios diferentes.”

Teve a oportunidade de trabalhar como ajudante de cozinha numa empresa de construção alemã e aceitou a proposta. “A única coisa que fiz por lá foi só trabalhar e conhecer o país quase de norte a sul, que era um dos meus objetivos quando fui para a Alemanha.” Além de viajar, aproveitou para juntar dinheiro e cumprir o seu sonho: ter um restaurante.

Dois anos depois da saída, considerou a possibilidade de continuar por lá, mas preferiu ir para Inglaterra trabalhar (e conhecer mais um país). Quando regressou de Inglaterra, já tinha experiência suficiente e dinheiro poupado para abrir um restaurante. O seu primeiro espaço chamou-se Cantinho Alentejano e contou com a ajuda dos pais de Dina, que trouxerem a experiência e os sabores mais ligados ao pão, no caso do pai que era do interior do Alentejo, e do peixe, no caso da mãe, do Cercal.

“O restaurante acabou por ter muita influência alentejana por causa do meu convívio com os animais no Alentejo, dos mercados alentejanos e com a partilha à mesa habitual nessa zona”. Inicialmente, a ideia era só fazer petiscos, mas quando se apercebeu já só quase fazia comida típica alentejana e foi aí que decidiu chamar os pais, até porque considera serem os melhores no que fazem.

A emigração pela segunda vez

Em 2012, o marido, Luís Oliveira, teve uma proposta de trabalho em França e Dina voltou a pegar nas malas para partir rumo a um novo destino. “Dei-lhe todo o apoio para ele poder seguir esse caminho e lá aproveitei para estudar e adquirir novas técnicas, porque fui chefe de cozinha em vários restaurantes.”

Dina e Luís.

O casal seixalense emigrou para a zona de Aix-En-Provence, em França, e não teve muitas dificuldades em adaptar-se. Dina sempre gostou da cozinha, dos ingredientes, da cultura e até da facilidade que teve em conseguir assumir um papel de destaque. “É muito difícil conseguir que um português seja chef de cozinha num restaurante francês, mas eu consegui.”

Desse período há uma história que não consegue esquecer. Como o seu restaurante estava próximo da escola de futebol que Zidane tinha em França, o ex-jogador e treinador de futebol costumava ser cliente habitual no espaço. O patrão de Dina pedia-lhe para ser ela a servir a estrela francesa, até porque era ela que fazia os pratos.

Com toda a tranquilidade, que a carateriza, aceitou o pedido e quis dar-lhe a experimentar um prato português. No meio do entusiasmo, esqueceu-se de perguntar sobre possíveis alergias. Quando chegou à mesa com um polvo à lagareiro, Zidane percebeu que tinha coentros — e que não podia comer por causa da alergia. “Acabei por ter que fazer um novo, sem problema nenhum, e é uma experiência que marcou muito.”

O surgimento do 100 Peneiras

No final de 2015 regressou a Portugal, mas foi apenas em 2018 que se aventurou em conjunto com o marido num projeto diferenciador. “O nome não foi difícil até porque eu sou uma pessoa sem peneiras e muito terra a terra naquilo que faço.”

O Seixal esteve sempre nos planos deste casal, até porque são os dois seixalenses, e era uma zona que queriam ajudar a dinamizar. O objetivo foi criar um espaço que recuperasse a tradição das tabernas antigas do Seixal, mas com um toque moderno para uma experiência gastronómica diferente. “Não quisemos criar um restaurante que não fosse nas nossas raízes.”

Pode comer os pratos da Dina com esta vista.

Dina classifica a sua cozinha em três palavras: tradicional, inovadora e sem peneiras. Os pré-preparados não são a sua escolha e prefere optar por tudo o que é feito no momento, com produtos frescos e com a qualidade sempre garantida. Não consegue escolher apenas um prato preferido, há apenas uma condição: tem de gostar de os comer e fazer. “Das coisas mais maravilhosas que eu sinto é quando me chamam para agradecer. Sinto que o meu objetivo está cumprido.”

O pastel da fidalga é a marca de Dina

O segundo espaço, o Acqua Seixal, aparece um ano mais tarde, inspirado por um doce antigo. Baseado na história da Quinta da Fidalga, onde foi criado um doce à base de ovos, amêndoas e açúcar, que inspirou uma fidalga a lutar pela sua paixão e casar-se com o homem que queria em 1867, Dina Oliveira criou uma receita de um pastel conventual 100 por cento original.

O pastel é uma referência da doçaria regional, já esteve nomeado na competição das 7 Maravilhas Doces de Portugal e foi medalha de ouro no Concurso Nacional de Doçaria Rica Tradicional Portuguesa. O doce leva gemas de ovos, amêndoas e açúcar.

O pastel da fidalga.

“Como estávamos ocupados com o 100 Peneiras, só conseguíamos fazer o doce quando a cozinha fechava e no dia seguinte esgotava logo.” Aquilo que começou por ser um passatempo acabava por ser mais uma responsabilidade horária e perceberam que poderiam abrir um espaço para a produção do pastel da fidalga. 

Surgiu um espaço no Seixal, mesmo em frente à Baía, e decidiram que seria aí o local de confeção. “Optámos também por criar os nossos próprios gelados artesanais com uma máquina diferente.” Quase dois anos depois do último projeto de restauração, continua muito ativa a dinamizar o 100 Peneiras com eventos diferentes, como uma batalha de street food.

Os gelados do Acqua.

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